"Temos de aceitar"


O peso invisível do sexismo, saúde mental e os contratos silenciosos dos casais

"É assim, o mundo é assim, tem-se de viver nele." Uma frase dita com cansaço, às vezes com uma serenidade aparenta uma sabedoria. Às vezes é mesmo sabedoria, porque a experiência demonstra uma ausência de segurança para ser de outra forma. Outras vezes é o som de uma desistência. 

Quanto mais experiência em terapia de casal tenho, mais necessidade de explorar e conhecer estas assimetrias de poder sinto, mas ainda mais pelo reconhecimento de que é diferente para o homem e para a mulher, o poder digo. Que a sociedade, os amigos, as relações no geral começam num desequilíbrio já à partida, mesmo com toda a boa vontade das partes. As emoções facilitam, mas reconhecer a dor que não nos toca, mas que represento... É um ponto de dor que a não ser reconhecido, torna-se irreconciliável. 

Este texto é sobre o que está por baixo da frase, "temos de aceitar como é" e sobre o que encontrei na investigação, sobre o que ainda não sabe, acerca do modo como viver exposta ao sexismo impacta na saúde mental das mulheres. E é sobre o terreno onde trabalho todos os dias: o que acontece quando esse peso entra dentro de uma relação a dois.

Vão notar que os sintomas, as causas poderiam ser quaisquer outras, mas este artigo vai focar numa das secções: o impacto do sexismo. Que poderá associar a outras secções, em que a discriminação, ou assimetrias de poder estejam presentes. 

Aviso que o artigo faz duas coisas, que vou assinalar pelo caminho. Numa parte, descrevo o que os estudos mostram, com as fragilidades necessárias para compreender o que existe. Noutra, vou entrelaçar a minha leitura clínica, construída em sessões, e, por isso é um argumento meu e não consenso científico. Vais saber sempre em que registo estamos.

Parte I | De onde vêm as palavras

Antes de falar de impacto, vale a pena saber de onde vêm os termos. De onde surgem os conceitos, a história das palavras mostra que elas nasceram quase todas para tornar visível algo que antes não tinha nome e o que não tem nome não dá para cuidar.

Sexismo

A palavra é muito recente, terá sido cunhada em 1965, por Pauline Leet, num fórum em Franklin and Marshall College. Surgiu num discurso de Caroline Bird em 1968, "On Being Born Female". Foi construída por decalque do "racismo". As ativistas do movimento de direitos civis e do movimento de mulheres nos Estados Unidos quiseram traçar um paralelo entre a opressão baseada na raça e a opressão baseada no sexo. Bird definiu-o com simplicidade: julgar as pessoas pelo seu sexo quando o sexo não importa.

A definição atual é mais ampla: sexismo é o preconceito, a discriminação ou a estereotipia com base no sexo ou no género, dirigido na maioria dos casos contra mulheres e raparigas, e baseado na ideia de que um género vale menos do que o outro. Manifesta-se em três planos com efeitos diferentes: o sexismo hostil, abertamente depreciativo; o sexismo benevolente, que adiante explico, mas que tem aparência protetora; e o sexismo estrutural, inscrito nas instituições, nas leis, na divisão do trabalho.

Nota: Preconceito é o que se sabe e, que precede ao conhecimento e compreensão de determinado conceito.

Sexo, género e os comentários que daqui derivam

Convém separar dois conceitos que a linguagem popular confunde. Sexo refere-se às características biológicas. Género refere-se aos papéis, comportamentos e atributos que uma sociedade considera próprios de homens e de mulheres. É uma construção social, não um dado da natureza. O sexismo opera sobretudo sobre o género: não dirigido ao corpo, mas visa punir o desvio em relação ao guião socialmente estabelecido ao género. É por isto que a mulher que manda é "mandona" e o homem que manda é "líder"; que a mulher que negoceia é considerada "difícil" e o homem que negoceia é "competente". Ou seja, características associadas a um comportamento associado ao que é esperado de cada género. 

Os comentários sexistas do quotidiano são a forma mais frequente e mais subestimada deste mecanismo. Olhares insinuantes, toques indesejados, comentários sobre o corpo, a piada que diminui, o elogio que afinal avalia, a desvalorização da opinião, o pressuposto de que ela trata da casa e das crianças. Cada um, isolado, parece pequeno. É precisamente por serem pequenos que os torna eficazes: são fáceis de dispensar, difíceis de nomear e acumulam-se. E é aqui que tem impacto na saúde mental, porque, como vamos ver, esta acumulação tem custo mesmo quando a mulher não atribui importância.

