O primeiro filho muda o casal. Mas não tem de o partir.


O primeiro filho muda o casal. Mas não tem de o partir.

Os mitos relacionais são frequentes e omnipresentes, especialmente quando tocam no que é esperado. Elas organizam e orientam as pessoas e as famílias para um lugar comum. Uma dessas narrativas é a dos filhos: ora unem e fortalecem o casal, ora o afastam completamente. 

O que a investigação mostra e o que a clínica confirma, é algo mais exigente e mais incómodo do que qualquer uma destas histórias. A chegada do primeiro filho não destrói o casal por acidente. Destrói-o, muitas vezes, porque activa um sistema de expectativas de género que já estava lá antes, à espera de uma oportunidade para se instalar.

Vou ocupar-me de desmontar ambas as afirmações. Em termos de prevenção para uma conjugalidade satisfatória (imperfeita e normal), em termos psicológicos, em termos sistémicos, em termos sociais e, por fim, em interação com a parentalidade.

O que muda e para quem muda mais

A chegada do primeiro filho provoca uma descida mensurável na satisfação conjugal. É um dos resultados mais consistentemente verificados em psicologia relacional. Uma meta-análise de 49 estudos mostrou descidas médias a moderadas entre a gravidez e os 12 meses pós-parto, em homens e mulheres.

No entanto, um factor que assumimos todos, é que o casal sente e vive esta diferença na satisfação de igual modo, mas descida não é simétrica.

Um estudo longitudinal com 205 casais mostrou que, após o nascimento do primeiro filho, os pais tornaram-se mais tradicionais nas atitudes e comportamentos de género e que as mulheres mudaram mais do que os homens. A mulher é quem mais abdica, quem mais reorganiza a identidade, quem mais absorve o choque da transição. O homem continua, em muitos casos, a ter uma vida com maior continuidade relativamente ao que tinha antes.

E antes de assumirmos que todos os homens sejam piores parceiros. Na realidade o sistema em que ambos cresceram os preparou para papéis diferentes e esse sistema activa-se, com força, no momento em que nasce um filho.

O que aprendemos em criança sobre ser pai e ser mãe

Nenhum casal chega à parentalidade em branco. Chegamos com modelos interiorizados do que é esperado de uma mãe, do que é esperado de um pai, do que é "natural" em cada um. E esses modelos não vêm apenas de conversas explícitas ou do que nos foi dito, porque infelizmente nada disto é afirmado, vêm sobretudo do que observámos. 

O que os filhos aprendem sobre a divisão do trabalho doméstico e de cuidado vem principalmente do que os pais fazem, não do que os pais dizem. Um estudo com filhos britânicos entre os 11 e os 15 anos mostrou que tanto as atitudes como os comportamentos parentais são cruciais na formação das atitudes dos filhos sobre a divisão sexual do trabalho, com as influências parentais a serem mais fortes nas díades do mesmo sexo, a filha aprende com a mãe, o filho aprende com o pai.

Um estudo longitudinal com 2796 crianças australianas confirmou que o tempo que os pais dedicaram ao trabalho doméstico durante a adolescência foi o preditor mais poderoso das atitudes igualitárias de género dos filhos, tão relevante quanto o trabalho remunerado da mãe fora de casa.

O que isto significa: chegamos ao momento de ter filhos com um mapa herdado. E esse mapa, na maioria dos casos, coloca a mulher no centro dos cuidados e o homem na periferia, mesmo quando nenhum dos dois o escolheu conscientemente.

Isto pode ser lido assim: entramos na relação a dois, com um desalinhamento de possibilidades e de oportunidades. Com a força de fazer diferente, mas a partir do momento em que escolhemos ter filhos, toda a estrutura e exigência para cuidar da criança reforçam as desigualdades de género dentro da família. E isso é anti-afrodisíaco. 

A armadilha da tradição que ninguém escolheu

Espero que não estejas já à procura do botão para fechar a janela. Acompanhem-me no raciocínio. 

Um dos achados mais perturbadores da investigação sobre transição para a parentalidade é que os casais que, antes do nascimento, tinham atitudes igualitárias de género tornam-se significativamente mais tradicionais depois.

Não por convicção. Por pressão estrutural.

A mulher entra em licença-maternidade. O homem continua a trabalhar. A mulher fica mais tempo em casa, aprende os ritmos do bebé, torna-se a especialista de facto dos cuidados. O homem sente-se menos competente, participa menos, sente-se excluído e, paradoxalmente, fica ainda mais à margem. A divisão instala-se, não porque alguém a escolheu, mas porque o contexto a impôs. 

