Poder, género e violência nas relações: o que a evidência mostra


Poder, género e violência nas relações: o que a evidência mostra

O preço que não escolhemos pagar

Sobre poder, papéis relacionais e a forma como os discursos públicos entram dentro de casa

Há uma pergunta que atravessa a clínica de casal. A pergunta é quem decide o que é justo dentro de uma relação e de onde vêm as regras que os dois parceiros seguem sem nunca as terem discutido. Quando um casal chega à consulta a discutir tarefas, dinheiro, desejo ou tempo, o que está debaixo da mesa é quase sempre um livro de contas invisível, herdado, que ninguém abriu de propósito e que mesmo assim organiza tudo. Este texto é sobre esse livro de contas, sobre quem o escreveu antes de nós, e sobre a forma como aquilo que se passa nos palcos do poder público acaba por moldar aquilo que se passa na cozinha de cada um.

A diferença entre equidade e igualdade

Vale a pena separar dois conceitos que costumam andar colados. Igualdade quer dizer dar exatamente o mesmo a toda a gente, dividir ao meio, dois pratos iguais para dois lugares iguais. Equidade quer dizer atender à proporção, reconhecer que os pontos de partida são diferentes e que a justiça se mede pela relação entre o que cada um dá e o que cada um recebe, e não pela simetria aritmética. A teoria da equidade nasceu com John Stacy Adams, nos anos sessenta, no estudo das organizações, e foi depois levada para as relações íntimas por Elaine Hatfield e seus colegas na década de setenta. O ponto central dessa tradição é simples de enunciar e difícil de viver, porque o que gera sofrimento numa relação raramente é a diferença em si, mas a sensação de que a proporção entre esforço e retorno está danificada.

A cultura popular vendeu o 50/50 como se fosse o cume da justiça conjugal, e essa fórmula tem um problema de raiz, porque pressupõe que os dois parceiros chegam à relação a partir do mesmo sítio. A equidade obriga a uma pergunta anterior, que é saber se o ponto de partida era comparável, e essa pergunta muda tudo aquilo que vem a seguir.

O direito que se ganha e o direito que destrói

Ivan Boszormenyi-Nagy, uma das grandes referências da terapia familiar, propôs uma leitura da justiça relacional que continua a ser das mais úteis para pensar casais. Ele falava de um equilíbrio em movimento, a ideia de que a justiça dentro de uma relação não é um saldo que se fecha ao fim do dia, mas um dar e receber que se equilibra ao longo do tempo, ao longo dos anos, e até das gerações. Dentro deste quadro, há uma distinção que ilumina muitas dinâmicas de sofrimento: a distinção entre o direito que se ganha e o direito que se destrói.

O direito que se ganha nasce do cuidado real. Quando tenho em conta os interesses da pessoa com quem estou, ganho legitimamente o direito à consideração dela, e isso constrói confiança, que é o material de base de uma relação segura. O direito destruído é onde mora aquele sentimento de que me é devido algo, uma exigência que não nasce de eu ter dado, mas de eu ter sido privado algures, muitas vezes muito antes desta relação existir. A pessoa que carrega este direito destruído tende a cobrar alguém que nunca abriu a dívida; o parceiro atual paga uma conta que foi aberta por uma história anterior, e o mais trágico é que este padrão costuma ter origem numa privação verdadeira, o que significa que estamos perante uma ferida que se transformou em fatura e que circula de relação em relação sem nunca se resolver.

Há uma objeção que altera a certeza na equidade: não há simetria de partida

Se ficássemos por aqui, cometeríamos o erro que a crítica feminista à terapia sistémica apontou com precisão a partir dos anos 80. Rachel Hare-Mustin, em 1987, e Virginia Goldner, dois anos antes, mostraram que os modelos sistémicos tinham um ponto cego, que era tratar a família como um sistema que se regula por dentro, com as suas próprias regras, como se as relações internas pudessem ser compreendidas sem olhar para o poder social que vem de fora. Hare-Mustin chamou-lhe o preconceito beta, a tendência para ignorar as diferenças de género e assumir uma simetria que não existe. Michelle Bograd demonstrou o custo prático deste ponto cego no campo da violência conjugal, ao mostrar que a moldura da circularidade e da corresponsabilidade distribui de forma simétrica aquilo que é profundamente assimétrico, e que ao fazê-lo pode culpabilizar quem já está em desvantagem.