Parte II | O que a ciência mostra 

Uma associação séria, ainda que mais modesta do que a indignação gostaria

Existe uma relação consistente entre experiências de discriminação e pior bem-estar psicológico. A maior síntese disponível: uma meta-análise de centenas de estudos, com mais de cento e quarenta mil participantes, que encontra uma associação negativa fiável entre discriminação percebida e bem-estar. O tamanho médio dessa associação é modesto. E, curiosamente, o efeito tende a ser mais fraco para o sexismo do que para outros estigmas. 

A razão provável é a ambiguidade com que apresentam. Um insulto racial é difícil de negar. Um comentário sexista dilui-se com facilidade em "foi só uma piada", "ele não quis mal", "se calhar fui eu que exagerei". Essa ambiguidade permanente, a possibilidade de duvidar da própria leitura fazem parte do próprio mecanismo de dano.

Os sintomas aparecem mesmo quando a mulher desvaloriza o sexismo

Aqui está um dos dados mais importantes e o que mais interessa a quem trabalha com casais. Landrine e Klonoff (1997) mostraram que é a presença e a frequência dos eventos sexistas, e não a avaliação subjetiva que a mulher faz deles, que predizem os seus sintomas. Quer ela ache os atos perturbadores, quer os dispense como inconsequentes, faz pouca diferença: os atos contribuem para os sintomas de qualquer forma.
Isto tem uma consequência clínica enorme. Uma mulher pode dizer, com convicção, que aquele comentário não a incomodou, que aquela dinâmica em casa é normal, que "não é nada de especial" e o corpo e o humor dela contam outra história. Desvalorizar o sexismo não protege dos seus efeitos, negá-lo ou evitá-lo também não. O sofrimento não depende da mulher o nomear sequer.

Há um segundo dado que vale toda a atenção. Quando se compara a sintomatologia de mulheres e homens, as mulheres que relatam sexismo frequente têm mais sintomas do que os homens em praticamente todas as medidas; as mulheres que relatam pouco sexismo não diferem dos homens em nenhuma. Parte daquilo a que chamamos "as mulheres deprimem mais", "as mulheres somatizam mais" pode ser uma propriedade de se viver exposta ao sexismo, e não do facto de se ser mulher. É uma hipótese forte. Devo dizer com transparência que se baseia sobretudo em estudos transversais, que não demonstram relação causal.

A relevância dos sintomas

A depressão, é o quadro sintomatológico mais estudado e liga-se a eventos sexistas, não exclusivamente. A discriminação de género, a objetificação sexual e o sexismo hostil. Os mecanismos convergem para a objetificação que leva à vergonha do corpo, o silenciamento das próprias necessidades e da raiva para preservar a relação, a ruminação e a desvalorização interiorizada que corrói o sentido de valor. Permanece porque quase todos estes mecanismos se alimentam a si próprios. A ruminação é um foco passivo e repetido no mal-estar e nas suas causas, e é talvez o mecanismo de relevância, pois mantém um esquema de pensamentos, normalmente depressivos: agrava a depressão, intensifica o pensamento negativo, prejudica a resolução de problemas e erode o apoio social. Atravessa a depressão, a ansiedade, o uso de substâncias e as perturbações alimentares.

Sintomas de ansiedade também se ligam à objetificação, sob a forma de ansiedade com a aparência, e à antecipação de discriminação. O mecanismo central é a vigilância em antecipação de algo: a monitorização constante do próximo comentário, da próxima avaliação. Persiste por ser antecipatória, mantém o sistema de stress ligado entre os acontecimentos, não apenas ao longo dos mesmos. A ameaça não precisa de acontecer. Basta ser sempre possível. 

Sintomas de trauma e perturbação de stress pós-traumático, conectados ao assédio sexual, de forma proporcional à frequência, à violência sexual e/ou à violência baseada no género. Para o sexismo quotidiano onde se verifica a desvalorização repetida e não catastrófica que pode ter efeitos traumáticos por acumulação, mesmo sem um único acontecimento que preencha os critérios clássicos de trauma. É um conceito clinicamente fértil, mesmo sendo mais um enquadramento teórico do que uma categoria com forte validação empírica própria.