Hoje em dia, os pais fazem um esforço por contrariar esta narrativa, mas há um privilégio que os protege. E depois há o que acontece fora de casa.

O pai que não foi convidado e a mãe que paga esse preço

O sistema de saúde e os profissionais de saúde reproduzem, sistematicamente, a expectativa de que a mãe é a responsável principal pela criança e que o pai é um acompanhante.

Um estudo qualitativo com 889 pais de 28 países mostrou que, embora a maioria dos pais quisesse participar nas consultas de gravidez e de saúde infantil, encontraram múltiplas barreiras, incluindo viés de género explícito por parte de profissionais, comunicação dirigida exclusivamente à mãe e normas institucionais que tornavam a presença do pai secundária ou inconveniente.

Os pais relataram sentir que "não eram suposto estar ali".

Eu recordo-me frequentemente, aquando da minha primeira gravidez, que num hospital "amigo dos bebés", me perguntavam diretamente se o meu companheiro podia estar presente. E, compreendam, que ele já estaria ali presente, enquanto eles perguntavam isto... Na altura tentei compreender e explicar esta atitude, "vê, isto é porque muitas mulheres sofrem de violência e protegem a mulher", argumentava eu. Mas, nas situações como a minha onde o pai queria estar presente e envolvido, o que criava era segmentação "não és bem-vindo" ou "isto não é para ti". 

Este dado não é neutro. Quando o pai é excluído dos cuidados de saúde desde o início, nas consultas de grávida, no parto, nas consultas de pediatria, instala-se uma divisão funcional que depois é muito difícil de reverter. A mãe torna-se a interlocutora privilegiada do sistema, o repositório de toda a informação clínica, a pessoa que "sabe" o que se passa com o filho. O pai fica fora deste circuito de conhecimento e responsabilidade e isso tem consequências directas na conjugalidade.

Do outro lado: quando a mãe não é a responsável principal, é julgada. A assimetria é total. O pai que não participa é invisível; a mãe que não participa é negligente.

O gatekeeping e porque é um sintoma, não uma causa

A investigação sobre transição para a parentalidade introduziu o conceito de maternal gatekeeping: comportamentos maternos que encorajam ou dificultam o envolvimento do pai. É um conceito útil, mas frequentemente mal usado: tende a colocar na mulher a responsabilidade pelo afastamento do pai, sem examinar as condições estruturais que o produzem.

Uma revisão sistemática de 16 estudos clarifica este ponto: as expectativas sociais que reforçam o papel primário da mulher no cuidado estão particularmente associadas à percepção de parentalidade insuficiente do pai, o que pode gerar comportamentos de desencorajamento por parte da mãe. Não como exercício de poder, mas como resposta a um sistema que a responsabilizou e a deixou sozinha a gerir os critérios de qualidade.

Há também gatekeeping paterno, comportamentos de pais que, subtilmente, deixam cair responsabilidades, evitam tarefas ou delegam decisões. Este lado raramente é estudado com a mesma intensidade.

O que a investigação confirma é que quando os pais tiram licença de paternidade mais longa, o gatekeeping materno diminui. A presença activa do pai desde o início reorganiza o sistema. Não é um problema de personalidade — é um problema de estrutura.

Conseguem notar, como sem aprofundar e sem uma visão sistémica, estaríamos a rever o problema sem as suas nuances e a determinar uma causalidade linear sobre as questões? Como seria mais fácil afirmar: Vamos voltar ao sistema familiar tradicional, sem observar o panorama completo? 

Avaria ou crise? O que a transição realmente exige

A terapeuta familiar sistémica Madalena Alarcão propõe uma distinção que é central para entender o que acontece nesta transição.

Numa avaria, basta reparar a peça, o sistema retoma o funcionamento anterior. Numa crise, o que está em causa é uma transformação do modelo relacional. Não é possível repor o que havia. É preciso tornar-se diferente.

O nascimento do primeiro filho é, na sua formulação, uma crise normativa e, portanto, esperada, previsível, associada ao ciclo vital. Normativo não significa indolor. Significa que pertence ao desenvolvimento. E como toda a crise, pode ser ocasião de crescimento ou risco de impasse.

O que muitos casais fazem é tratar a crise como uma avaria: tentam que a relação fique como estava, que a divisão de tarefas seja gerível, que haja menos tensão. Sem perceber que o que a situação exige é diferente: uma renegociação activa e consciente dos papéis, das expectativas, das responsabilidades, incluindo as que foram herdadas da família de origem de cada um.

