Vergonha nas relações


Vergonha nas relações

Há conversas que evitamos ter.

Normalmente evitamos por vergonha, particularmente aquela defesa de base, que habita no fundo da identidade de uma pessoa e organiza silenciosamente a forma como ela se permite amar e ser amada.

A questão é que a vergonha tem uma muito má reputação. Ter vergonha parece estar associado a algo muito infantil ou mais primário… Ou pior, mais patológico. E por isso, muitas vezes associamos o “tens vergonha?” a um fracasso à partida. E por isso frequentemente, escondemos a vergonha. Mascarando-nos do seu antídoto que é o orgulho.

No entanto....

Quando dois parceiros discutem, a tendência será supor que estamos a lidar de frente com o ego de quem temos à frente. Sentimos uma vontade quase instintiva de derrubar esse orgulho, de ganhar o argumento, de fazer a verdade prevalecer. Será que vale a pena fazer uma pausa aqui e perguntar:

E se o que estamos a tentar "derrubar" não for orgulho, mas a última barreira que sustenta a dignidade daquela pessoa?

E se o que parece arrogância for, na verdade, a armadura construída à volta de um pensamento que nunca foi dito em voz alta "eu não tenho algo de bom para oferecer”, ou que “não sou suficiente"?

Brené Brown, investigadora da Universidade de Houston com mais de duas décadas de estudo sobre vergonha e vulnerabilidade, define a vergonha precisamente assim: o medo da desconexão. A sensação de que, se as pessoas vissem o nosso "verdadeiro eu", não nos amariam nem nos aceitariam (Brown, 2012). Na perspetiva sistémica, esta emoção não é apenas individual. Ela organiza a forma como cada pessoa se aproxima, se protege e se permite ser vista pelo outro (Young, 2003; Conceições & Gomes, 2015). E, nos relacionamentos íntimos, isso tem consequências profundas. 

esconder com função

O contexto que nos rodeia: stress, burnout e saúde mental em Portugal

Compreender o impacto da vergonha nas relações não é suficiente entender individualmente, temos que observar o que acontece , quando acontece e com quem acontece. 

Em Portugal, dados recentes mostram que 50% dos portugueses entre os 18 e os 64 anos relatam stress elevado, enquanto 61% se sentem esgotados ou em risco de burnout (Medicare, 2025; Observador, 2025).

São números que não cabem num gráfico sem um peso humano muito sério: atrás de cada percentagem há uma pessoa que chega a casa cansada, que tem pouca energia para reparar, para escutar, para se aproximar.

Este stress não existe no vácuo. 

Ele é, também, moldado pelas expectativas que a família e a sociedade colocam sobre o que é esperado de cada um na relação. Estudos sobre stress conjugal mostram que pressões externas, nomeadamente laborais, financeiras, de infertilidade, de desigualdade de género, têm um efeito direto sobre o stress interno do casal e, por conseguinte, sobre a satisfação conjugal, o sentimento de valorização mútua e a qualidade da comunicação (Alves, 2022; Catarina, 2021). Quando a família interveio com expectativas rígidas sobre quem deve "cuidar mais" e quem deve "sair à frente", o stress interno aumenta precisamente para quem mais sente a obrigação de corresponder e não consegue dizer "não consigo" sem se sentir a falhar.

O stress individual é o que cada pessoa traz de si mesma. Sobrecarga laboral, burnout, ansiedade, histórias pessoais de vergonha. O stress familiar é o que nasce e se mantém dentro da própria dinâmica da relação: expectativas rígidas, comunicação hostil, papéis de género pouco ou nada negociados, segredos, vergonha não partilhada (Ciclo de ansiedade familiar, 2024; Fronteiras difusas, 2023). Quando os dois, isto é o stress individual e o stress familiar, se alimentam mutuamente, a vergonha instala-se como o "combustível" invisível que impede a mudança, a fala e a negociação de responsabilidades.

Vergonha como interpretação, não como facto

Em muitas famílias ainda predomina um modelo tradicional de género, em que a mulher é vista como a principal responsável pelas tarefas domésticas, pelo cuidado emocional e pelo criar dos filhos, enquanto que do homem é esperado providenciar financeiramente. No entanto, exigimos mais do que isto uns dos outros, atualmente.