Perturbações alimentares e da imagem corporal.  A evidência é das mais sólidas e o mecanismo dos mais bem especificados. A cadeia é: experiências de objetificação sexual, depois auto-objetificação (passar a olhar para o próprio corpo do ponto de vista de um observador), depois vigilância corporal habitual, depois vergonha do corpo, depois alimentação perturbada. Esta sequência foi testada e replicada em mulheres de diferentes grupos. Permanece porque a vigilância corporal se torna um estilo cognitivo entranhado, realimentado pela cultura e pelas redes sociais.

O silêncio do que se sente e do que se pensa, ou sobre a forma como nos vemos,conectam-se à socialização relacional de género. O mecanismo, descrito por Dana Jack, é a supressão do self autêntico para manter a relação, por isso não expressamos a necessidade, a discordância, a raiva, na esperança de preservar o vínculo. Torna-se um esquema relacional duradouro, reforçado de cada vez que o silêncio parece ter resultado.

Todos estes devem ser analisados à vista do contexto, a persistência das situações que os despoletam em relação à própria pessoa, mas também com as pessoas em volta. Uma intervenção que foque apenas no sintoma, excluindo o contexto, será sempre menos sustentável, pois o perigo é a pessoa bater de frente com os entraves que vive nas relações à sua volta. 

O caso contra-intuitivo do sexismo "benevolente"

O sexismo subjetivamente positivo, o protetor, o paternalista, o "deixa que eu trato disso, és demasiado preciosa para te preocupares": pode ser, em certos planos, mais prejudicial do que o hostil. Estudos experimentais mostram que prejudica o desempenho cognitivo das mulheres e que esse efeito é mediado por intrusões mentais sobre a própria competência: a dúvida que se instala. O sexismo hostil convida à indignação, que é uma forma de defesa. O benevolente desarma essa defesa por se apresentar como cuidado e alimenta o mesmo ciclo de dúvida sobre si mesma e ruminação sem ser explicitamente negativo. Em terapia de casal, costuma ser invisível para ambas as pessoas do casal. É por isso que é tão difícil de trabalhar, precisamente pelo quão "benevolente" possa incluir uma intencionalidade positiva. 

Se levares alguma coisa deste artigo para a tua vida ou para a tua clínica, leva também o seguinte:

Os tamanhos de efeito médios são modestos e grande parte da evidência é correlacional. Há apoio causal, vindo de estudos experimentais e de alguns longitudinais que controlam o bem-estar inicial. A maioria das ligações sintoma a sintoma assenta em mediação transversal, que não estabelece a ordem temporal nem a causa. Não devemos estabelecer causa-efeito sem a devida compreensão destas nuances.

Outro ponto importante: o mecanismo fisiológico, pelo menos na informação encontrada, não está demonstrado para o sexismo. Existe uma hipótese influente, a do desgaste (*weathering*), segundo a qual a exposição crónica à adversidade social produz deterioração fisiológica acumulada, via ativação repetida dos sistemas de stress. Está bem demonstrada para o racismo. Para o sexismo, está por demonstrar. 

Em uma revisão sistemática da relação entre discriminação e carga alostática não se encontra um único estudo que use o género como exposição. Quando ouvires, ou escreveres, que "o sexismo fica inscrito no corpo das mulheres", trata isso como extrapolação plausível a partir da literatura do racismo, não como facto estabelecido.

Muita da investigação usa amostras universitárias e ocidentais, e os instrumentos fundadores são sobretudo norte-americanos. A transposição para o contexto português e europeu, e para mulheres mais velhas, de classes trabalhadoras e racializadas, deve fazer-se com cuidado.

A causalidade inversa não pode ser totalmente excluída. É possível que o mal-estar aumente a perceção de discriminação, e não apenas o contrário. Nada disto anula o que falámos, mas obriga a sustentá-lo com humildade e transparência, que é diferente de o sustentar com menos força.

Parte III | O sexismo internalizado

A partir daqui o registo muda, vou manter-me ancorada na investigação, mas começo a construir leitura clínica. Fica a nota.

De onde vem o conceito de sexismo internalizado e o que é

A ideia tem raiz no conceito de opressão internalizada, descrito a propósito do preconceito por Gordon Allport em 1954: onde as práticas opressivas continuam a operar mesmo quando nenhum membro do grupo opressor está presente. 

