Inteligência emocional nas relações: quando saber não chega


Inteligência emocional nas relações: quando saber não chega

Preparaste como se para uma reunião se tratasse. Procuras regular ao máximo possível, praticas autocuidado. Avisas com antecedência, planeias o dia à volta, para que quando chegue a altura, consigas organizar para dizer com calma e simplicidade. 

No entanto, assim que começas a falar, mesmo não olhando para a outra pessoa. Algo dentro de ti começa a duvidar. A outra pessoa fala e já perdeste a linha de raciocínio, o que dizes é emoção em bruto, sentiste confusão, stress, e a conversa termina de uma forma muito diferente do que precisavas. 

O saber e o saber fazer

Estudar online no computador

Partimos do pressuposto de que se conhecermos, será suficiente para saber fazer. Mas estamos a partir de uma ideia redutora, de que no nosso contexto tivemos sempre condições ótimas para fazer treino de algo que é adquirido. A nossa inteligência emocional, o conhecimento das nossas emoções de forma clara, a informação que importa sobre necessidades, limites e comportamentos de resposta. Afinal, os media e profissionais de referência falam disto como se fosse simples, por que não? 

As pessoas, no geral, num ambiente calmo e acolhedor, funcionam na sua capacidade total. Quando o ambiente carrega tensão, normal, ou maior do que o normal, para a nossa segurança, isto não acontece. Não conseguimos organizar e captar com acuidade o que estamos a viver, nem a nós mesmos. O que aprendemos desde pequenos é observar o que o outro faz primeiro, e só depois reflectimos sobre nós mesmos. 

O que é, de facto, inteligência emocional numa relação

Casal a tentar falar

O conceito foi popularizado por Daniel Goleman nos anos 90, mas o que ele descreve: a capacidade de reconhecer, compreender e gerir emoções, tanto nas nossas como nas dos outros, existe na investigação muito antes disso. O que a investigação mais recente acrescenta é algo que o senso comum muitas vezes ignora: a inteligência emocional não é uma característica fixa que se tem ou não se tem. É um conjunto de capacidades que se desenvolvem e que, por vezes, colapsa sob determinadas condições.

Uma dessas condições é a tensão relacional.

Quando estamos numa conversa que começa a ficar difícil, quando sentimos que o outro pode reagir mal, que o que vamos dizer pode magoar, que a relação pode ficar abalada, o sistema interno ativa: o coração acelera, a mente estreita o foco em manter a relação segura. E uma série de capacidades cognitivas e emocionais que funcionam bem em estado de calma simplesmente mudam o comando operativo.

Muitas pessoas não dizem o que precisam porque já aprenderam o que acontece quando dizem. Não é falta de coragem. É inteligência adaptativa — aprenderam que o silêncio é mais seguro do que o risco.

Na investigação, a avaliação cognitiva fica comprometida sob desregulação emocional. Em linguagem simples, significa que a nossa capacidade de reorganizar o pensamento em tempo real, de encontrar as palavras certas, de calibrar o que dizemos, de manter perspectiva diminui significativamente quando a emoção sobe.

E, nas relações mais próximas ou importantes, a emoção fica mais intensa com mais frequência. Porque estamos vinculados a estas pessoas. Porque o que elas pensam de nós importa muito.  Porque a ameaça de perder a ligação activa os mesmos sistemas neurobiológicos que activam a ameaça física. Perdemos a palavra, porque nos importamos!

Se no caso, tudo corresse pelo melhor. O que aconteceria, seria uma adaptação em tempo real, que nos permitisse adaptar ao que estamos a viver no momento, e conseguissemos dizer: "Preciso que vás mais devagar" ou "Não aprecio que me fales com desdém." ou "Preciso que me dês um tempo para me acalmar, mas não saias daqui."

O que são necessidades relacionais e porque é que é tão difícil falar sobre elas

Segurar um café

Todos temos necessidades nas relações. Precisamos de sentir que somos vistos, não só amados, mas realmente vistos. Precisamos de espaço para ser diferentes sem perder a ligação. Precisamos de reciprocidade, de segurança, de saber que o que sentimos importa para o outro. 

A investigação em vinculação, iniciada por John Bowlby e desenvolvida por vários profissionais, como mais recentemente, Sue Johnson na Terapia Focada nas Emoções;  mostra que estas necessidades não são exigências ou fraquezas. São o que estrutura qualquer relação de proximidade. Quando são satisfeitas, o sistema de vinculação está em repouso e em paz. Quando não são, activa: com protesto, afastamento, ou silêncio.

O problema é que nomear uma necessidade requer várias coisas ao mesmo tempo: saber o que se precisa com precisão suficiente para o dizer, ter vocabulário emocional para o expressar, sentir que é seguro dizê-lo e acreditar que dizer vai fazer diferença.

Quando qualquer uma destas condições falha, a necessidade fica arquivada, na memória de trabalho para dizer em breve. Ou talvez, na memória a longo prazo, onde registamos que tentámos dizer e que não fomos ouvidos. Existem outros caminhos, mas este último, pode afectar até a forma como te vês e onde desenvolvemos esquemas de adaptação. Para que da próxima vez, já possamos responder de forma diferente. 

Muitas pessoas não dizem o que precisam porque já aprenderam o que acontece quando dizem. Isto é adaptação ao contexto, aprenderam que o silêncio é mais seguro do que o risco.

