Se exista coisa que adoro, é ciência. Principalmente, porque ela não diz o que fazer. Ela abre possibilidades e curiosidade. Nas piores alturas de uma pessoa, ela vai "exigir" cuidado, e muitas vezes, julgamos que o cuidado é orientação direta. E embora, seja também verdade que haja alturas em que isso é necessário. Na maior parte das vezes uma sugestão, é apenas uma sugestão, nós entendemos a mensagem e aplicamos à nossa maneira e ao nosso contexto.
Assim, a investigação abre possibilidades, em teste e erro. Queremos infirmar as nossas hipóteses, ou confirmá-las. E, portanto, quando procuramos informação, isso cria uma atmosfera de curiosidade que nos liberta de certezas e garantias, que podem operar como grilhões. Atmosfera esta que pode criar determinadas reflexões, que originam novas hipóteses e, por conseguinte, novas experiências onde nos vamos conhecer melhor.
Esta introdução em si mesma, serve para confirmar a hipótese de que precisamos de contexto para determinados temas que nos são mais "caros". Seja porque literalmente nos custam tempo, dinheiro e foco, ou porque são mais próximos à nossa identidade ou valor pessoal. E, portanto, devem ser abordados com cuidado.
Assim, tenho escutado um tema que cada vez mais surge, sem ser nomeado à partida, que é o feminismo versus machismo. E, esta discrepância ativa feridas antigas, feridas do que observámos os nossos pais interagir sobre, das nossas mães reagir, e agora nós adultos, capazes e inteligentes, a reproduzir sem querer. Ciclos negativos de discussão, onde caímos num desdém ou num desprezo que não nos cabe mais, mas que se misturam com ideias de como devemos ser ou o que seja esperado de nós nas relações. Ler ou ouvir sobre estes temas... é no mínimo um gesto interessante, no entanto, custa...
Hoje em dia felizmente, já existem muitos pontos de partida científicos que podemos rever e analisar, mas com a pitada de sal necessária, pelas nuances e limitações da sua componente social. Como sabemos que não vivemos dissociados da sociedade, e da família, não podemos analisar um sem compreender o impacto na dinâmica relacional que possa ter.
E, por isto tudo, antes de qualquer conclusão, três limitações estruturais aplicam-se à quase totalidade destas investigações que trouxe para reflectir nos temas de género e devem ser mantidas em mente ao longo de toda a leitura: Designs transversais dominam e nesta análise encontram-se ausentes. A maioria dos estudos mede conformidade e bem-estar no mesmo momento, excluindo a raça, etnia, classe social, orientação sexual ou nível de educação. Todos estes factores influem fortemente o efeito das normas de género. E, podendo variar, não é de todo adequado para conclusões generalizadas para todas as pessoas. Cada situação é única e deve ser pensada de forma adaptada. Não é possível saber se as normas causam sofrimento, se o sofrimento leva a maior rigidez de papel, ou se ambos têm um terceiro fator comum, como história de vinculação, classe social ou adversidade crónica. E, portanto, não me proponho ainda a realizar esta análise do ponto de vista interseccional, apesar de ser devido e importante. Instrumentos datados. O Bem Sex Role Inventory (BSRI, 1974) e o Conformity to Feminine/Masculine Norms Inventory (CFNI/CMNI, Mahalik et al., 2003/2005) são os instrumentos mais utilizados. O BSRI define "masculinidade" como assertividade e independência e "feminilidade" como ternura e orientação para os outros, categorias dos anos 70 que muitos investigadores consideram desatualizadas e culturalmente enviesadas para contextos ocidentais
Em 2005, Mahalik et al desenvolveram o instrumento mais utilizado internacionalmente que é o Conformity to Feminine Norms Inventory (CFNI), com 446 citações. Tem 8 dimensões originais e a investigação mostra consistentemente que não constituem um bloco: têm efeitos diferentes e, por vezes, opostos na saúde mental.