O que isto faz ao conceito de Nagy é obrigá-lo a uma correção. O equilíbrio em movimento continua a ser um objetivo terapêutico válido, mas só depois de nomear a assimetria de partida, porque pedir a alguém que equilibre um livro de contas quando essa pessoa já começou em desequilíbrio é pedir à parte mais sobrecarregada que continue a gerir sozinha o desequilíbrio. E aqui entra o cerne da questão, porque parte daquilo que uma mulher dá numa relação heterossexual não foi escolhida por ela, foi-lhe ensinada, desde muito cedo, como o preço de pertencer. O custo dessa aprendizagem é físico, é emocional, é psicológico e tem a característica perversa de ser invisível, porque não se vê como se vê uma perna partida, e por ser invisível, é frequentemente tratado como natureza em vez de ser tratado como imposição.

A interseccionalidade: a palavra mulher esconde muitas realidades

Kimberle Crenshaw cunhou o termo interseccionalidade em 1989, embora a ideia já viesse do coletivo de mulheres negras Combahee River, que a tinha articulado em 1977. Crenshaw, que era jurista, reparou num padrão nos tribunais: a lei protegia contra a discriminação racial tomando como modelo o homem negro, e protegia contra a discriminação de género tomando como modelo a mulher branca, e a mulher negra caía no meio, porque aquilo que lhe acontecia não era só racismo nem só sexismo, era o cruzamento dos dois, e não havia sequer categoria para o nomear.

O ponto que costuma escapar é que isto não é aditivo. A experiência de uma mulher que vive no cruzamento de vários eixos de desvantagem não é a soma de dois problemas separados; é uma realidade qualitativamente distinta que não existe em nenhum dos eixos isolados. 

Trazido para a clínica, isto significa que a palavra mulher esconde muitas realidades, e que a dinâmica de poder de uma mulher migrante, sem rede familiar e com vínculo laboral precário, numa relação com um parceiro do país de acolhimento e de classe média, não se explica só pelo género, explica-se pelo género cruzado com a classe, com o estatuto de migração, com a raça, com a documentação. Um modelo de equilíbrio relacional que ignore estes eixos arrisca invisibilizar boa parte da assimetria que essa mulher carrega.

Como o poder público entra dentro de casa

Chegamos à parte mais delicada e também, para mim, à mais importante. Existe uma linha que liga aquilo que é dito nos palcos do poder, como o governo, ao que as pessoas se sentem autorizadas a fazer na vida quotidiana, e essa linha está hoje razoavelmente bem documentada no que diz respeito ao preconceito. O trabalho de Benjamin Newman e colegas, publicado em 2020 no British Journal of Political Science, testou de forma experimental aquilo a que chamaram o efeito de encorajamento. A ideia que puseram à prova é que num contexto social onde a norma da igualdade está espalhada e é geralmente respeitada, as pessoas com preconceitos enraizados contêm a expressão desses preconceitos, e o que muda é ouvir uma figura de poder violar a norma. Quando um discurso de elite explicitamente inflamado surge e não é claramente condenado por outras figuras de poder, as pessoas com preconceitos sentem-se encorajadas a exprimir e a agir de acordo com aquilo que antes continham.

