Ela sente que ele não a ouve.
Ele sente que ela nunca está satisfeita com o que faz.
A conversa começa calma, mas poucos minutos depois repete-se o mesmo padrão: ela insiste, ele afasta-se.
No final, ambos ficam com a sensação de que o outro não compreende nada. Curiosamente, muitos casais vivem variações desta mesma história.
E isso acontece numa dimensão em que uma relação não é apenas entre duas pessoas.
A terapia familiar sistémica propõe uma ideia curiosa: quando duas pessoas formam um casal, nasce entre elas algo novo: o próprio casal.
Não é apenas a soma de duas personalidades. É uma espécie de terceiro elemento relacional. Cuja essência é nutrida e orientada conforme a forma como cada um interage com a outra pessoa. Ele passava o dia no trabalho, comunicava a todos com autoridade e, diriam alguns, alguma arrogância. É uma pessoa que sabe o que faz, diriam outros.
Mas quando chega a casa, ou melhor mesmo antes de entrar em casa. Ele ajeita a gravata e, neste pequeno gesto, é como se desfizesse também a máscara de poder que teve de colocar o dia inteiro. Quando entra em casa, e mais especificamente, quando vê a sua mulher, a sua vontade é de se enrolar no seu colo… Então, quando se aproximava dela, já com os ombros caídos, e um género de "beicinho" nos lábios e proferia as seguintes palavras "Amorzinho..." como um soar das sirenes de alarme a tocar quando pedem abrigo.
Este é o gênero de ritual aprendido numa relação fictícia por mim imaginada. Combinam, claro, a minha imaginação já muito toldada de anos de escuta de histórias semelhantes que me permitem estabelecer um padrão e relacionar com este artigo.
Com isto quero falar do quão comum, e natural isto é.
O terapeuta familiar Philippe Caillé descreve esta ideia de forma simples: quando duas pessoas formam um casal, nasce uma terceira entidade: o próprio casal, com identidade e dinâmica próprias.
Esta ideia pode parecer abstrata à primeira vista, mas ela ajuda a explicar muitos dos comportamentos que vemos nas relações.
Com o tempo, cada casal começa a desenvolver uma espécie de cultura própria. Tal como acontece numa família, numa equipa ou numa comunidade, surgem hábitos, expectativas e regras silenciosas.
Alguns exemplos são fáceis de reconhecer. Há casais que discutem rapidamente, dizem tudo o que pensam e resolvem as tensões no momento.
Outros evitam conflitos a todo o custo. Quando surge um problema, preferem silêncio ou mudança de assunto.
Nenhuma destas formas é necessariamente melhor ou pior. O importante é perceber que essas formas de reagir pertencem muitas vezes à relação, não apenas a uma pessoa.
Um dos fenómenos mais comuns nas relações é a repetição de discussões semelhantes.
Casais podem discutir durante anos sobre temas aparentemente diferentes: dinheiro, tarefas domésticas, tempo livre. E ainda assim sentir que o conflito é sempre o mesmo. Isto acontece porque muitos conflitos fazem parte de padrões relacionais.
"Quando ela se silencia, ele fica exasperado! Parece que o silêncio dela é um ferrão no seu coração. E ele começa de todas as formas a chamar a atenção dela. Ora grita, ora dá beijinhos. Para ela, aquelas tentativas desordenadas são tão imprevisíveis que assustam e a colocam cada vez mais à defesa… Ele acaba por desistir, mas sente-se triste e em falta. Ela acalma quando ele desiste, mas sente-se triste e em culpa. "
A relação criou um padrão de dança relacional.
Cada passo de um provoca o passo do outro.
A terapia familiar sistémica propõe olhar para as relações como sistemas. Num sistema, os comportamentos de cada elemento influenciam os outros. Mudanças num ponto podem alterar toda a dinâmica.
Isso significa que, para compreender um casal, não basta analisar cada pessoa isoladamente. É necessário observar o que acontece entre elas. Por vezes, e quero reforçar o 'por vezes', o problema não está em traços de personalidade ou intenções negativas. Está na forma como a relação se organizou ao longo do tempo.
Imaginemos um casal fictício.
Ela cresceu numa família onde discutir era sinal de proximidade. Quando havia conflito, todos falavam intensamente e depois faziam as pazes. Ele cresceu numa casa onde os conflitos eram evitados. O silêncio era a forma de manter a paz.
Quando ela levanta um problema, ele interpreta isso como um ataque e tenta afastar-se.
Quando ele se afasta, ela sente que não está a ser ouvida e aumenta a intensidade da conversa.
Nenhum deles está necessariamente errado.
O que acontece é que duas histórias emocionais diferentes estão a encontrar-se dentro da mesma relação.
Uma das mudanças mais importantes que esta perspetiva traz é na forma como olhamos para os conflitos. Em vez de perguntar:
Quem começou?
Quem está certo?
Perguntamos:
Que tipo de dinâmica está a acontecer entre nós?
Esta mudança de perspetiva pode aliviar muito da tensão que os casais sentem. Porque o foco deixa de estar apenas nas pessoas e passa para o funcionamento da relação.
Tal como os indivíduos aprendem e se transformam, as relações também aprendem. Um casal pode aprender novas formas de comunicar, novas formas de lidar com conflito e novas formas de expressar cuidado. Pequenas mudanças podem alterar profundamente a dinâmica.
Uma pausa antes de responder.
Uma pergunta curiosa em vez de uma crítica.
Um momento de escuta genuína.
Esses pequenos gestos podem começar a transformar o “terceiro elemento” que existe entre duas pessoas.
Se um casal é algo que se constrói ao longo do tempo, talvez a pergunta mais importante seja esta:
Que tipo de relação estamos a criar entre nós?
Porque, no fundo, uma relação não é apenas o encontro de duas pessoas. É também a construção contínua de um espaço comum. E esse espaço está sempre em transformação.
Um abraço
Mafalda
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