| Dimensão | O que mede | Correlação com bem-estar |
|---|---|---|
| Thinness — Magreza | Pressão para ter corpo magro, controlo do peso | ↑ ansiedade, depressão, perturbações alimentares |
| Investment in Appearance — Aparência | Tempo e energia dedicados à aparência física | ↑ ansiedade cognitiva, insatisfação corporal |
| Sexual Fidelity — Fidelidade sexual | Monogamia como expectativa identitária | ↑ ansiedade; efeito contexto-dependente |
| Modesty — Modéstia | Evitar ser vista como superior, não se promover | ↑ sofrimento; ↓ auto-estima, autonomia |
| Nice in Relationships — Ser agradável | Evitar conflito, manter harmonia relacional | Ambivalente: protetora em contextos de cuidado; limitante quando ocorre à custa de si |
| Domestic — Doméstica | Valor atribuído ao papel de cuidadora do lar | Resultados mistos; contexto-dependente |
| Care for Children — Cuidar de crianças | Papel maternal como central na identidade | Associada a maior procura de apoio psicológico em amostras clínicas |
| Romantic Relationship — Prioridade à relação | Identidade dependente da relação romântica | Associada a maior dependência emocional |
Nota: Iwamoto et al. (2023) utiliza uma versão com 9 dimensões que acrescenta "Sweet and Nice" como fator separado.
Magreza, aparência e ansiedade são a correlação mais robusta de toda esta literatura. Em 2018, Aparício-García et al., com uma amostra de 234 em Espanha, verificou que Magreza, Fidelidade Sexual e Investimento na Aparência associam-se a uma maior ansiedade cognitiva. Magreza sendo a única dimensão que se poderia associar à ansiedade total. Limitação do estudo é de facto o tamanho da amostra e transversalidade. Em 2019, Shakya et al. no The Lancet Child & Adolescent Health, mediu normas de género na adolescência e seguiu resultados de saúde na vida adulta, para uma amostra de 20743 pessoas. E, verificaram que uma alta feminilidade nas mulheres adolescentes, estavam associados a indíces mais altos de sintomas depressivos, colesterol e tensão arterial elevados, mais cefaleias, mais limitações físicas, e pior auto-avaliação de saúde. Embora, a amostra seja robusta e portanto melhor representativa, a generalização para outros contextos requer cautela, precisamente pelos dados terem sido recolhidos na América exclusivamente apesar da diversidade cultural.
A Simpatia nas relações, é a dimensão ambivalente, pelos resultados demonstrados por Esteban-Gonzalo et al. em 2019, com uma amostra de 200 pessoas grávidas em cuidados primários, que associaram esta dimensão a um menor risco de depressão na gravidez. Revelando valor adaptativo, como vamos poder reflectir mais à frente. Já a modéstia, tem uma correlação mais consistentemente negativa com o bem-estar, como é observado por Matud et al. (2019) com uma amostra de 1700 homens e 1700 mulheres espanholas. Com idades compreendidas entre os 21 e 64 anos de idade, se concluiu que homens e mulheres cujas características de expressão tipicamente feminina e características instrumentais tipicamente masculinas geram maior bem-estar. Tal como na pesquisa de Mommersteeg et al. em 2023, com uma amostra de 504 pessoas holandesas, das quais 54% eram mulheres.
Investigadores fazem frequentemente meta-análises para refletir o estado da arte atual. E Lin et al. em 2021 referenciaram 58 estudos ingleses, com instrumentos variados e em culturas predominantemente ocidentais, publicados entre 1978 e 2021, no Journal of Affective Disorders. Lin et al. reviram que a masculinidade, em traços instrumentais, é consistentemente protectora contra a depressão, mas que este efeito tende a diminuir à medida que a esperança média de vida aumenta e as sociedades se tornam mais igualitárias. A feminidade tem uma associação negativa mais fraca, mas significativa com a depressão, em especial nas mulheres e estudantes universitárias. Estando este a aumentar desde 1990, à medida que o índice de desenvolvimento humano sobe. Poderíamos pensar, que quanto mais recursos e educação tem uma sociedade, mais a feminidade tradicional se torna um fardo.
E nesta meta-análise foram também analisados traços andrógenos e indiferenciados em termos de género. O interessante, nesta análise, é que a androginia está consistentemente associada a menores níveis de depressão de todos os perfis, cuja vantagem se torna mais marcada com o passar do tempo.