Nestes esquemas já internalizados, a pessoa que não consegue "manter tudo" porque trabalha em regime intensivo, porque também precisa de descanso, porque tem as suas próprias necessidades afetivas não conclui que o sistema de expectativas é excessivo. Conclui que ela é insuficiente. Porque a pertença à sua tribo é mais importante do que observar a dinâmica relacional.

E é aqui que a vergonha se instala como interpretação cultural: "não é o contexto que falhou, sou eu que falho". No entanto, com as mudanças atuais, a conclusão muda ligeiramente para "eu não consigo acompanhar, é melhor voltar ao que éramos".

Mesmo que existam factos irrefutáveis de como uma família não consiga efectivamente manter-se e ter “folga financeira” exclusivamente pelo rendimento de uma só pessoa, hoje em dia. Voltar atrás não é solução, mas a forma como está parece ser incomportável. Especialmente quando a ideia que é vendida é a imagem de um privilégio a que todos deveríamos ter acesso. Todos têm sucesso menos eu.

Sabemos disto, mas há determinadas crenças/opiniões que ainda pesam demasiado sobre a forma de nos relacionarmos.

A vergonha, como emoção, é vivida como uma ameaça à identidade, isto é, pensamentos como "tenho algo de errado comigo" ou "eu não mereço isto" (Young, 2003; Conceições & Gomes, 2015). Por isso, a pessoa tem tendência a esconder, a optar pelo silêncio ou pela defesa menos flexível, em vez de pela partilha de vulnerabilidade. Em relações íntimas, isto interfere diretamente na disponibilidade emocional e na capacidade de pedir apoio. A proximidade passa a ser percebida como risco, porque aproximar-se significa arriscar que o outro veja exactamente o quanto a pessoa "não é suficiente". A vergonha leva as pessoas a evitarem temas difíceis, a não nomearem necessidades e a responderem com humor sarcástico, distanciamento ou crítica, o que enfraquece os ciclos de reparação e aproximação tão necessários nos casais (Terra, 2023).

Brown demonstrou que a vergonha não é apenas um episódio isolado, mas um sistema de mensagens e gatilhos que se alimenta de expectativas e tabus culturais, familiares e sociais e que se interliga diretamente com burnout, ansiedade e depressão, sobretudo quando a pessoa sente que não consegue corresponder a ideais de desempenho, parentalidade ou cuidado (Brown, 2007; Brown, 2012). A família, muitas vezes, é o primeiro espaço onde se aprende a ocultar a vergonha: "não se queixa", "não se desilude", "não se é fraco". E o que não tem nome ou significado repete-se sem pensar. 

esconder-se atrás do telemóvel

O que o stress faz à capacidade de estarmos juntos

Quando o stress é elevado, a tolerância à frustração diminui, a energia emocional escasseia e a capacidade de corregulação fica comprometida (Alves, 2022; Ley, 2019). Isto significa que dois parceiros exaustos têm, literalmente, menos recursos para se encontrarem.

Quando a vergonha entra nessa equação, o efeito é ainda mais silencioso: a pessoa esconde o sofrimento, tenta continuar a dar, apresenta-se "bem" em público enquanto em casa carrega a sensação de inadequação, exaustão e impotência; e não fala, porque falar seria confirmar que não está à altura.

A vergonha leva as pessoas a evitar temas difíceis, a não dar nome às necessidades, a responder com humor sarcástico, distanciamento ou crítica, o que enfraquece os ciclos de reparação e aproximação tão necessários nos casais. Brown sublinha que a vulnerabilidade é condição para a intimidade, a coragem e a conexão genuína; mas quando a vergonha domina, essa vulnerabilidade torna-se insuportável. A proximidade passa a ser percebida como risco, porque aproximar-se significa arriscar que o outro veja exactamente o quanto a pessoa "não é suficiente" (Brown, 2012; Conceições & Gomes, 2015).

Nos contextos de infertilidade, por exemplo, estima-se que 25 a 40% dos casais mostrem sinais de ansiedade e depressão aumentados, com as mulheres a sentirem maior pressão social e de género associada à ideia de "ser ou não ser mãe", o que frequentemente gera vergonha, culpa e sensação de defeito (IVI, 2022). Essa vergonha pode ser escondida de familiares, amigos e até do parceiro, criando mais distância, precisamente quando a relação mais precisa de proximidade para atravessar o sofrimento.