Este achado foi replicado e alargado. Um conjunto de 13 estudos com mais de 10 mil participantes, publicado na Nature Human Behaviour por Ruisch e colegas em 2022, encontrou aumentos de preconceito explícito, racial e religioso, entre apoiantes de um líder que violava repetidamente as normas igualitárias, e encontrou o movimento inverso entre as pessoas que se opunham a esse líder, sendo que a mudança nas normas sociais percebidas parecia explicar boa parte deste efeito. Rene Flores mostrou, analisando o discurso de campanha de 2016, que declarações hostis de uma figura de poder deslocaram a opinião pública sobre imigrantes, sobretudo entre quem já tinha tendências restritivas, e mostrou também algo que interessa reter, que o efeito era de curta duração, o que explica por que é que quem usa esta estratégia precisa de repetir a mensagem constantemente para que o efeito não se dissipe.

Há ainda um trabalho de análise do discurso, de Michal Krzyzanowski, que descreve a normalização como um processo de vários passos, no qual posições que começam por ser radicais são introduzidas de forma estratégica no espaço público, vão sendo graduadas e repetidas, e acabam por se tornar uma perspetiva aceitável e legítima, muitas vezes através de um discurso de fronteira que casa afirmações radicais com uma linguagem aparentemente civil e correta, usada precisamente para legitimar aquilo que de outro modo seria inaceitável. Este é o mecanismo pelo qual aquilo que era impensável se torna dizível, e aquilo que se torna dizível se torna, para alguns, fazível.

A internalização do opressor, e porque é que ela acontece

Falta incluir a peça psicológica mais dolorosa, que é a forma como as pessoas de grupos oprimidos chegam a adotar, contra si próprias, a visão do grupo que as oprime. A este fenómeno chama-se opressão internalizada e define-se como a internalização da ideologia de inferioridade que o grupo dominante dirige ao grupo dominado. Uma revisão sistemática da literatura psicológica, conduzida por E. J. R. David e colegas e publicada em 2019, descreve-a como a consequência mais insidiosa do racismo e das outras formas de opressão, precisamente porque opera por dentro, ao nível da própria imagem que a pessoa tem de si.

Quem primeiro descreveu este movimento com força foi Frantz Fanon, psiquiatra nascido na Martinica em 1925, formado em França e mais tarde ligado à luta pela independência da Argélia. Fanon trabalhou como médico dentro do sistema colonial e viu de perto aquilo que a dominação fazia à mente das pessoas dominadas e, a partir dessa experiência, escreveu duas obras que ainda hoje organizam este campo. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, de 1952, descreveu aquilo a que chamou de epidermização da inferioridade, o processo pelo qual a pessoa colonizada passa a olhar-se a si própria através do olhar do colonizador, adotando como suas as categorias que a diminuem e desejando aproximar-se de um padrão que a exclui à partida. Em Os Condenados da Terra, de 1961, o foco desloca-se para a violência colonial e para o processo de descolonização, e Fanon defende que a libertação exige um trabalho a dois níveis, o material e o psíquico, porque não basta mudar as estruturas externas se a imagem interiorizada do dominador continuar a organizar a vida da pessoa por dentro.

O que torna Fanon atual é que várias disciplinas o recuperaram como referência viva, e não apenas histórica. Na psicologia, Erica Burman, psicóloga britânica da Universidade de Manchester, mostra que a análise de Fanon, embora centrada na opressão racializada, pode ser estendida à classe, ao género e à sexualidade quando estes se cruzam, e recupera a descrição fanoniana do sofrimento como algo que se inscreve no corpo, nos músculos, como se se tratasse de uma condição nervosa com causa externa. Convém, porém, ser exato quanto a esta atribuição, porque a leitura interseccional é um movimento posterior, que Burman apoia noutros autores, e a própria Burman assinala que o tratamento do género em Fanon carece de releitura feminista, o que significa que a extensão ao género se faz sobre Fanon e não já dentro dele. 

