Stress surge quando as exigências percebidas de uma situação excedem os recursos percebidos para lhe responder.
Quem o disse foi Lazarus e Folkman em 1984, numa formulação transaccional, e a imagem que surge é conter um rio com a sensação de só ter uma pá. Quando assim acontece, perante cenário difíceis, temos duas avaliações a operar simultaneamente:
"Isto ameaça-me?"
"Tenho formas ou recursos para lidar com isto?"
O stress resulta da relação entre a pessoa e o contexto, e nunca é propriedade do acontecimento ou de apenas uma pessoa.
Distinções que podem ser úteis:
O stress agudo é algo que mobiliza recursos e resolve-se na altura. O stress crónico mantém a ativação fisiológica prolonga sem existir resolução.
Acontecimentos de vida grave, como o desemprego, doença, luto, violência são física, psicológica, e emocionalmente mais exigente. São eventos que requerem atenção e energia em fases ou intensidade. Já aborrecimentos constantes e diários, cuja frequência mesmo que em menor intensidade desgastam em igual medida, mas como são pequenos, e por vezes desvalorizados pelo tamanho, normalmente impactam mais e mais negativamente a qualidade relacional, face aos acontecimentos "maiores".
Fora da relação é extra-diádico, e na relação é intra-diádico. Bodernmann (1995) fala do stress originado fora da relação, como o trabalho, finanças, saúde, família de origem, é diferente do stress que ocorre dentro da relação, como padrões de interação ou conflito. A distinção é clinicamente decisiva porque a forma de intervenção difere.
O stress é uma resposta normativa e adaptativo, não uma perturbação. A fronteira clínica reside na intensidade, duração, proporcionalidade e autonomia com outros sintomas em perturbações de adaptação, perturbações depressivas, perturbações de ansiedade, PTSD ou burnout.
O stress raramente fica onde nasceu, entre a conta bancária, o humor do adulto, atravessa o casal, chega à parentalidade e aos filhos. A porta da intervenção é movimentar qualquer destes elos da cadeia.
No modelo sistémico-transaccional (STM de Bodenmann) descreve dois processos: o spillover, o stress externo transborda para dentro da relação, convertendo-se em stress intra-diádico (irritabilidade, retraimento, conflito); e o crossover: o estado de um parceiro transmite-se ao outro.
Manifestações documentadas:
O erro é o casal ler como problema da relação o que é stress importado: o retraimento lido como rejeição, a irritabilidade como desamor.
Coping é o conjunto de esforços cognitivos e comportamentais para gerir exigências avaliadas como excedendo os recursos (Lazarus e Folkman 1984). O coping pode ser focado no problema “O que é que causou?” ou focado na solução “como é que resolvemos?”.
O coping diádico (Bodenmann) é a resposta do casal enquanto unidade ao stress de um ou de ambos:
Instrumento: Dyadic Coping Inventory (DCI; Bodenmann 2008), validado para Portugal por Vedes, Nussbeck, Bodenmann, Lind e Ferreira (2013), amostra comunitária de 605 participantes, estrutura de cinco factores confirmada e boas propriedades psicométricas.
Uma meta-análise central é a Falconier, Jackson, Hilpert e Bodenmann (2015) com 72 amostras independentes de 57 estudos, que demonstrou que a percepção de coping do parceiro prediz mais do que o coping auto-relatado, e as formas negativas pesam tanto como as positivas. O que levanta as hipóteses de que somos mais estratégias, do que amantes na escolha de um parceiro, procuramos aqueles que aos nossos olhos sejam mais capazes de colmatar as nossas falhas ao lidar com uma situação considerada stressor. Hou et al., 2025, com 61 amostras de 57 estudos, casais com doença crónica, demonstrou que a interdependência é modelada, e pode contribuir para satisfação relacional.
