Aquele momento em que nos apercebemos outras pessoas tem mais curiosidade pela pessoa que amamos, pode ser um confronto com uma realidade menos agradável. A realidade de que deixámos nós de ser curiosos.
A solidão a dois, a necessidade de nos sentirmos escolhidos e a importância de continuarmos a descobrir quem está ao nosso lado, sabemos serem necessidade do casal. Há uma tristeza de que raramente falo enquanto terapeuta de casal. Mas é o sentimento comum de observar duas pessoas que partilham uma vida, uma casa, tantas memórias e responsabilidades, mas que já não se sentem verdadeiramente próximas.
Uma pessoa procura estar em ligação, faz perguntas, queixa-se, tenta explicar o que lhe falta. A outra pessoa parece exausta, distante, cada vez menos disponível. E, por vezes, a conversa transforma-se numa sucessão de acusações e justificações.
Tu nunca me ouves
Estou sempre a fazer tudo mal, não tenho jeito.
Já não te importas comigo.
Estou exausto, já não consigo dar mais.
Por detrás destas conversas pode existir uma necessidade profundamente humana: voltar a sentir que somos importantes para alguém.
Que a pessoa que amamos continua interessada em saber como estamos, o que pensamos, o que nos preocupa e aquilo que nos entusiasma.
Que continua a ter curiosidade por nós.
A vida em casal exige uma enorme capacidade de organização. Gestão de horários, trabalho, filhos, contas, refeições, responsabilidades familiares e imprevistos.
E aos poucos, as conversas podem ser mais fáceis quando ocorrem em torno dessas tarefas:
Já pagaste a conta?
A que horas vais buscar os miúdos?
O que fazemos para jantar?
Com vai ser o Natal este ano?
São conversas necessárias, fazem parte da cooperação quotidiana, mas quando foi a última vez que perguntamos à pessoa com quem vivemos alguma coisa que ainda não imaginamos saber sobre ela?
O que a preocupa de momento?
O que gostaria de fazer diferente?
O que descobriu recentemente sobre si própria?
As pessoas continuam a mudar ao longo da vida, os seus interesses, prioridades, receios, e desejos também. Podemos conhecer alguém há vinte anos e, ainda assim, ter mais por descobrir.
Em 1988, Harry Reis e Phillip Shaver propuseram o modelo interpessoal da intimidade. Neste modelo a intimidade desenvolve-se através de um processo de comunicação no qual uma pessoa partilha aspectos significativos da sua experiência e encontra uma resposta que percebe como compreensiva, validaste e cuidadora.
Laurenceau, Brret e Pietromonaco (1998) investigaram este processo através de dois estudos com registos de interacções quotidianas. Os resultados apoiaram a importância da auto-revelação, da comunicação do parceiro e da responsividade percebida na experiência de intimidade. Um resultado particularmente interessante foi a maior relevância da partilha emocional, comparativamente à simples comunicação de factos, para a intimidade percebida num dos estudos.
Isto apoia a compreensão de uma diferença importante. Podemos conversar todos os dias e continuar a sentir-nos emocionalmente distantes. A proximidade depende também da possibilidade de partilharmos aquilo que vivemos e sentirmos que a outra pessoa está verdadeiramente interessada em compreender-nos.
A investigação utiliza o conceito de responsividade percebida do parceiro para descrever a experiência de sentir que a pessoa com quem mantemos uma relação nos compreende, valoriza e cuida de nós.
Sue Johnson, fala largamente sobre a importância de responsividade na interação a dois, pois ela alavanca algo fundamental que é a presença dedicada e resposta, é o eco do mundo ao que dizemos. Mas não é uma resposta qualquer, é a resposta da nossa pessoa amada.
Num estudo específico de Candel e Turliuc (2021), 99 casais participaram em registos diários durante sete dias. Os investigadores encontraram associações entre a responsividade percebida e a satisfação conjugal, tanto ao nível das experiências quotidianas como das diferenças entre participantes. Estes resultados ajudam a compreender por que razão a qualidade da atenção que oferecemos pode ser tão importante. Há uma diferença entre ouvir enquanto pensamos na próxima tarefa e escutar com interesse genuíno. Entre perguntar “Como correu o dia?” Por hábito e querer realmente conhecer a resposta. Entre estar fisicamente presente e demonstrar disponibilidade emocional. E estas experiências podem ter consequências para o bem-estar.
Poucher e colaboradores (2022) acompanharam 115 casais que viviam juntos, através de registos diários durante 21 dias. Os resultados mostraram que partilhar experiências pessoais em interacções nas quais faltava compreensão por parte do interlocutor podia estar associado a resultados emocionais desfavoráveis.
Por isso, incentivar os casais a conversar exige também atenção à forma como se escutam.
A disponibilidade para compreender é tão importante como a oportunidade de falar.
Há casais que chegam a um momento em que qualquer tentativa de aproximação parece difícil, ou permeada com camadas de memórias negativas, onde interações de conexão ou tentativas de proximidade resultaram em magoa.
Um parece que pede mais atenção e o outro sente que nada do que faz é suficiente. As explicações multiplicam-se:
“É o stress”.