Aplicada às mulheres, ganhou nome próprio e operacionalização com Bearman, Korobov e Thorne em 2009, no trabalho "The Fabric of Internalized Sexism". Definiram-no como o conjunto de comportamentos sexistas que as mulheres aprendem e passam a exercer sobre si próprias e sobre outras mulheres. 

Observaram, num dado que impressiona, episódios de sexismo internalizado a uma média de onze vezes por cada dez minutos de conversa entre mulheres jovens. Existem instrumentos para o medir, como a Internalized Misogyny Scale. A aceitação do conceito é séria e, claro, controversa, mas a objeção merece ser conhecida porque é exatamente a que importa em clínica. 

Logo no número em que foi publicado, Jessica Willis (2009) criticou o trabalho por reproduzir o que pretendia denunciar: ao localizar o sexismo "dentro" da mulher, corre-se o risco de a tornar, mais uma vez, o objeto patológico a corrigir, retirando o foco das estruturas que produzem o problema. Esta tensão é e deve ser o foco central para quem trabalha com estes temas: nomear o sexismo internalizado de uma mulher pode libertá-la ou pode ser mais uma forma de lhe dizer que o defeito é dela.

Na prática...

O sexismo internalizado é a desvalorização das mulheres que deixou de se sentir como vinda de fora. É a frase "sou exagerada", "ele é que é o racional", "não quero ser uma daquelas feministas histéricas",  dita pela própria mulher, sobre si própria, como se fosse uma verdade que descobriu e não uma crença aprendida. A investigação mostra que intensifica a ligação entre os eventos sexistas e o sofrimento e que prediz mal-estar de forma independente das suas causas.

A primeira coisa a perceber é a que torna tudo difícil, não há uma mulher isenta, à espera de ser libertada. O sexismo internalizado não é uma camada de tinta sobre o self verdadeiro. Constituiu partes do self! Foi com ele que ela aprendeu a ser amada, a pertencer, a ser "uma boa mulher". Pedir-lhe que o separe do que é dela é, muitas vezes, pedir-lhe uma cirurgia num tecido onde não existe plano de corte.

O que aprendi a respeitar ao trabalhar estes temas.

O sexismo internalizado protege-se por se sentir como verdadeiro. Não está ancorado por lógica, mas encontra-se associado a sentimentos de vergonha e de medo. Mostrar a uma mulher que uma crença sua é sexista quase nunca a muda, porque o objectivo importante não é a crença. É o medo que a sustenta: "se exijo, sou difícil" ou "se sou difícil, sou abandonada." Trata-se do medo do abandono e da vergonha, e a crença pode (se tudo correr bem) sofrer alterações. Ao dirigirmos-nos à crença de frente, o medo aperta-a com mais força. As crenças têm de ser reconhecidas e respeitadas sempre, pela sua função organizadora e protectora. 

Nós precisamos de entender a realidade tal como ela é, no entanto, só o conseguimos fazer caso existam recursos para o fazer. E esses recursos devem ser partilhados ativamente:  literacia emocional, compreensão das forças, tomada de decisão informada. 

Esta parte que se forma em nós e providencia benefícios para a sua sobrevivência em relação aos outros importantes. Esta é a parte que a literatura, focada nos custos, tende a esquecer. O sexismo internalizado deu pertença, segurança, aprovação, a identidade tranquilizadora de quem cumpre o seu papel. Enquanto não se reconhece o que ela ganha em mantê-lo, está-se a pedir-lhe que largue uma estratégia que funcionou, sem nada no lugar. A pergunta não é "vês como isto te prejudica?" É "o que é que isto te tem proporcionado, e estás disposta a perder isso?" Porque pode não estar, somos humanos e isso estará ok. 

Vive no corpo, não só no discurso. Muito do que está internalizado é o pedido de desculpa antes de falar, a postura, a vigilância. Não se argumenta com isto, nota-se, no momento em que acontece.

Tornar tudo isto consciente custa muito, antes de aliviar. Ver a água em que se nadava pode ser perturbador. 

O conhecimento pode trazer, a curto prazo, mais mal-estar, um luto antes de existir uma transformação. Quem promete o contrário está a vender uma coisa que não existe.

Parte IV | Os contratos implícitos: quando o peso entra na relação

Agora o terreno que é mais meu do que da literatura e onde considero um ângulo que pode contribuir

Um casal organiza-se, muitas vezes, à volta de um contrato implícito, um acordo com regras que ninguém confirmou e que ambos confirmam. Uma das cláusulas mais comuns nas relações heterossexuais monogâmicas é que as necessidades dele contam mais, as dela contam menos. Ele sustenta a sua metade por um privilégio de que não se pode falar. Ela sustenta a sua por um sexismo internalizado. O encaixe é perfeito porque as duas peças foram feitas uma para a outra, e estará tudo bem se ambos permanecessem intactos com o passar dos anos. 