O coping diádico, especialmente nas mulheres reduziu o impacto do stress externo crónico no stress interno, como demonstrado por Merz et al (2014), o que também se pode ligar à hipótese de que as mulheres que seguem regras sociais de género, possam delegar com maior confiança aos homens a capacidade de lidar com o stressor, ou a hipótese de que sendo homem, num casal heterossexual, tem de lidar inevitavelmente, reduzindo o impacto do stress na parceira.
Rusu et al (2020) numa amostra com 240 casais com 5 medições anuais, demonstrou que todas as formas positivas de coping diádico se associaram a maior satisfação, entre e dentro dos casais; enfrentar juntos e percepcionar o parceiro como apoiantes foi especialmente protector sob stress elevado.
No entanto, há estudos que demonstram que a universalidade do modelo é aproximada, não absoluta.
Xu et al. (2016) com 474 casais chineses, demonstraram que o stress interno e o coping diádico mediaram totalmente a relação entre stress externo e satisfação, de forma semelhante em homens e mulheres, alargando a validade transcultural.
No entanto, nem todo o coping diádico tem efeitos positivos, temos de considerar vários fatores. Em 2025, um estudo conduzido por Muijres, Bodenmann, Fridtjof, & Jenewein, com 37 casais a lidar com estádios precoces de demência, o coping diádico positivo dos parceiros cuidadores foi associado a menor qualidade de vida nos parceiros doentes.
O coping diádico é protector, no geral, mas por si só não é determinante com contextos de stressor
O stress e o coping diádico distribuem-se dentro de estruturas de poder e de normas de género.
A carga do trabalho de coping tende a ser assimétrica, nas amostras heterosexuais, as mulheres fazem mais do trabalho de amortecimento (Merz et al 2014) e o seu stress crónico é o que mais corrói o tempo de qualidade do casal (Milek et al 2017). A satisfação delas depende também do coping dele; a dele depende sobretudo do próprio (Bodenmann et al 2006). Know et al. (2003) mostra que a própria vida do stress ao conflito é moldada por normal de género culturais. Enquadramento teórico (nível de modelo, não de evidência empírica directa) a socio-emotional relationship therapy de Knudson-Martin e a crítica feminista-sistémica (Goldner, Hare-Mustin) lembram que pedir “coping diádico” a um casal onde uma pessoa já carrega a gestão emocional e logística da casa pode reproduzir a assimetria. Avaliar quem comunica stress e quem o recebe, quem delega e quem absorve, é avaliação de poder, não apenas competência.
Da causalidade linear à circular. A causalidade linear mantém o foco no problema, ao passo que na causalidade circular, a pergunta sistémica é que “padrão de interacção mantém o stress em circulação e que função cumpre no sistema?” (von Bertalanffy, 1968; Watzlawick, Bevin e Jackson, 1967). O stress deixa de ser um input que produz output e passa a ser um padrão mantido por retracção: a tensão dele alimenta o retraimento dela, em casais heterosexuais, e a sequência já não tem começo identificável.
Cada parceiro pontua a mesma dança de forma oposta: “afasto-me porque me criticas” contra “critico porque te afastas” (Watzlawick et al, 1967). Sob stress crónico, as pontuações rigidificam e cada um vive a sua versão como facto. Grande parte do conflito importado é uma guerra de pontuações, não de conteúdos.
O stress vivido pelo sistema, onde dois indivíduos moderadamente stressados podem formar um sistema altamente disfuncional se o padrão de interacção servir como amplificador (escalada) ou um sistema estável se o padrão amortecer. E quem normalmente tem este papel, de amortecer o impacto, e porque? O alvo de avaliação é o padrão, não os níveis individuais. Os sistemas normalmente resistem à mudança mesmo quando ela aliviaria. O stress crónico pode tornar-se elemento organizador: casais que só se aproximam em crise, famílias em que a exaustão de um membro regula a distância entre todos, sintomas de um filhos que desviam a atenção da tensão conjugal. A pergunta que mais interesseira seria o que teria de mudar neste sistema se o stress desaparecesse, e quem perderia o quê.