“Está insatisfeita porque não sou bom para ela”
“Ele nunca percebe o que sinto porque não explico bem o suficiente”
Frequentemente, estas explicações tornam-se uma forma de organizar experiências dolorosas que ainda não conseguiram ser compreendidas em conjunto. Na terapia de casal, há momentos em que uma pergunta pode abrir espaço para uma conversa diferente:
“Já conseguiu compreender o que a outra pessoa viveu quando se sentiu sozinha na relação?”
Pedir desculpa por uma ausência pode ser importante, porque diz respeito ao comportamento. Mas.. reconhecer o impacto dessa ausência, escutar a experiência do outro e demonstrar disponibilidade para agir de forma diferente pode fazer parte de um processo de reparação. Algumas mágoas precisam de tempo, segurança e acompanhamento especializado.
Mas há também relações em que existe vontade de aproximação e falta de oportunidade organizada concreta para começar.
A qualidade das relações intimas tem sido estudada também na sua associação com a saúde. Stanton e colaboradores (2019) acompanharam dados de 1208 adultos ao longo de um período de 20 anos.
Encontraram uma associação longitudinal entre alterações na responsividade percebida do parceiro, a reatividade emocional a acontecimentos stressantes e o risco posterior de mortalidade. A atenção dedicada e uma boa questão pode abrir espaço para mais!
Os resultados são relevantes, embora observacionais, e não permitam concluir que uma determinada rotina de conversa produza benefícios específicos na saúde. Madalena Alarcão no seu livro (Des)Equilibrios Familiares fala como exercícios deste género possam criar espaço para rever hábitos e significados familiares.
O que podemos retirar desta investigação é a importância de estudar a qualidade das relações como parte do bem-estar humano. Sentirmo-nos compreendidos e cuidados pela pessoa com quem partilhamos vida merece atenção. E podemos começar por reservar tempo para isso.
Imaginam que cada conversa verdadeiramente atenta, cada gesto de cuidado e cada momento de interesse genuíno representava um pequeno investimento na relação.
Quanto teriam acumulado ao fim de um ano?
A metáfora é simples, mas recorda-nos que a proximidade também se constrói no quotidiano. Nem sempre precisamos de férias, de um jantar especial ou de uma ocasião extraordinária. Podemos começar com uma pergunta. Uma pergunta à qual ainda não sabemos a resposta. E com disponibilidade para escutar.
Não existe evidência suficiente para afirmar que 5 minutos diários são por si só suficientes ou capazes de recuperar a intimidade de um casal.
Mas reservar um momento para conversar pode ser uma forma acessível de criar oportunidades de atenção e conhecimento mútuo.
28 dias para voltar a encontrar-nos?
Foi com esta intenção que a ATTUNEA criou uma experiência digital gratuita para casais.
28 dias para cuidar da ligação, um calendário de advento digital que propõe todos os dias:
A proposta é simples: criar uma oportunidade diária para conhecer melhor a pessoa com quem partilhamos a vida. Descobrir o que mudou, o que continua a entusiasmar diária para conhecer melhor a pessoa com quem partilhamos a vida. Descobrir o que mudou, o que continua a entusiasmar, o que preocupa e o que ainda desejamos viver juntos.
Esta experiência destina-se a casais que desejam participar voluntariamente, num contexto de respeito e segurança. Não substitui terapia de casal ou psicoterapia individual, nem garante resolução de dificuldades relacionais.
Talvez hoje seja um bom dia para fazer uma pergunta diferente e descobrir que ainda há muito para conhecer na pessoa que amamos.
Um abraço
Escrito por Ana Mafalda Ferreira
Psicóloga clínica, Terapeuta familiar e de casal, fundadora da ATTUNEA
Escrevo sobre relações, intimidade e interdependência.
www.attunea.pt
Suporte de IA na pesquisa de artigos relevantes
Candel, O.S., & Turliuc, M.N. (2021). The role of relational entitlement, self-disclosure and perceived partner responsiveness in predicting couple satisfaction: A daily-diary study. Frontiers in Psychology, 12, Article 609232. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2021.609232
Laurenceau, J.-P., Barrett, L.F., & Pietromonaco, P.R. (1998). Intimacy as an interpersonal process: The importance of self-disclosure, partner disclosure and perceived partner responsiveness in interpersonal exchanges. Journal of Personality and Social Psychology, 74(5), 1238-1251. https://doi.org/10.1037/0022-3514.74.5.1238
Poucher, J., Prager, K.J., Shirvani, F.K., Parsons, J., & Patel, J. (2022). Intimacy, attachment to the partner and daily well-being in romantic relationships. Journal of Social and Personal Relationships, 39, 1574-1601. https://doi.org/10.1177/02654075211060392
Stanton, S.C.E., Selcuk, E., Farrell, A.K., Slatcher, R.B., & Ong, A.D. (2019). Perceived partner responsiveness, daily negative affect reactivity and all-cause mortality. A 20-year longitudinal study. Psychosomatic Medicine, 81(1), 7-15. Https://doi.org/10.1097/PSY.000000000000618