Vergonha, corpo e vida sexual

A vergonha associada a papéis de género também se observa na vida sexual e íntima. Estudos clínicos sublinham que a vergonha corporal e a baixa autoestima inibem a expressão de fantasias, preferências e limites, o que diminui a satisfação e a coordenação emocional entre os parceiros. Em vez de espaços de partilha e prazer, a intimidade pode tornar-se num espaço de vigilância e avaliação, onde o pensamento de fundo é sempre o mesmo: “Sou aceite?” ou “Sou normal?”. Estes pensamentos, ao intensificar a vergonha, reduzem a espontaneidade; o que é coerente com a ideia de Brown de que a vergonha é uma "emoção mestra" que desliga as conexões profundas (Brown, 2012; Telavita, 2023).

Vergonha é o termômetro da importância que algo tem para nós. Em que achamos existir uma diferença entre o que somos e o que conseguimos fazer para ser? 

O quanto nós nos preocupamos com algo, por vezes, com uma tal intensidade que se torna dura e por vezes bruta.

Não há nenhum valor na dureza bruta, que a gentileza amorosa não recupere.

As taxas de ansiedade, depressão e burnout são mais elevadas em mulheres do que em homens. É um facto que não se deve à fragilidade, mas porque enfrentam uma carga maior de stress emocional associada a papéis de género e desigualdades de poder (Género e saúde mental, 2022; Frontiers in Psychology, 2024).

Em Portugal, isso traduz-se em números de stress e sintomas de saúde mental acima da média europeia, somados a uma utilização de terapia extremamente baixa, embora esteja a mudar; isto sugere que muito sofrimento é vivido em silêncio, em parte por vergonha de revelar que "não se está bem" mesmo parecendo bem por fora (Medicare, 2025; Observador, 2025). A psicologia ou a psicoterapia ainda não é vivida como base, e o próprio sistema, ainda não valoriza a ponto de providenciar de forma digna às pessoas e profissionais. 

Quando a mulher não consegue equilibrar trabalho, família e autocuidado, a vergonha surge como "falha pessoal". Quando o homem sente a pressão de ser o "problema-solvedor" e não consegue carregar tudo, tende a esconder a fadiga para evitar a vergonha de ser visto como fraco (Brown, 2012; Poconé Online, 2025). O resultado é um relacionamento onde a vergonha organiza quem pode falar, quem pede ajuda, quem se queixa e quem aguenta e ambos ficam presos a um funcionamento relacional pobre em pedido de ajuda, reparação e co-regulação (Pereira et al., 2012; Young, 2003).

Em contextos de violência ou abuso, este padrão agrava-se de forma preocupante: vergonha e medo são frequentemente apontados como barreiras centrais para a decisão de se afastar de um parceiro, pois a pessoa internaliza a ideia de ser responsável pelo que acontece ou de ser indigna de proteção (APAV, 2020; Galvão, 2013). Esquemas de pensamento de defeito, crenças de ser defeituoso, indesejado ou inferior correlacionam-se com maior dificuldade de negociação e cooperação e com menor capacidade de procurar ajuda (Pereira et al., 2012).

O que muda quando a vergonha é trabalhada em terapia

Do ponto de vista clínico, a vergonha é um organizador central da relação: ela determina quanto cada um se permite ser visto, quanto pede apoio e quanto resiste a mudar padrões que, a ambos, já custam demasiado. Trabalhar o stress sem nomear a vergonha e os papéis de género é como apagar fogos sem olhar para a fuga elétrica.

A teoria de resiliência à vergonha de Brown identifica quatro elementos centrais na sua resolução: reconhecer a vergonha e os seus gatilhos; praticar a atenção crítica sobre as expectativas que a alimentam; entrar em contacto com alguém de confiança; e falar da vergonha em vez de a esconder (Brown, 2007). Na terapia sistémica, estes elementos ganham uma dimensão relacional: a família aprende a dar nomes, normalizar e reduzir a vergonha em vez de a repetir.

Em concreto, a terapia ajuda a separar o que é responsabilidade individual, padrões de perfeição, temas de defeito pessoal, do que é padrão relacional: expectativas rígidas, divisão desigual de cuidado, comunicação pouco empática. Ajuda a transformar o stress familiar num assunto de sistema, e não de "doente". E abre espaço para que a vulnerabilidade seja, finalmente, mais segura do que a armadura (Brown, 2012; Conceições & Gomes, 2015; Young, 2003).

Reflexão final: quando o contexto pede demasiado

A vergonha não é um detalhe individual. É um dos fios mais estruturantes da qualidade dos relacionamentos íntimos e um fenómeno profundamente relacional e cultural. Está ligado a papéis familiares, papéis de género e pressões sociais.