Numa segunda via, a partir da filosofia decolonial e dos estudos étnicos, Nelson Maldonado-Torres propõe que a psicologia assuma uma atitude decolonial que coloque o poder e o contexto no centro da compreensão do sofrimento, um argumento dirigido à psicologia, mas construído a partir de fora da clínica. Convém ser transparente quanto ao estatuto deste corpo de trabalho, porque tanto a leitura de Burman como a de Maldonado-Torres são teoria e análise crítica, e não investigação que meça efeitos, o que significa que enriquecem a forma como compreendemos o fenómeno sem fornecer, por si, medidas de efeito. A ponte com a evidência mensurável faz-se, por outro lado, e é aí que entra a teoria da justificação do sistema. 

A pergunta que interessa é porque é que isto acontece, porque é que alguém aceitaria como merecida uma posição de desvantagem. Uma teoria de justificação do sistema, desenvolvida por John Jost e colegas ao longo de mais de uma década de investigação, oferece uma resposta desconfortável. Existe, segundo esta teoria, um motivo ideológico geral para justificar a ordem social existente, um impulso para acreditar que o mundo tal como está é, de alguma forma, legítimo e natural, e este impulso é em parte responsável pela internalização da inferioridade entre membros de grupos desfavorecidos. O aspeto mais perturbador do trabalho de Jost é o paradoxo que ele documenta, que é o facto desta justificação do sistema ser por vezes mais forte precisamente entre aqueles que mais são prejudicados por ele, porque acreditar que a ordem é justa reduz, a curto prazo, a angústia de viver dentro de uma ordem que nos desfavorece. Uma outra tradição, que vem de Frantz Fanon e de Paulo Freire, tinha já descrito este movimento como a instalação do opressor dentro da própria consciência do oprimido, e a psicologia contemporânea deu-lhe medida e método, mostrando que a opressão internalizada se associa à depressão, à vergonha, ao sofrimento psicológico e por vezes à hostilidade dirigida ao próprio grupo.

Esta previsão da teoria tem tradução em dados observáveis, incluindo dados sobre atitudes de género. A investigação de Hammond e Sibley e de Peter Glick e colegas mostra que, em grupos desfavorecidos como o das mulheres, a motivação para legitimar o sistema social ganha por vezes prioridade quando as necessidades próprias não estão salientes, ao ponto de esses grupos justificarem o sistema desigual mais do que os grupos favorecidos, e mostra ainda que as mulheres tendem a apoiar mais a divisão tradicional de papéis e o sexismo à medida que vivem maior desigualdade de género. É a tradução empírica da intuição de Fanon, porque revela que a adesão à ordem que nos desfavorece não é um sinal de fragilidade individual; é um mecanismo psicológico de redução da angústia que a própria estrutura produz.

Quando juntamos estas peças, parece que conseguimos observar de forma clara. O discurso de poder desloca as normas do que é aceitável, a normalização torna dizível o que era impensável, e a justificação do sistema faz com que parte das próprias pessoas visadas acabe por adotar a explicação que as diminui. É por isto que a manipulação funciona, porque não precisa de convencer toda a gente, basta-lhe deslocar a norma e deixar que o resto se instale sozinho, inclusive dentro da cabeça de quem perde com a mudança.

A ligação com a violência dentro das relações, com honestidade sobre o que sabemos e o que não sabemos

Aqui é preciso rigor, porque senti dentro de mim que seria fácil dar um salto que a evidência não sustenta. A pergunta é se um clima político mais hostil e mais autoritário se traduz em mais violência dentro das relações íntimas, e a resposta honesta é que a ligação existe como hipótese plausível, mas não está estabelecida como relação causal linear, e os dados apontam em direções que se cruzam. Há um estudo transversal, apresentado no American Journal of Obstetrics and Gynecology em 2024, que encontrou uma associação entre estados norte-americanos com orientação política mais conservadora e taxas mais altas de violência entre parceiros antes e durante a gravidez, embora a diferença entre os estados muito conservadores e os moderadamente conservadores não tenha sido estatisticamente significativa, o que obriga à prudência na interpretação.