A androginia é definida por Lin et al. como a capacidade de ter alto acesso a ambos os traços femininos e masculinos. Portanto, toda a variabilidade de expressão e comportamento.
Apesar destes resultados e análises, a ciência comprovou paradoxos também, como Delgado-Herrera et al., em 2024, com 3 estudos independentes, comprovou que atitudes tradicionais podem associar-se a menos ansiedade e depressão, pelo menos a curto prazo, como se tivessem uma função adaptativa de conformidade, reflicto eu. Já para Delgado-Herrera et al., atitudes não tradicionais associam-se a um melhor funcionamento psicológico positivo, como com propósito de vida, crescimento pessoal, relações positivas.
A conclusão, em hipótese, é que conformar-se reduz fricção com o ambiente externo imediato e isso tem um efeito protector no sofrimento. No entanto, não deixa de limitar o desenvolvimento interno pessoal. A limitação central destes estudos é o contexto mexicano com normas de género muito marcadas, e portanto, não generalizável a contextos mais igualitários.
Nós não existimos dissociados da nossa sociedade e contexto familiar, por isso esse contexto determina o custo para agir de forma diferente, ou nesta lente dos papéis de género, o achado mais robusto metodologicamente é de Zentner et al. Em 2020, com 18 amostras nacionais em 15 países, revelou que a não conformidade de género só é psicologicamente prejudicial quando ocorre em contextos com normas mais rígidas, isto é, menos tolerância perante comportamentos diferentes. Quanto mais igualitária é a sociedade, menos a conformidade e autoestima se associam negativamente. Aqui a igualdade é medida a nível nacional, não do contexto imediato, isto é, num mesmo país com medidas de igualdade altas, não se pode tirar conclusões sobre uma família mais rígida em termos das normas de género. E aqui, o único indicador de bem-estar foi a autoestima, o que pode limitar o espectro dos resultados.
Mas então, mesmo com estes dados, e estas reflexões, como podemos avaliar, se mesmo sendo conforme as normas de feminilidade, temos bem-estar?
Não existem critérios simples, e isso já é informação relevante, sendo complexo, abre caminho com a nossa curiosidade.
Weber et al em 2019 distinguem conformidade de constrição. O que pode ser a norma torna-se prejudicial quando sanções negativas são aplicadas quando transgredida. A pergunta seria: "Seria melhor, se consegues não seguir as normas quando queres ou precisas?" Para avaliar liberdade pessoal.
Shayka et al em 2019, mostram que o dano da feminidade tradicional intensa tem uma acumulação gradual e silenciosa, não como sofrimento subjectivo óbvio, mas como pior saúde física, mais limitações funcionais e pior autoavaliação de saúde. Uma mulher pode sentir-se "bem" e estar a viver dano físico que não reconhece visivelmente. Por isso, uma maior vigilância da saúde física torna-se um marcador importante.
Aparício-García et al em 2019, com uma amostra de 690 mulheres com diferentes orientações sexuais, identificaram cinco perfis distintos de conformidade, o que revela que não existe uma só forma de seguir as regras distintas, mas a configuração específica que importa para a saúde mental. Aqui mencionada no seu resumo, para enquadramento da diversidade humana face a este tema.
Já para os homens, os critérios de masculinidade tradicional, foram organizados em determinadas dimensões de comportamentos e não ideologia. Assim, Mahalik et al (2003) com 11 dimensões, com versões abreviadas e aqui referenciadas pela consulta de Levant et al na sua validação da CMNI-30 em 2020. E, tal como no feminino, as dimensões têm efeitos diferentes e por vezes opostos.