Esta leitura tem apoio na terapia familiar feminista, que há décadas descreve o poder invisível dentro do casal. Os seus efeitos típicos são bem conhecidos: a mulher defere mais ao homem do que o contrário, monitoriza mais as necessidades dele, dá mais valor à opinião dele; ambos subestimam a parte dela no trabalho doméstico e de cuidado e sobrestimam a dele; e, no fim, ambos tendem a concordar que a desigualdade entre eles é aceitável, recorrendo a explicações culturais "o ego frágil masculino", "ela não tem cabeça para dinheiro", "a natureza dela é dar" que mascaram desta forma (e de outras) a assimetria de poder.

E há aqui um ponto que a investigação do início pode salientar de forma desconfortável. A mulher não precisa de reconhecer este contrato como injusto para sofrer com ele. Pode achar a divisão natural, pode defendê-la, pode dizer que está bem assim, e ainda assim os sintomas aparecem. Desvalorizar o sexismo dentro de casa não a protege dos seus efeitos, da mesma forma que desvalorizar o sexismo no mundo não a protege. 

A ausência de queixa não é prova de ausência de dano.

Daqui surge uma consequência que muda a clínica toda. O sexismo internalizado de uma mulher em relação a ela não é propriedade dela. É propriedade do sistema onde todos nós cooperamos. Não se mexe numa peça sem o sistema inteiro reagir, e é aqui que muita boa intenção terapêutica pode causar dano: trabalhar-se a internalização dela como se fosse só dela, prescrevem-se mudanças em casa, e ela muda, e ele reage, e ela paga o custo sozinha, entre sessões, sem ninguém. 

Por isso, com o casal em sessão, o alvo deixa de ser o sexismo internalizado dela. Passa a ser o contrato. Pôr a crença dela como metade de um sistema de dois tira-lhe a vergonha e tira-lhe a posição confortável de espectador inocente. Ninguém é o paciente, mas sim o contrato é para beneficiar ambos, consoante e respeitando os seus valores. Este alinhamento entre ambos pressupõe conhecerem-se e informarem-se sobre os seus padrões. Usufruirem dos benefícios a dois e protegerem ativamente a relação. 

Onde existir qualquer sinal de controlo coercivo, isto inverte-se. O momento em que uma mulher começa a recusar o contrato é, sabemos-lo da literatura sobre violência, o de maior risco real. Avaliar isto é a pré-condição de tudo o resto.

Parte V | Agência, diferenciação e permeabilidade

Então o que se deve fazer? 

Devolver agência sem transferir a culpa

A ideia central é devolver agência individual dentro de sistemas opressores. Validar a adaptação como escolha ativa, e não como mera resignação. Há aqui uma linha delicada, e atravessá-la pode ser perigoso.

Nem toda a adaptação foi uma escolha, muitas foram a única opção disponível, feitas sob coação estrutural. Renomeá-las retroativamente como "escolha ativa" pode soar libertador e, ao mesmo tempo, carregar sobre a mulher a responsabilidade por uma submissão que ela não escolheu. Isso seria gaslighting.

A formulação tem de salientar as duas coisas ao mesmo tempo, sem que a segunda apague a primeira: isto foi-te imposto, e a partir de agora podes escolher, sempre validar a origem social do sofrimento e devolver poder sobre o que é, hoje, modificável. A culpa fica no sistema, a agência fica no presente. Tratar a imposição passada como se tivesse sido liberdade é um erro que pode definir a intervenção, porque mantém fragilidade num ponto importante para a sustentabilidade dessa mesma agência.

Diferenciação: o que é e de onde vem

O ponto seguinte vem da teoria sistémica; o conceito de diferenciação do self foi formulado pelo psiquiatra Murray Bowen, um dos fundadores da terapia familiar, ao longo dos anos 50 e consolidado na sua obra de 1978. Bowen definiu-a como a capacidade de manter o equilíbrio entre o funcionamento emocional e o intelectual sem fusão: pensar com clareza e agir segundo os próprios valores, mantendo ao mesmo tempo a ligação emocional aos outros. Opera em dois planos: no interno, é separar o que se sente do que se pensa, para que a emoção intensa não dite automaticamente o comportamento. Na dimensão interpessoal, é manter o sentido de si em relações, sem fundir-se com o outro nem cortar a ligação.