Ao mesmo tempo, e isto é fundamental para não cair em leituras simplistas, existe evidência de que o progresso também produz picos de violência reportada. Uma análise agregando 16 países e publicada em 2025 encontrou que a adoção de legislação de proteção contra a violência doméstica se associou a um aumento da violência reportada, sobretudo logo após a entrada em vigor da lei, um resultado que pode refletir quer uma reação masculina de retaliação, aquilo a que a literatura chama de backlash, quer um aumento da disposição das mulheres para denunciar. Do mesmo modo, estudos sobre a eleição de mulheres para cargos de poder encontraram, em certos contextos, aumentos de violência doméstica reportada. Por outras palavras, tanto a reação conservadora como o avanço dos direitos das mulheres podem fazer subir os números, e essa é exatamente a razão pela qual não se pode dizer de forma simples que a extrema-direita causa mais violência doméstica, ainda que se possa dizer, com fundamento, que climas de hostilidade e de dominância legitimada criam condições que facilitam o exercício do controlo dentro das relações.

O que a investigação sobre stress e violência mostra com mais solidez é que fatores externos que aumentam a pressão sobre as famílias, como o desemprego, a precariedade e o isolamento, se associam a aumentos de violência e sobretudo a aumentos da sua severidade, um padrão que ficou muito visível durante os confinamentos da pandemia, quando vários estudos documentaram não tanto um aumento do número de casos mas um aumento da gravidade e o aparecimento de violência em relações que antes não a tinham. A leitura defensável, portanto, é que o clima político atua menos como uma causa direta e mais como um amplificador, na medida em que legitima a dominância, enfraquece as normas de igualdade e aumenta a pressão material e simbólica sobre quem já está em desvantagem.

Como proteger aquilo que numa relação é saudável

Depois de tudo isto, a pergunta que fica é prática, e é a pergunta que interessa a quem quer viver bem sem fechar os olhos. Como se protege o que numa relação é genuinamente bom, quando o ar que se respira lá fora se enche de discursos de dominância e de suspeita. A resposta começa por uma distinção que vale a pena fazer com cuidado, a distinção entre as dimensões da relação que são saudáveis e sustentam o resto, e as dimensões que são o eco de uma imposição externa que entrou sem convite.

A primeira estratégia é nomear a origem. Grande parte do trabalho terapêutico consiste em ajudar cada pessoa a distinguir aquilo que dá porque escolhe dar daquilo que dá porque foi educada a dar, e essa distinção, quando fica clara, devolve capacidade de decisão. Uma mulher que percebe que a sua tendência para gerir sozinha o bem-estar emocional de todos não é um traço da sua natureza, mas uma competência que lhe foi ensinada como dever, ganha a possibilidade de escolher quanto disso quer manter e quanto disso quer devolver ao conjunto. Nomear a origem não destrói o cuidado, liberta o cuidado de ser obrigação.

A segunda estratégia é proteger o que Nagy chamava de confiança, o material de fundo que permite que os dois deixem de contar. Quando um casal funciona bem, as pessoas não andam a auditar a relação, dão porque o outro precisa e confiam que ao longo do tempo isto se equilibra, e a investigação de Margaret Clark e Judson Mills sobre relações comunais mostra que é precisamente esse modo de funcionamento, e não a contabilidade item a item, que prevê maior satisfação ao longo dos anos. A necessidade de fazer contas costuma ser um sintoma de que a confiança já está a ruir, e por isso a estratégia protetora não é aperfeiçoar a contabilidade, mas restaurar a confiança, o que passa por reparar as pequenas quebras antes que se tornem grandes, por reconhecer o esforço do outro em voz alta, e por manter rituais de ligação que dizem, sem palavras, que a relação é um lugar seguro.

