Há uma frase que ouço (e sinto) muito: "Eu devo estar a exagerar, mas não consigo parar."
Ou então o oposto: "Não quero pedir ajuda. Prefiro gerir tudo sozinha e aguentar."
Estas frases são pequenas pontas de icebergs, como padrões. Padrões aprendidos muito antes de conhecermos os nossos parceiros, as nossas amigas, os nossos chefes. É a forma como aprendemos, ainda crianças, que o mundo funciona e se é seguro pedir ajuda aos outros ou não.
A ciência chama isto de estilo de vinculação (ou apego). E a boa notícia é que, embora se forme cedo, pode mudar. Sempre.
A maioria de nós não foi ensinada a ter relações saudáveis. Fomos ensinadas a ser simpáticas, prestáveis, a não dar trabalho. A aguentar. A gerir as emoções dos outros antes de gerir as nossas.
E depois estranhamos por que razão, mesmo querendo tanto uma boa relação, acabamos sempre em dinâmicas que nos deixam exaustas ou sozinhas no meio de duas pessoas.
Não é azar, nem sempre é culpa da outra pessoa. É um padrão. E os padrões têm nome.
A investigação mostra que há dois grandes estilos de apego inseguro, e ambos afetam profundamente a satisfação nas relações:
O apego ansioso vive com medo de abandono. É a mulher que manda a mensagem e fica a ver se o outro viu. Que interpreta o silêncio como rejeição. Que critica, persegue, protesta; não porque seja "difícil", mas porque, por dentro, está aterrorizada de ser abandonada e não sabe pedir o que precisa de forma direta. Pedir pode afastar a outra pessoa.
O apego evitante protege-se à distância. É a mulher que cuida de todos menos de si. Acha que pedir algo é fraqueza. Talvez se isole quando mais precisava de se abrir. Que prefere resolver tudo sozinha a arriscar ser decepcionada.
São esquemas de auto-proteção que um dia fizeram sentido e que hoje, nas relações adultas, criam o oposto do que queremos.
Sintetizando décadas de investigação em terapia de casal e saúde relacional, as necessidades centrais são surpreendentemente simples:
Sentir-se vista de verdade. Não só ouvida, mas também vista. O que se sente tem valor, mesmo quando não faz sentido para o outro.
Ter espaço para ser ela própria. Trabalho, projetos, identidade sem que a ligação se transforme em controlo ou abandono. Uma base segura a partir da qual se pode voar.
Poder contar com o outro. Não que seja perfeito, mas que seja previsível. Que quando ela precisa, ele (ou ela) está.
Saber que o seu valor não depende de agradar. A autoestima é uma das peças mais importantes do puzzle: quando está sólida, a insegurança de apego pesa muito menos.
Conseguir ajustar expectativas sem se anular. Flexibilidade é a capacidade de adaptar sem perder a si mesma.
Em linguagem simples: relações onde é seguro ser vulnerável. Onde pedir é legítimo. Onde o outro está lá, de forma consistente, mesmo imperfeita.
Estes exercícios são inspirados na Terapia Focada nas Emoções (EFT/EFTA), uma das abordagens com mais evidência científica para o bem-estar relacional. Não precisas de estar em terapia para os experimentar.
Quando estás prestes a criticar, ironizar ou atacar, pausa tudo.
Pergunta-te: "Se eu estivesse completamente vulnerável aqui, o que eu diria?"
Depois reformula em três partes simples:
Por exemplo: "Eu sinto medo de não ser importante para ti quando chegas e ficas no telemóvel. Eu precisava que me desses 10 minutos de atenção primeiro."
É diferente de "Estás sempre no telemóvel, não te importas nada comigo." mesmo que por dentro estejas a sentir exatamente o mesmo.
Todos os dias, 5 minutos, responde por escrito a estas três perguntas:
Isto não é egoísmo. É treinar a ideia de que cuidar de ti é compatível com ser boa parceira, boa mãe, boa profissional.
Cinco minutos no final do dia para duas perguntas simples:
E depois um microajuste para amanhã: "Em vez de organizar tudo em silêncio, vou dizer: 'Estou cansada e preciso de ajuda'."
Pequeno, mas com o tempo notarás que fazes este raciocínio de forma natural.
Uma vez por semana, em casal, cada pessoa responde a duas perguntas enquanto a outra só ouve:
Regra fundamental: sem responder, sem defender. Só: "Obrigado/a por me dizeres isso."
É revolucionário. Porque coloca o medo no centro, não a acusação.
Faz uma lista de 3 situações em que costumas dizer "sim" e depois te ressentir.
Para cada uma, escreve uma alternativa que honre a relação e a ti: "Eu quero ajudar, mas hoje não consigo. Posso fazer amanhã?"
Escolhe um microlimite por dia para praticar. Não tens de fazer a revolução de uma vez. Um sim diferente por dia já é muita coisa.
Desenha círculos: tu / parceiro(a) / amigos / família / colegas / outros.
Pergunta-te: "Para apoio emocional, a quem recorro? Para apoio prático? Para validação profissional?"
Identifica um ponto a fortalecer fora da relação de casal — uma amiga, um grupo, terapia, uma atividade.
Isto é tirar pressão dessa relação. Uma relação não consegue (nem deve) ser o único lugar de suporte de ninguém. "É preciso uma aldeia" também para o nosso bem-estar.
Coisas simples que criam doses diárias de segurança:
Para mulheres com apego ansioso, a previsibilidade destes rituais faz uma diferença enorme. Não porque sejam grandes momentos, mas porque estão sempre lá.
Não te peço que te tornes noutra pessoa. Peço que comeces a reconhecer o teu padrão, sem julgamento, e que experimentes, devagar, fazer uma coisa diferente.
A segurança nas relações não se constrói de uma vez. Constrói-se em gestos pequenos, repetidos, que provam ao teu sistema nervoso que é seguro estar presente. Que é seguro pedir. Que é seguro ser vista.
E se sentes que isto ressoa, mas não sabes por onde começar, falar com uma terapeuta que trabalhe com vínculos e emoções pode ser o passo que muda tudo.
Não porque estejas partida. Mas porque mereces ter acesso ao que sempre foi teu.
Gostaste deste artigo? Partilha com alguém que precise de o ler. 💛