NOTA DE LEITURA. Este artigo contém referências ao contexto político e social português, nomeadamente ao 25 de Abril e às suas consequências nas últimas décadas. Não é uma análise política, é uma leitura individual e clínica de como o sistema em que vivemos afecta as famílias, os casais e cada um de nós.
Estamos a 5 dias do 25 de abril de 2026. E é inevitável em datas comemorativas, não se realizar uma retrospectiva sobre o que se tem vivido. Temos vivido grandes mudanças sociais mas também nas nossas famílias. E num bom processo de autonomia e diferenciação, há tensão, por vezes conflitos, e acomodação.
Quando o contexto de vida é exigente, a relação de casal torna-se muitas vezes o primeiro lugar onde o cansaço se instala e o último a receber atenção. Há 51 anos, Portugal decidiu que liberdade não era perigosa. Que podíamos ser mais nós próprios sem que o mundo desmoronasse. O 25 de abril trouxe o fim de um regime que reprimia grande parte da população, a liberdade de expressão, de movimento, de escolha. Uma ruptura necessária e corajosa. Mas as revoluções raramente chegam completas. E esta também não.
O que se seguiu foi uma transição, imperfeita, como todas as transições, que deixou questões por resolver que chegaram até hoje. Os preços da habitação tornam a independência uma miragem para muitos jovens. O acesso a cuidados de saúde continua a depender de quem pode pagar. Os salários que não acompanham a inflação. A divisão de direitos e remunerações entre mulheres e homens ainda está longe de ser justa. Não me ocorre a nostalgia de um regime que não merece saudade, mas o reconhecimento de que algo no sistema social atual não está a funcionar, e que esse mal-estar tem consequências directas: nas famílias, nos casais e em cada pessoa individualmente.
Quando o contexto de vida é exigente, a relação de casal torna-se muitas vezes o primeiro lugar onde o cansaço se instala e o último a receber atenção.
É neste pano de fundo que quero falar de liberdade nas relações. Não como conceito abstracto, mas como algo que acontece, ou não acontece, dentro de casas reais, com pessoas reais, a gerir vidas hoje em dia.
A dupla jornada que ninguém pediu
A liberdade da mulher. O direito ao trabalho, à autonomia financeira, à participação pública. Foram algumas das conquistas mais transformadoras das últimas décadas. E trouxe benefícios inegáveis: melhorou o nível de vida de inúmeras famílias, alargou o poder de compra, deu às mulheres uma voz e uma identidade fora do lar.
Mas trouxe também um reverso que muitas famílias conhecem bem: quando as responsabilidades dentro de casa não foram redistribuídas na mesma proporção. A mulher entrou no mercado de trabalho e ficou também com a gestão do lar, dos filhos, das consultas, das emoções da família. A chamada dupla jornada é uma realidade documentada e esgotante.
E trouxe uma exigência maior às nossas relações.
E é aqui que o casal começa, muitas vezes, a sentir pressão. Não porque se amem menos. Mas porque estão a tentar manter uma relação no meio de um sistema que exige demasiado de ambos, com pouco suporte e muita expectativa.
A prisão não está na solidão física, mas na ausência emocional persistente e consistente, naquele dia a dia que passa sem que nos vejamos de verdade.
Imaginem um casal.
Ela diz: "Passas mais tempo no trabalho do que comigo."
Ele responde: "Mas quando estou contigo, é especial e ainda assim não chega."
Ela continua: "Não quero estar sozinha. E se eu não fizer tudo, ninguém o faz."
Ele, com alguma perplexidade: "Só para esclarecer: temos uma senhora que nos ajuda em casa."
Este diálogo é fictício. Uma composição de muitos casais reais que fui escutando ao longo dos anos. E revela algo que a investigação em psicologia relacional confirma: nenhuma solução parece suficiente porque o problema não é logístico. É emocional. Debaixo deste ciclo estão sentimentos de insuficiência, frustração acumulada, vergonha por não conseguir agradar e do outro lado, desamparo, raiva contida, medo de não merecer ser escolhida, e por isso, protegida no sistema social.
Autonomia: o que ainda confundimos com abandono
Durante décadas, a ausência do parceiro do espaço doméstico era, para além de um dado adquirido, uma medida clara da ausência de amor. A fusão emocional confundiu-se com intimidade. A dependência total foi romantizada. O problema é que a fusão não é intimidade, é, muitas vezes, o seu oposto.
A investigação em teoria sistémica mostra algo contraintuitivo: a capacidade de manter uma identidade própria dentro da relação. Isto é: ter opinião, espaço, vida interior é precisamente o que permite uma ligação mais profunda e duradoura. Não afasta o amor, mas nutre-o.
As mulheres tendem a ser socializadas como guardiãs da relação: responsáveis por nutrir, manter, antecipar. Os homens tendem a ser socializados para ocultar emoções, para não as mostrar, pois elas tema a representação de fraqueza. Quando estes dois padrões se encontram num casal já exausto pelas exigências do sistema; trabalho, dinheiro, casa, filhos. O ciclo instala-se quase naturalmente: ela reclama ausência emocional, ele não sabe como estar presente dessa forma, ela intensifica, ele recua. Em escalada. É um sistema dentro de outro sistema. Procurarmos culpados, tem pouco valor, mas observar o padrão, dar nome, compreender o papel e como operam em circulos mantém as pessoas presas, em sufoco.
O que funciona com evidência:
A boa notícia é que este sistema pode mudar. Não rapidamente, não sem esforço, e idealmente não sem acompanhamento. Mas pode.
O apego e a autonomia não se excluem. Coexistem em relações onde é possível sentir-se respeitado na individualidade e redescobrir uma intimidade de qualidade, a seu tempo.
51 anos depois do 25 de Abril, continuamos a querer liberdade. Do sistema, sim, mas também dentro de casa. Aprender a amar sem prender, a estar presente sem absorver, a ser livre e deixar o outro sê-lo também: essa é a revolução que muitos casais ainda têm pela frente. E vale a pena fazê-la.
Um abraço
Ana Mafalda Ferreira