Bowen, (1978) fala de triangulação e transmissão geracional, na medida em que ansiedade crónica de um par adulto, tende a ser regulada pela inclusão de um terceiro, normalmente o filho, uma sogra, o trabalho, um sintoma. A triangulação do filho é a tradução sistémica daquilo que o Family Stress Model documenta empiricamente na cadeia pressão económica, conflito conjugal, parentalidade, sintoma da criança. A criança sintomática é frequentemente o membro que absorve a ansiedade que o casal não processa entre si. A diferenciação de self, capacidade de permanecer em contacto sem fusão ou corte, prediz na teoria boweniana a resistência do sistema ao “contágio” da ansiedade. Já Minuchin, (1974) mencionado que sob stress, as fronteiras deformam-se em duas direções: a difusão (o stress de trabalho do pai entra sem filtro no subsistema parental e no fraterno; um filho é parentalizado para compensar um adulto esgotado) ou a rigidificação (o parceiro stressado é isolado, o subsistema conjugal fecha comunicação, cada um sobrevive sozinho). Aqui o mapear das fronteiras e permeabilidade, é chave.
Carter e McGoldrick, (1989) os estressores horizontais são os do presente (tradições normativas como nascimento de um filho, reforma e não normativas como doença, desemprego). Os verticais são os herdados: padrões transgeracionais, legados, mandatos familiares sobre como se lida com a adversidade. A crise instala-se tipicamente na intersecção: o desemprego (horizontal) numa família cujo mandato vertical é “um homem que não provê não vale” produz stress qualitativamente diferente do mesmo desemprego noutro sistema de significados.
A própria definição de quem é “o stressado” e de qual é “o problema” é uma pontuação feita por alguém com poder de definir. É importante definir a questão sobre a definição do que é o stress antes de trabalhar o que já está definido.
Nota: A intervenção em casal, compreendendo o modelo de stress, atenua um problema estrutural da partilha de recursos pelas pessoas em determinado sistema.
Terapia de casal pode ser útil quando, o motivo dominante é o spillover, o stress externo está a converter-se em conflito, distância ou erosão da intimidade, e ambos reconhecem a relação como local de sofrimento. O coping diádico está deficitário ou negativo (apoio hostil, ambivalente, superficial) e ambos têm disponibilidade para trabalhar em conjunto. Contra-indicação relativa a avaliar sempre: violência com medo, controlo coercivo, ou risco de escalada torna o formato conjunto potencialmente inseguro; a avaliação individual de segurança precede qualquer trabalho conjunto.
Terapia Familiar quando:
O stress atravessa subsistemas e o conflito do casal já se exprime na parentalidade, num filho sintomático, em coligações ou triangulações. O stressor é familiar por natureza (doença de um elemento, transições do ciclo vital familiar, integração de famílias recompostas) e a cadeia do FSM está ativa. Um adolescente ou criança é portador do sintoma de um stress que pertence ao sistema - mais difícil de identificar a olho nú, merece um olhar profundo de um profissional aos padrões de interação.
Intervenção individual pode ser útil quando há uma perturbação primária que ganhou autonomia (depressão, perturbação de ansiedade, PTSD, uso de substâncias) cuida-se da perturbação, com o casal como contexto de suporte, não como substituto do tratamento. Há risco (a si ou outros) que exige espaço próprio e seguro. A pessoa precisa de clarificar a própria posição antes de qualquer trabalho conjunto, ou o parceiro recusa participar.
Os formatos não são mutuamente exclusivos, acontecem em sequências. Um principio orientador: tratar o stress onde ele circula. Se circula entre os dois, o formato individual pode até aliviar e tornar o padrão crónico.
Toda a informação apresentada é para sensibilização e informação. Não dispensa acompanhamento, avaliação de contexto e história, ou intervenção. Pode parecer mas não ser.
Escrito por
Ana Mafalda Ferreira.
Psicóloga Clínica, Terapeuta Familiar e de Casal, fundadora da Attunea
Escrevo sobre temas de relações, de intimidade afectiva e interdependência.
www.attunea.pt
Suporte de IA na pesquisa de artigos relevantes.
Referências:
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