A terceira estratégia é construir uma fronteira intelectual. Isto significa cultivar deliberadamente a capacidade de reconhecer quando um discurso público está a tentar deslocar a norma daquilo que se considera aceitável e recusar essa deslocação de forma consciente. A investigação sobre o efeito de encorajamento tem um reverso esperançoso, porque os mesmos estudos que mostram que o preconceito se solta quando as figuras de poder o legitimam mostram também que a condenação clara por parte de outras vozes de referência trava esse efeito. Aplicado à vida pessoal, isto quer dizer que rodear-se de pessoas e de fontes que mantêm a norma da dignidade cria uma espécie de campo protetor, e que dizer em voz alta que algo é inaceitável, mesmo em conversas pequenas, tem um efeito real sobre aquilo que as pessoas à nossa volta se sentem autorizadas a fazer. A fronteira intelectual constrói-se com informação verificada, com contacto com perspetivas diversas e com a recusa ativa de deixar que a repetição transforme o inaceitável em paisagem.

A quarta estratégia é reduzir a pressão material sempre que possível, porque a evidência sobre stress e violência é clara quanto a este ponto. Onde há mais isolamento, mais precariedade e mais desespero, há mais probabilidade de a violência aparecer ou de se agravar, e por isso tudo aquilo que combate o isolamento, que mantém redes de apoio ativas e que preserva alguma segurança material funciona também como proteção relacional, mesmo quando não parece ter nada a ver com a relação. E aqui, não significa negar que a pressão material exista ou não, mas gerir a pressão (que está no nosso controlo) de forma a reduzir o impacto nas relações. 

O que isto faz ao bem-estar, por dentro e nas relações próximas

Termino no lugar que mais importa, que é o efeito de tudo isto sobre o bem-estar de cada pessoa e sobre as suas relações mais próximas. Viver dentro de um clima que legitima a dominância tem um custo psicológico mensurável, e esse custo recai de forma desigual, mais pesado sobre quem já carrega eixos de desvantagem. A opressão internalizada, quando se instala, associa-se à vergonha, a sintomas depressivos e a uma erosão silenciosa do sentido de valor próprio, e o mais insidioso é que faz este trabalho por dentro, a ponto de a pessoa confundir a voz do sistema com a sua própria voz. Reconhecer que parte daquilo que sentimos sobre nós próprios foi instalada de fora, e não é um veredicto sobre o nosso valor, é já um ato de recuperação.

Nas relações próximas, o efeito faz-se sentir na forma como o desequilíbrio se transmite. Uma pessoa que carrega um direito destruído tende a cobrá-lo a quem tem por perto, e um clima público que normaliza a exigência e a dominância dá permissão a esse padrão para se expressar sem freios. A boa notícia, e há uma boa notícia, é que a mesma proximidade que transmite o dano transmite também a reparação. As relações são o lugar onde a confiança se reconstrói, onde a norma da dignidade se pratica em pequeno, e onde uma pessoa pode aprender, muitas vezes pela primeira vez, que é possível dar sem se anular e receber sem exigir. Cuidar de uma relação, neste sentido, é um ato que ultrapassa a relação, porque cada casa onde a dignidade é praticada é uma casa que se torna imune, um pouco mais, ao ruído que vem de fora.

O verdadeiro cuidado tem um custo, e vale a pena assumi-lo quando é escolhido, mas exigir os benefícios de uma relação sem assumir a parte que nos cabe, ou deixar que todo o custo recaia sobre um só, não é justiça, é o eco de um balanço que outros escreveram por nós. Atualizar esse balanço, dentro dos papéis que hoje escolhemos com os olhos abertos, é talvez a tarefa mais política que se pode fazer dentro de uma casa.

Um abraço 

Referência consultadas

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Hatfield (Walster), E., Walster, G. W., & Berscheid, E. (1978). Equity: Theory and Research. Allyn & Bacon.

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Nota de rigor

A ligação entre clima político e violência doméstica é apresentada como hipótese plausível com evidência mista, e não como relação causal estabelecida. Vários dos estudos citados são correlacionais ou de curta duração, e há resultados que apontam em direções opostas, uma vez que tanto a reação conservadora como o avanço dos direitos das mulheres se associam, em contextos diferentes, a subidas na violência reportada. A leitura sustentável é a de amplificação, e não a de causa direta.