| Dimensão | O que mede | Correlação com bem-estar |
|---|---|---|
| Emotional Control — Controlo emocional | Suprimir emoções, não mostrar vulnerabilidade | ↑ ideação suicida; ↓ procura de ajuda |
| Self-reliance — Auto-suficiência | Não pedir ajuda, resolver tudo sozinho | ↑ depressão; ↑ ideação suicida; ↓ literacia em saúde |
| Violence — Violência | Tolerância ou uso de violência como prova | ↑ ideação suicida; ↑ hostilidade |
| Risk-taking — Tomar riscos | Comportamento de risco como marcador de masculinidade | ↑ acidentes, consumos; efeito misto na ansiedade social |
| Power over Women — Poder sobre mulheres | Crenças de domínio sobre mulheres | ↑ hostilidade; parte do perfil de maior risco |
| Playboy — Conquistador | Múltiplos parceiros sexuais como estatuto | Resultados mistos; parte do perfil de risco intermédio |
| Status — Estatuto | Busca de respeito e reconhecimento social | ↓ depressão; ↑ procura de ajuda — efeito protetor |
| Primacy of Work — Trabalho em primeiro | Identidade centrada no trabalho e produtividade | Resultados mistos; pode ser adaptativo com moderação |
| Heterosexual Self-presentation — Apresentação heterossexual | Provar heterossexualidade, evitar qualquer coisa percebida como "gay" | ↑ ansiedade social em alguns contextos |
| Winning — Vencer | Orientação para ganhar, competitividade | Resultados mistos; contexto-dependente |
| Disdain for homosexuals — Homofobia | Rejeição de homossexualidade como marcador identitário | ↑ rigidez psicológica; ↑ hostilidade |
O perfil mais perigoso identificado pela investigação de Essenberg et al. e, 2024, com uma amostra de 488 análises de perfis latentes identificou 3 perfis:
Igualitários (58,6%) com baixa conformidade geral, e menores riscos de todos os indicadores de mal-estar. Os players (16%) com crenças patriarcais mais vincadas, promiscuidade sexual, e apresentação heterossexual, com risco médio. E, por fim, os estóicos, que envolvem as dimensões de restrição emocional, autosuficiência mais extrema e comportamentos de risco; assumem uma expressão de 25,4% das pessoas no estudo, mostraram 2,32 vezes maior risco de tentativa de suicídio ao longo da vida, maior somatização da depressão, maior crença na dificuldade em suportar a dor emocional.
Sendo rigorosa, a conclusão mais precisa não é a masculinidade em geral que é o problema, mas a combinação específica de não se permitir sentir, de não pedir ajuda e acreditar que a dor emocional é intolerável.
Este estudo tem limitações, pois a amostra foi recolhida online, auto-seleccionada e predominante da língua alemã.
A auto-suficiência é a dimensão mais problemática, Goodwill et al. e 2020, com uma amostra de 273 homens negros universitários, revelou que a auto suficiência associou-se a maiores níveis de depressão. O controlo emocional não foi significativo nesta amostra, sugerindo que valores culturais e contexto racial importa ainda que a amostra seja muito específica.
Num estudo semelhante, Kings et al, em 2020, com uma amostra de 829 jovens rapazes, acompanhados aos 15-17 e 18-20, demonstraram que a auto-suficiência e violência conseguem predizer longitudinalmente ideação suicida. Verificaram ainda que a conformidade está associada a menos capacidade de pedir ajuda e por isso reforçam a necessidade de apresentar modelos alternativas de género As limitações focam no contexto australiano, e faixas etárias do estudo.
Curiosamente, a procura de estatuto, ou status evidenciou-se como a dimensão que se associa a menos sintomas depressivos e à maior utilização de serviços de saúde mental, como é demonstrado por Sileo et al. em 2020. Em contraste, neste estudo conduzido nos EUA, salientou-se que dureza masculina associar-se a consumo de substâncias e anti-feminidade a maiores níveis de hostilidade e menor procura de ajuda. E, de reforçar que querer ser respeitado e ser competente não é o mesmo que suprir emoções. As limitações são a amostra ser jovem, heterossexual do Nordeste americano.
Herreen et al. salientaram que a inflexibilidade psicológica mediou completamente a relação entre conformidade às normas masculinas e depressão. A inflexibilidade aqui é definida como a incapacidade de adaptar o comportamento ao contexto, de se abrir à experiência emocional, de agir em função de valores em vez de regras. Este estudo de 2022, conta com uma amostra de 326 homens australianos, com média de 62 anos de idade. Aqui nesta amostra o dano não vem de ser masculino, mas da rigidez, o que se revela uma limitação pela idade e pela amostra predominantemente branca e com recrutamento online.