Da díade à tríade e o que isso faz ao casal

Alarcão descreve a passagem da configuração diádica à triádica como uma das complexificações centrais desta etapa. Antes do filho, o casal é uma díade. Com o nascimento, a configuração triangular está sempre presente.

A díade mãe-bebé, nos primeiros meses, tende a ser fusional e essa fusão afasta naturalmente qualquer terceiro, incluindo o pai. O quarto do casal torna-se partilhado. A vida sexual transforma-se. O tempo a dois reduz-se. Um estudo clássico mostrou que o sentido de romance declina entre a gravidez e o terceiro mês pós-parto, mas que o sentido de parceria aumenta no mesmo período.

O casal não desaparece. Muda de forma. O erro,  clínica e relacionalmente, é interpretar ou sentir a perda do romance como perda da relação.

Alarcão é directa: a conjugalidade não pode ser anulada, nem mesmo ocultada, pela parentalidade. Tem que ser com ela articulada. São dois subsistemas com ciclos de vida próprios, que coexistem e se influenciam, mas que não se substituem. Quando a fronteira entre eles se dissolve, quando o casal se transforma exclusivamente em pai e mãe, a relação fica suspensa à espera de um momento que nunca chega.

O que ouço na minha clínica muito frequentemente "Mais uma coisa para eu fazer", da mulher que se apercebe disto... 

O sistema circundante coloca a mulher na posição de organizadora, das consultas, das rotinas, da informação clínica. Mas há um trabalho que frequentemente fica sem liderança ativa: o cuidado activo da relação entre os dois. Não o romance como gesto esporádico, mas a atenção deliberada ao vínculo: ao desejo, ao reconhecimento mútuo, à identidade de cada um para além dos papéis parentais. Este é um trabalho que pertence a ambos e que nenhum dos dois consegue fazer sozinho. O homem que entra neste espaço, que pergunta, que nota, que nomeia, não está a compensar o que ela faz. Está a fazer a sua parte do que mantém o casal vivo.

O que os casais que navegam bem fazem diferente

Nem todos os casais vivem esta transição da mesma forma. Um estudo prospectivo com mais de 1400 casais identificou três trajectórias: 38,7% mantiveram satisfação alta e estável; 51,3% tiveram uma descida pequena; apenas 10% apresentaram descida grande. A maioria não entra em colapso mas precisa de recursos concretos.

O que a investigação identifica como protector:

A amizade conjugal pré-existente. Um estudo longitudinal de 6 anos com 130 casais mostrou que o que protegeu as mães durante a transição foi a expressão de afeto do companheiro, o conhecimento profundo que ele tinha dela, e a consciência mútua da relação. O que previu o declínio foi a negatividade, a desilusão e a sensação de caos.

A divisão activa e negociada do trabalho de cuidado. Não uma divisão perfeita, mas uma que foi falada, escolhida e que não deixa um dos dois com toda a carga invisível. Portanto, muito intencional, o que contrapõe ao "natural". Porque o natural não estava a funcionar. 

O envolvimento do pai desde o início. Quanto mais cedo o pai entra nos cuidados, nas consultas, nas noites, nas rotinas, mais competente se torna, mais a mãe consegue soltar o controlo, e mais o casal funciona como equipa.

A capacidade de falar sobre o que está a mudar. Muitas tensões instalam-se em silêncio. A metacomunicação, falar sobre como estão a funcionar, o que está a correr bem e o que não está, é um dos recursos mais sólidos que um casal tem.

Uma nota final: sobre o que se transmite

Quando um pai se envolve activamente nos cuidados e nas tarefas domésticas, não está apenas a ajudar a mãe. Está a transmitir aos filhos um modelo diferente do que é possível, do que é esperado de um homem, do que é possível para uma mulher.

A investigação mostra que o tempo que os pais dedicam ao trabalho doméstico durante a infância e adolescência dos filhos é um dos preditores mais fortes das atitudes igualitárias de género na geração seguinte.

O que fazemos dentro de casa não é privado. É político. E começa, muitas vezes, no momento em que nasce o primeiro filho e em que cada casal decide, consciente ou inconscientemente, que mapa vai seguir.

Ana Mafalda Ferreira 

Psicóloga e psicoterapeuta de casal, fundadora da Attunea. 

Trabalha com casais em contexto clínico e digital.

Vê mais informação aqui https://www.attunea.pt/terapia-de-casal

Referências seleccionadas

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