Com o tempo, este padrão consolida-se. A pessoa deixa de tentar. Depois deixa de saber exactamente o que precisa, porque deixou de se perguntar. A necessidade existe, continua a organizar o comportamento, a gerar ressentimento, a criar distância, mas já não tem palavras. Porque exige um treino e prática segura, isto é contexto acolhedor. 

Limites: o que são e o que não são

Mulher a usufruir de sol

Fala-se muito de limites nas relações, mas a palavra é usada de formas tão diferentes porque cada pessoa, consoante o seu contexto, vai "ler" de formas diferentes. Para algumas pessoas, um limite é uma regra que se impõe ao outro. Para outras, é uma forma de se proteger. Para outras ainda, é algo que as pessoas saudáveis têm e elas não conseguem ter.

Na investigação em psicologia relacional, expressar um limite é a capacidade de saber o que é aceitável para ti e de o comunicar. Não é uma exigência feita ao outro. É uma expressão do que precisamos e do que acontece em nós quando essa necessidade não é respeitada.

A confusão entre limites e exigências tem consequências práticas. Quando alguém não consegue distinguir as duas coisas, principalmente, quando dizer o que precisa, lhe parece o mesmo que impor uma condição, isto afecta principalmente a tendência natural de proteger a relação e por isso, escolhemos dizer nada. Porque não quer ser percebida como difícil, como exigente, como alguém que cria problemas.

Esta confusão é mais frequente em mulheres, e não é acidental. A investigação sobre socialização de género mostra de forma consistente que as mulheres aprendem, desde cedo, que a disponibilidade emocional para o outro é um valor e que colocar as suas próprias necessidades em primeiro lugar é, frequentemente, percebido como egoísmo. Este não é um traço de personalidade. É uma aprendizagem. E as aprendizagens podem mudar. Nota importante: isto não é de todo, exclusivo às mulheres. A roupagem, ou esta narrativa, envolve esta socialização de género. Para o género masculino o que observo em consulta, é "não quero que ela se zangue" ou "é para não ouvir mais", mas o que está por detrás a dificuldade com a reacção - que acaba por revelar um padrão muito semelhante ao vivido para as mulheres. 

O que acontece quando ficamos em silêncio demasiadas vezes

Quando o silêncio sobre as próprias necessidades se torna crônico, isto tem um custo que raramente é visível de fora. A relação continua, as coisas funcionam, não há crise.

Mas por dentro acumula-se um ressentimento difuso, a sensação de estar sozinha mesmo quando estamos acompanhadas, uma tensão constante sobre o que aprendemos sobre nós mesmos, o cansaço de ser sempre a pessoa que se adapta. E, com o tempo, uma desconexão de si própria, uma dificuldade crescente em verbalizar o que se quer, o que se sente, o que se precisa. 

O silêncio sobre as necessidades não as faz desaparecer. Faz com que deixem de ser algo presente e passem a organizar o comportamento de outras formas: afastamento, irritabilidade, apatia ou uma resignação que se instala no corpo sem grande explicação coerente.

A investigação de John Gottman sobre casais ao longo de décadas mostra que um dos preditores mais consistentes de deterioração relacional não é o conflito: é a ausência de diálogo sobre as necessidades de cada um. Casais que conseguem falar sobre o que precisam, mesmo de forma imperfeita, têm resultados significativamente melhores do que casais que evitam esse território.

O problema não é o desconhecimento, é não expressar no momento, em voz alta, para a pessoa que importa.

O que pode mudar quando se começa a dizer

Nas relações duradouras, as pequenas coisas consistentes têm maior impacto:  conseguir dizer 'esta noite precisava que estivesses mais atento a mim' em vez de ficar em silêncio e depois sentir ressentimento. Conseguir nomear 'quando isto acontece, sinto que não importo para ti' em vez de interpretar o comportamento do outro como prova de que não importas.

Estas pequenas mudanças têm um efeito que a investigação documenta bem: quando uma pessoa consegue expressar vulnerabilidade de forma directa, o que precisa, o que sente, o que a assusta, o outro tem mais probabilidade de responder com proximidade do que com defesa. A vulnerabilidade, quando é expressa com clareza e sem acusação, cria condições para a ligação.

Mas para isso acontecer, é preciso primeiro conseguir nomear. E, dar nome é uma aprendizagem em si mesma, que começa por dentro, muito antes de chegar às palavras.

Porque é que saber não chega

Voltamos ao princípio. A inteligência emocional é necessária mas não suficiente, porque é necessário condições para pratica consistente. Perceber os padrões, reconhecer as necessidades, saber o que devia ser diferente, tudo isso é fundamental. Mas a distância entre perceber e dizer é onde a maior parte das pessoas fica.

Essa distância percorre-se com prática. Com contextos seguros onde experimentar dizer o que normalmente fica guardado. Com a experiência repetida de que dizer não destrói, e às vezes até aproxima.

Não é um processo rápido. E raramente acontece sozinho. Mas começa com uma coisa simples: a decisão de que o que sentes e o que precisas merecem espaço. 

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Referências bibliográficas e artigos consultados 

Collins, N. L., & Read, S. J. (1990) Adult attachment, working models, and relationship quality in dating couples.Journal of Personality and Social Psychology, 58(4), 644–663. 

Simpson, J. A. (1990) Influence of attachment styles on romantic relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 59(5), 971–980. 

Johnson, S. M. & colaboradores — Terapia Focada nas Emoções 

Baucom, D. H. et al. (1990) Gender differences and sex-role identity in marriage. 

Oliveira, L. D. C. (2023) Dissertação de mestrado — Universidade Católica Portuguesa.