Uma maior conformidade às normas masculinas associa-se consistentemente a menor procura de ajuda e menos envolvimento no tratamento. Inversamente, conformidade a normas femininas (abertura emocional, orientação relacional) associa-se à maior procura de ajuda, numa meta-análise em 2025, com revisão de 82 estudos realizada por Burns et al.
O ciclo parece claro o suficiente: as normas que causam sofrimento são as mesmas que impedem de aceder ao apoio que o aliviaria.
Nota: a revisão identifica uma lacuna onde a maioria dos estudos aborda a masculinidade como défice, não como recurso. Seria interessante que o ponto de vista de investigação pudesse alavancar os aspectos positivos da masculinidade para também facilitar o engagement terapêutico.
A androginia psicológica, conceito operacionalizado por Sandra Bem (1974) como o acesso simultâneo a traços instrumentais e expressivos, é consistentemente o perfil associado a melhor saúde mental em múltiplos estudos, culturas e metodologias. Matud et al, em 2019 comprovaram numa amostra de 3400 pessoas espanholas, a variável preditora de bem-estar foi alta masculinidade em ambos os sexos, mas pessoas com ambas as dimensões elevadas, alta masculinidade e alta feminidade tiveram o maior bem-estar de todos. A feminidade não é prejudicial, a sua ausência combinada com presença exclusiva de traços instrumentais já o é, tal como a ausência de traços instrumentais. No BSRI (Sandra Bem 1974), a masculinidade e feminidade são dimensões independentes. Ter traços instrumentais não implica rejeitar traços expressivos, e este equívoco é frequente.
Portanto, com esta base empírica construída nas últimas décadas, não é uma posição ideológica, é o que a investigação converge sobre flexibilidade psicológica e regulação emocional como protector. Não significa que seja neutro em termos de género, ou rejeite traços tipicamente femininos ou masculinos, ou se apresente de forma andrógina, ou ainda tenha pontuações iguais em ambos os eixos. Significa que operacionalmente para as mulheres cisgénero, conseguir ser assertiva sem sentir que se traí quem é, ou poder estabelecer limites sem medo de ruptura, poder ambicionar sem se sentir "demasiado" ou poder não cuidar quando não tem capacidade, sem culpa desproporcional.
Para os homens cisgéneros, poder pedir ajuda sem isso ameaçar a identidade, poder admitir não saber, poder sentir medo e tristeza sem os transformar imediatamente em raiva ou comportamentos de risco, poder chorar sem que isso seja o fim.
O mecanismo partilhado é a flexibilidade psicológica: a capacidade de aceder a toda a gama de respostas emocionais e comportamentais sem que isso ameace a identidade. O custo da rigidez de género, em qualquer direção, é o mesmo: estreita o repertório disponível para responder à vida.
Bem-estar não é ausência de traços de género. Não é conformidade, nem não-conformidade. É a presença de liberdade psicológica para os viver em equilíbrio, em qualquer direção, sem que isso ameace quem se é.
O impacto das normas de género não se limita ao interior de cada pessoa. Estende-se à relação e à forma como duas pessoas negoceiam (ou não) as suas expectativas sobre papéis, responsabilidades e poder. Um estudo recente e metodologicamente sólido (Park et al., 2025, PNAS Nexus) examinou exatamente esta questão: como é que a congruência ou incongruência entre as atitudes de género dos dois parceiros afeta a satisfação relacional? O estudo analisou 7.183 casais heterossexuais nos EUA e na Alemanha, com seguimento longitudinal de 2 a 13 anos e mais de 34.000 avaliações, tornando-o um dos estudos mais rigorosos nesta área.
Utilizando uma metodologia avançada de análise diádica (Dyadic Response Surface Analysis), os autores conseguiram capturar algo que os estudos anteriores perdiam: não apenas se os parceiros são similares, mas em que direção e com que intensidade diferem.
Os resultados revelam uma combinação inesperada de similaridade e complementaridade e variam entre homens e mulheres e entre culturas. Casais em que ambos partilham atitudes fortes, sejam muito tradicionais ou muito igualitárias, reportam maior satisfação relacional do que casais em que um ou ambos têm atitudes neutras ou ambivalentes. Quando há diferença entre parceiros, a direção importa: casais em que o homem é mais igualitário do que a mulher reportam maior satisfação do que casais em que a mulher é mais igualitária do que o homem.