Aplicada aqui: a mulher deixa de exigir do parceiro sexista a validação do seu self que ele, estrutural e caracterialmente, não lhe pode dar. Retirando o pedido de onde não há resposta possível.

Importa uma ressalva, porque Bowen tem um ponto não observado. A teoria dele assume um campo simétrico, dois self a diferenciarem-se mutuamente, e é cega à assimetria de poder. O campo de um casal heterossexual atravessado pelo sexismo não é simétrico, não estarão os dois ao mesmo nível. Por isso, a diferenciação é um movimento que acontece dentro de uma assimetria de poder, e isso muda o que significa.

Acomodação: uma distinção de trabalho, não um termo consagrado

A acomodação em que uma mulher deixa de precisar da validação dele, e onde há duas leituras opostas: o termo "acomodação" existe noutros modelos na teoria da igualdade relacional de Knudson-Martin e Mahoney, por exemplo, descreve a atenção que um parceiro dá ao outro, mas o sentido que aqui lhe dou é mais específico. No sentido em que o uso: diferenciação é libertar-se de uma dependência que mantinha a mulher refém da aprovação dele. Acomodação é baixar expectativas legítimas para manter a paz e chamar isto de crescimento. De fora, e muitas vezes de dentro, parecem idênticas. A mulher que "já não precisa que ele a veja" pode estar diferenciada, ou pode ter desistido de ser vista e percepcionar isto como sensatez.

Proponho a distinção para apoiar na distinção destas duas nuances. 

A diferenciação mantém a exigência relacional viva e muda-lhe o registo. A acomodação desiste em todos os registos.

Em concreto: a mulher diferenciada deixa de pedir o que ele não pode dar, a validação do seu valor, o espelho, o reconhecimento do seu self por um homem que, sendo sexista, não a vê como igual. E continua a exigir o que tem de existir para haver relação: respeito, reciprocidade, partilha da carga, ser tratada como igual em atos. Move o pedido do registo do espelho para o registo dos atos. A mulher acomodada desiste de tudo e fica grata pelo que pode ter. 

Isto iria requerer uma permeabilidade seletiva. Uma barreira protetora do self, necessária para se relacionar com a opressão (se existir ou como) sem ser destruída por ela, não pode ser um muro. Um muro protege-a do mundo e da intimidade ao mesmo tempo. Tem de ser seletivamente permeável: ela escolhe o que pede, a quem e para quê. Essa escolha é o ato de diferenciação, e é também o nó que liga tudo isto à gestão ansiosa do conflito: a mesma barreira que protege uma mulher da desvalorização do mundo pode ser a que a impede de se deixar vulnerabilizar dentro de casa. O trabalho pode ser por torná-la permeável nos pontos confortáveis e importantes para ela, mas a gestão da relação implica sempre o parceiro. 

Apropriação diferenciada

Falta nomear o trabalho que une tudo isto, e quero ser honesta sobre o nome: "apropriação diferenciada" é uma expressão, não um conceito estabelecido na literatura. Uso-a para evitar a armadilha de que se pode extrair o sexismo internalizado e encontrar por baixo uma mulher intacta ou até um homem intacto. 

A apropriação parte de uma aceitação difícil: o que me foi ensinado constituiu-me, e não há um eu anterior a isso para onde regressar. A pergunta deixa de ser "o que aqui é meu e o que é dele" e passa a ser: do que me tornaram, o que quero manter e o que quero recusar? É um ato de escolha sobre material que já é meu, feito com a consciência de que a origem é estrutural. Devolvendo autoria futura.

E aqui é preciso abrir o que esta palavra, "mulheres", esconde quando fica sozinha. A experiência do sexismo nunca é só sexismo. Cruza-se com a raça, e uma mulher negra enfrenta estereótipos específicos que uma mulher branca não enfrenta, o que se nomeia como racismo de género, e que não é a soma de racismo mais sexismo, mas uma coisa qualitativamente distinta. Cruza-se com a religião e a cultura, que definem guiões de género próprios e, muitas vezes, custos próprios para os transgredir, a apropriação de uma mulher numa comunidade religiosa fechada tem consequências que a de outra não tem. Cruza-se com o estatuto socioeconómico, e a margem de manobra para recusar um contrato desigual é radicalmente diferente para quem tem independência financeira e para quem depende economicamente do parceiro. A permeabilidade seletiva não custa o mesmo a todas. Para uma mulher sem rede económica, sem apoio da família ou da comunidade, exigir no registo dos atos pode ser inviável ou perigoso, e seria violento prescrever-lhe diferenciação como se o preço fosse igual para todas. Qualquer leitura que ignore estas interseções não é universal: é apenas a experiência de algumas mulheres apresentada como a de todas.

