Temos de olhar com seriedade e honestidade intelectual para este tema.
A verdade é cara e deve ser bem cuidada pela nossa apatia dos dias de hoje. A IA veio para ficar e tem transformado as nossas vidas..
"Uma ferramenta indispensável"
"Vai transformar o teu trabalho"
Seria o que talvez se ouça de quem aprecia a ferramenta, ora de quem desdenha seu uso por razões pessoais, ora de alguns receios sobre o que isso signifique para o futuro da humanidade.
Mas o que ninguém, ou quase toda a gente, antecipou foi que a humanidade iria usar isto nas relações! Pois é... O uso massificado da IA não tem sido para projectos rentáveis e estruturados, como se anunciou, mas para as relações.
E os relatórios são avassaladores no que diz respeito ao seu uso para conversar sobre relações.
Há temas mais difíceis. E, nos dias em que o corpo pesa mais, esses temas parecem inevitavelmente pedras no sapato que não nos saem da cabeça.
Depois de todo um dia completo e cansativo, "porque raio é que ele nem olhou para mim", pensa em catadupa, sempre com outro pensamento associado "ele já não gosta de mim". E, rapidamente, uma dor intensa se instala no peito. Apetece-lhe chorar, mas rapidamente abana a cabeça para afastar o que sente. "Estúpido" pensa..
Vai ao bolso do casaco comprido que tinha comprado na feira. Puxa o telemóvel e abre a app de IA, onde escreve "como vou conseguir continuar a viver assim?", que desenvolve para uma conversa em que se sente acolhida, em que, pela primeira vez, não sente que alguém lhe está a dizer algo horrível. Onde vai encontrar pelo menos 3 estratégias para tentar viver de forma diferente?
A IA está disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. Basta ligar o telemóvel, ter rede (penso) e iniciar uma conversa com um prompt (pergunta estruturada). Esta disponibilidade gera em nós um descanso, porque tem presença imediata, total e responsiva ao que apresentemos.
É exactamente o que precisamos uns dos outros, como seres humanos. Os índices de solidão que a OMS revela comprovam este caminho a percorrer para a reconexão.
Há, no entanto, a nuance desconfortável de que a IA está a replicar características humanas indispensáveis a um vínculo seguro. E a IA fá-lo a um ritmo rápido e num ambiente que aparenta privacidade. Sem a ter. Mesmo que na melhor das hipóteses aquela conversa não apareça em pesquisas do Google, o que implica uma fuga de informação não planeada, na verdade, a empresa tem acesso a todas as conversas.
Outro elemento desconfortável é a delegação do julgamento crítico, da organização e da estrutura de pensamento. Quando inserimos um dilema no chat, abandonamos a pretensão de chegarmos a um objectivo sozinhos; a entidade vai pensar por nós, e vai aumentar/exponenciar o tema. A estrutura, no entanto, intui elementos que inferimos na nossa afirmação, mesmo sem querer. O que é uma apropriação melhorada da atenção, de nós sobre nós, de outro sobre nós?
Por isso.. Para que nos emprestarmos a relações frustrantes com desafios variados?
Até quando pensamos numa relação terapêutica, a IA consegue organizar eficazmente um tema numa estrutura coerente e apresentar 5 estratégias alternativas de acção.
Parecemos todos desdenhar, mas a verdade é desconfortável. Utilizemos ou não, a nosso favor. Aprendamos ou não a surfar. Mas sabendo com que intuito, para onde e com que intenção. Se escolher observar e utilizar a IA como ferramenta, consigo delegar.
No entanto, a sua disponibilidade e capacidade de nos ensinar. Retira a presença e a motivação para estar na presença do ser humano que escolhemos para partilhar connosco o projecto de vida.
A história passa a conter mais uma nuance, que nos permite regular, a curto prazo, emoções difíceis no meio de uma discussão, por exemplo, mas que precisamente por essa característica, também nos pode tornar dependentes dessa regulação. Por vezes, este paradoxo é interessante porque, afinal de contas, desejamos autonomia e independência nas nossas relações, mas, francamente e abertamente, deixamos um agente ou uma IA generativa entrar mais rapidamente nas nossas relações. Precisamente porque pode facilitar o que já existe.
Aprendi, a partir do conceito de diferenciação do self de Bowen (1976, 1978), que é possível manter uma ligação próxima e uma boa intimidade com outra pessoa e, ao mesmo tempo, tolerar a incerteza da relação e a possibilidade de separação. Isto significa permitir que o outro exista tal como é, sem precisarmos de o influenciar ou controlar para garantir que permaneça connosco.
Esta ideia é muito importante porque muda substancialmente a nossa visão sobre o mito do amor romântico, não é? Um mito construído em torno da fusão e da expectativa de que a outra pessoa esteja sempre atenta a nós. Um bocadinho como aquilo que procuramos na inteligência artificial: que nos responda, que esteja sempre disponível e que seja segura; portanto, que não nos ataque, não se defenda nem fuja.
Mas há uma diferença essencial. A inteligência artificial pode oferecer disponibilidade e uma simulação de responsividade, mas não oferece reciprocidade real. Não tem necessidades, vulnerabilidade, compromisso ou liberdade para permanecer ou partir. Numa relação humana, um vínculo seguro não nasce da eliminação desse risco. Nasce da possibilidade de procurarmos o outro e encontrarmos uma resposta suficientemente disponível, sabendo, ao mesmo tempo, que esse outro continua a ser uma pessoa separada, com limites, necessidades e liberdade próprios. É precisamente essa diferença que torna possível a reciprocidade.