Quando a reconhecemos, algo muda. Porque de forma simples, mas não simplista , deixa de ser vivido como prova de que "há algo de errado com esta pessoa" e passa a ser lido como resposta coerente a um contexto que exige demasiado, distribui de forma desigual e pune quem pede ajuda.

Voltando ao princípio: quando sentimos a tentação de "derrubar" o que parece orgulho numa discussão, vale a pena parar. Para perguntar com genuína curiosidade: o que é que esta pessoa está a proteger? O que precisaria de sentir para se poder mostrar diferente? E como seria se a nossa sociedade promovesse o acolhimento ao invés de esconder as diferenças? 

Referências consultadas

Alves, D. (2022). Impacto do stress interno e externo na vivência da conjugalidade. Recil – Universidade Lusófona. https://recil.ulusofona.pt/items/615d2c8d-79a4-4814-ab13-dfaed32aeb89

APAV. (2020). Violência no namoro [Folha informativa]. https://apav.pt/wp-content/uploads/2024/02/FolhaInformativa_VNamoro_2020.pdf

Brown, B. (2007). I thought it was just me (but it isn't): Making the journey from "what will people think?" to "I am enough". Gotham Books.

Brown, B. (2012). Daring greatly: How the courage to be vulnerable transforms the way we live, love, parent, and lead. Gotham Books. [Ed. portuguesa: A coragem de ser imperfeito, 2019]

Catarina, C. (2021). Análise diádica da vinculação, coping e stress conjugal. Universidade do Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. https://sigarra.up.pt/fpceup/pt/pub_geral.show_file?pi_doc_id=321753

Ciclo de ansiedade em ambiente familiar como fator desencadeador de transtornos mentais. (2024). Revista Contemporânea. https://mauago.com.br/wp-content/uploads/2024/12/43-OCICLODEANSIEDADEEMAMBIENTEFAMILIARCOMOFATORDESENCADEADORDETRANSTORNOSMENTAIS-miriam-sousa.pdf

Conceições, M. S., & Gomes, A. P. (2015). Considerações sobre a intimidade, a ansiedade e o medo na experiência amorosa. Psicologia, 29(4), 115–124.

Correio Braziliense. (2025, 27 de julho). Por que sentimos vergonha e como isso afeta nossas relações?https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/por-que-sentimos-vergonha-e-como-isso_afeta-nossas-relacoes/

Fronteiras difusas: Os desafios da falta de limites nas relações familiares. (2023). Revista Contemporânea. https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/2443

Frontiers in Psychology. (2024). Mapping gender role stress scales utilities: A scoping review approach. https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2024.1436337/full

Galvão, T. D. (2013). Medo e vergonha como barreiras para superar a violência. Revista de Saúde Pública, 47(1), 1–10.

Género e saúde mental: Uma abordagem epidemiológica. (2022). Acta Psiquiátrica e de Psicologia da Clínica Geral, 25(3), 237–250.

IG Delas. (2019, 5 de outubro). Como lidar com a vergonha do corpo na hora do sexo. https://delas.ig.com.br/amoresexo/2019-10-05/inseguranca-vergonha-corpo-sexo.html

IVI. (2022, 11 de abril). 25–40% casais inférteis têm sinais de ansiedade e depressão. IVI Portugal. https://ivi.pt/blog/25-a-40-dos-casais-inferteis-com-sinais-de-ansiedade-e-depressao/

Medicare. (2025, 8 de outubro). Saúde Mental Portugal 2025: 50% em stress elevado. https://www.medicare.pt/mais-saude/prevencao/estudo-marktest-medicare-saude-mental-2025

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Pereira, A. C., et al. (2012). Esquemas iniciais desadaptativos na violência conjugal. Psicologia: Reflexão e Crítica, 25(1), 37–44.

Poconé Online. (2025, 7 de janeiro). O impacto das expectativas familiares no casal. https://poconeonline.com/o-impacto-das-expectativas-familiares-no-casal-como-as-pressoes-externas-influenciam-o-relacionamento/

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Telavita. (2023, 10 de setembro). Vergonha no sexo: a sexualidade e sua relação com o externo. https://www.telavita.com.br/blog/vergonha-no-sexo/

Young, J. E. (2003). Schema therapy: A practitioner's guide. Guilford Press.