A verdade incómoda sobre o desfecho

E agora a parte, que um enquadramento feminista honesto tem de tolerar, implica que algumas relações não sobrevivem à diferenciação delas.

Se a relação só se sustinha enquanto ela precisava da validação dele, remover essa necessidade pode colapsar o contrato. A permeabilidade seletiva não é só uma técnica de autoproteção dentro do casal, é, por vezes, o que revela que não há casal possível nos termos dela.

A separação não é prova de sucesso, tal como a permanência não o é. Se manter o casal junto não mede nada, e não mede, então o casal separar-se também não mede nada. Ambos são desfechos possíveis de um bom trabalho, e ambos são desfechos possíveis de um mau trabalho. 

A pessoa sai com mais capacidade de escolher, com menos sintomas, e com a decisão, qualquer que ela seja, tomada a partir de um self mais definido e não a partir da coação ou do medo. Às vezes isso mantém o casal ou por vezes dissolve-o. E, o caso mais incómodo de todos, às vezes a mulher diferencia-se, olha para uma relação imperfeita de olhos abertos, e escolhe ficar. Isso também é sucesso, por muito que de fora se pareça com acomodação. A diferença não está na forma visível. Está em saber de onde veio a escolha.

Para terminar

Aquela frase do início, "é assim, o mundo é assim", nem sempre é uma desistência. Às vezes é um cálculo lúcido no confronto com o inalterável, "ficar a pensar na causa e no impacto em loop" só agrava, e aceitar o incontrolável pode ser a resposta mais sã. Todo o trabalho está em distinguir a resignação que adoece da aceitação que possa libertar. No entanto, por vezes, amor não chega para o que realmente precisamos. 

Convém recolher, no fim, o que aqui se afirmou e com que grau de certeza. A ligação entre sexismo e sofrimento das mulheres é séria e está documentada, com resultados particularmente sólidos: o dano não depende de a mulher reconhecer ou valorizar o sexismo. Mas os tamanhos de efeito médios são modestos, muita da evidência é correlacional e não causal, o mecanismo fisiológico do desgaste está demonstrado para o racismo e não para o sexismo, e a maioria dos estudos assenta em amostras ocidentais e universitárias cuja transposição para o contexto português exige cautela. Sobre os conceitos: o sexismo, a diferenciação de Bowen e o sexismo internalizado têm autoria e história claras; a distinção entre diferenciação e acomodação no sentido que aqui uso, a permeabilidade seletiva e a apropriação diferenciada são elaboração clínica minha, propostas para nomear um trabalho que a literatura ainda não operacionalizou. E nada disto se aplica de igual modo a todas as mulheres: a raça, a religião, a cultura e o estatuto socioeconómico mudam tanto a exposição como o preço de lhe resistir.

Fica também o que falta, e que é muito: faltam estudos longitudinais que estabeleçam a direção causal entre exposição e sintoma. Falta investigação fora do mundo anglo-saxónico e em particular no contexto português e do sul da Europa. E falta, sobretudo, trabalho que articule o nível estrutural com o relacional,  que apresente, com método, como o peso do mundo se apresenta dentro de um casal e o que ali se pode mudar. É um campo jovem, com mais perguntas do que respostas. Isto é um convite e a razão para continuar. 

Se leram até aqui e ficou a ressoar, vamos conversar um pouco? Adoraria mesmo saber o que ficaram a pensar. 

Agenda um momento para conversarmos aqui

Referências e leituras consultadas

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Nota: as referências acima foram consultadas por meio de resumos, artigos de revistas e fontes secundárias revistas por pares. Alguns textos completos são pagos. As distinções clínicas de elaboração própria a oposição entre diferenciação e acomodação no sentido aqui usado, a permeabilidade seletiva e a apropriação diferenciada, não derivam de nenhuma destas fontes e são identificadas como tal ao longo do texto.