A teoria da vinculação foi formulada por John Bowlby a partir do seu trabalho psicanalítico, clínico e etológico. Bowlby (1969, 1988) propôs que a disponibilidade de uma figura de vinculação oferece uma base segura: alguém a quem podemos recorrer quando sentimos medo ou perigo e a partir de quem podemos explorar o mundo com maior autonomia. A pessoa segura acolhe-nos e, simultaneamente, permite-nos partir. Mais tarde, Hazan e Shaver (1987) aplicaram esta teoria ao amor romântico adulto, propondo que as relações amorosas também podem ser compreendidas como relações de vinculação.
O mito do amor romântico fala-nos, ou pelo menos esta é a interpretação que dele faço, da possibilidade de encontrarmos uma pessoa que nos adivinhe, que nos veja completamente e nos aceite, mas que, ao mesmo tempo, seja como nós. Alguém com quem exista uma complementaridade total, como se todas as regras se alinhassem sem precisarem de serem faladas, por quem sejamos protegidos e cujo amor não precisemos de lutar.
Esta promessa acaba por ser uma falácia. Se somos pessoas diferentes e singulares, não pode existir alguém que pense exactamente como nós ou que esteja no mundo exactamente como nós. Pode haver semelhanças e valores alinhados, claro. Mas até mesmo esses valores são interpretados a partir de histórias, experiências e significados distintos.
A diferença não condena as relações ao insucesso. O que as condena à frustração é a exigência de que o amor elimine essa diferença. O mito romântico perpetua o próprio insucesso ao prometer uma união na qual deixariam de existir o desencontro, a negociação, o conflito, a ambivalência ou a perda.
A exigência e a intolerância ao erro do outro podem ajudar-nos a reconhecer e a reivindicar aquilo de que precisamos numa relação. Mas também podem surgir sob a forma de zanga, confusão e desmotivação para continuar a investir. Existe aqui uma máscara difícil de reconhecer: aquilo que procuramos é legítimo, mas a forma como tentamos obtê-lo pode afastar-nos precisamente daquilo que desejamos.
Queremos sentir que somos vistos, escolhidos e importantes. No entanto, podemos tentar garanti-lo exigindo que o outro nos compreenda sem lhe explicarmos, que nunca falhe connosco ou que corresponda à imagem do amor que construímos. Aquilo que procuramos e a forma como o procuramos podem, assim, entrar em contradição.
É a frustração que muitas vezes nos leva a pensar sobre nós e sobre quem somos. Se não temos ao nosso lado, ou não encontramos, aquela alma gémea, concluímos que falhámos, que não estamos bem ou que não fizemos o suficiente. Depois olhamos para o outro e concluímos que também ele falhou, que não soube amar-nos ou que não fez o que deveria ter feito.
Este reconhecimento pode trazer a relação um bocadinho mais à terra. Aquela ligação pode continuar a ser única e especial sem corresponder a um imperativo impossível. O impossível não é sermos pessoas únicas. É exigirmos que a nossa singularidade seja inteiramente adivinhada, compreendida e correspondida por outra pessoa, sem desencontros, sem negociações e sem falhas.
Somos todos falíveis. O que sustenta uma relação não é a plenitude prometida pelo amor romântico, mas a intenção de continuar, a possibilidade de conversar sobre a diferença e a vontade de construir alguma paz em conjunto. A intimidade não exige que duas pessoas se tornem uma só. Exige que consigam continuar a ser duas e, ainda assim, escolher aproximar-se.
Não estaremos apenas a replicar algo cuja normalidade também nos empurra a concretizar? A interpretação da empresa sobre a performance perfeita, sem erros nem atrasos. Com um lucro desmesurado? A própria IA é uma ferramenta para delegar ou para aumentar?
Estamos claramente a viver uma espécie de mito; no entanto, mudanças em nível macro sustentariam mais facilmente mudanças em nível micro. Nas intervenções psicoterapêuticas, as transformações são sustentadas pela linguagem comum entre contextos, mas também pelo apoio fundamental fora das sessões. Contextos "seguros", com pessoas "seguras", mas falíveis.
Não estamos a idealizar uma ferramenta porque personaliza exactamente as capacidades que gostaríamos de ter para nós?
Não estamos a colocar em segundo plano e a negligenciar exactamente o que mais precisamos, nas nossas relações?
Referências
Bowen, M. (1976). Theory in the practice of psychotherapy. Em P. J. Guerin Jr. (Ed.), Family therapy: Theory and practice. Gardner Press.
Bowen, M. (1978). Family therapy in clinical practice. Jason Aronson.
Bowlby, J. (1969). Attachment and loss: Vol. 1. Attachment. Hogarth Press.
Bowlby, J. (1973). Attachment and loss: Vol. 2. Separation: Anxiety and anger. Hogarth Press.
Bowlby, J. (1980). Attachment and loss: Vol. 3. Loss: Sadness and depression. Hogarth Press.
Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.
Calatrava, M., Martins, M. V., Schweer-Collins, M., Duch-Ceballos, C., & Rodríguez-González, M. (2022). Differentiation of self: A scoping review of Bowen Family Systems Theory’s core construct. Clinical Psychology Review, 91, 102101. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2021.102101
Hazan, C., & Shaver, P. R. (1987). Romantic love conceptualized as an attachment process. Journal of Personality and Social Psychology, 52(3), 511–524. https://doi.org/10.1037/0022-3514.52.3.511