Este resultado é contraintuitivo, mas tem uma explicação plausível: quando o homem tem atitudes mais igualitárias do que a mulher, ambos estão a priorizar os interesses do outro, ele abre mão dos privilégios e ela mantém segurança. Quando é o inverso, ambos estão alinhados com os seus próprios interesses, mas em tensão com os do parceiro.
A atitude neutra ou ambivalente é a mais problemática. Casais em que um ou ambos os parceiros não têm posição clara sobre a divisão de papéis reportam menor satisfação relacional. A ambivalência, não saber o que se quer ou sentir-se dividido, parece criar uma forma de ambiguidade relacional que dificulta a negociação e o sentido de projeto partilhado.
Nos EUA, as mulheres mostram um padrão distinto: reportam maior satisfação apenas quando um ou ambos os parceiros têm atitudes igualitárias. Não beneficiam da satisfação associada à partilha de atitudes tradicionais, ao contrário das mulheres alemãs. Os autores sugerem que isto reflete diferenças culturais e institucionais profundas: a Alemanha tem políticas de licença parental e apoio ao cuidado que tornam as escolhas tradicionais mais viáveis e menos penalizadoras. Os EUA penalizam mais o trabalho a tempo parcial e oferecem menos apoios institucionais ao cuidado, tornando as atitudes igualitárias mais funcionais para as mulheres americanas.
Esta diferença é clinicamente importante: o mesmo padrão atitudinal pode ser adaptativo num contexto e custoso noutro. O bem-estar relacional é sempre coproduzido pela estrutura social em que o casal vive.
O que converge nos dois eixos: a ambiguidade e a rigidez são os dois estados mais problemáticos: um por excesso de abertura sem posicionamento sólido, o outro por encerramento sem a flexibilidade para abrir. E o contexto cultural é sempre codeterminante.
O que diverge de forma interessante: a nível individual, normas tradicionais intensas tendem a ser mais custosas para as mulheres do que para os homens. A nível relacional, o custo não está na direção das atitudes, mas na assimetria e na falta de clareza. Um casal pode funcionar bem com atitudes tradicionais partilhadas, desde que haja convicção genuína e simetria e desde que o contexto cultural o sustente.
Os artigos consultados
(Não sou investigadora, realizei esta reflexão com o apoio de uma app de IA para recolha de artigos peer reviewed:)
Iwamoto, D., Le, T., Clinton, L., Grivel, M., & Lucaine, E. (2023). Why conform?: The implications of conformity to feminine norms on psychological distress among college women. Current Psychology, 43, 8655 - 8664. https://doi.org/10.1007/s12144-023-05023-z.
Marta E. Aparicio-García, Belén Fernández-Castilla, Marta Alicia Giménez-Páez, Estefania Piris-Cava, Invención Fernández-Quijano, Influence of feminine gender norms in symptoms of anxiety in the Spanish context,
Ansiedad y Estrés, Volume 24, Issues 2–3, 2018, Pages 60-66, ISSN 1134-7937,
https://doi.org/10.1016/j.anyes.2018.03.001.
Shakya, H., Domingue, B., Nagata, J., Cislaghi, B., Weber, A., & Darmstadt, G. (2019). Adolescent gender norms and adult health outcomes in the USA: a prospective cohort study. The Lancet. Child & Adolescent Health, 3, 529 - 538. https://doi.org/10.1016/s2352-4642(19)30160-9.
Esteban-Gonzalo, L., Manso-Martínez, M., Botín-González, P., Manchado-Simal, B., Rodrigo-De-Frutos, R., & González-Pascual, J. (2019). The relationship between conformity to male and female gender norms and depression during pregnancy. Archives of Women's Mental Health, 22, 809 - 815. https://doi.org/10.1007/s00737-019-01003-0.
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Burns, L., Olive, L., Turner, A., Rice, S., Wrobel, A., Montgomery-Farrer, B., Norton, B., Seidler, Z., & Hayley, A. (2025). The role of gender norm conformity in men's psychological help-seeking and treatment engagement: a scoping review.. Journal of mental health, 1-19 . https://doi.org/10.1080/09638237.2025.2512304.
Matud, M., López-Curbelo, M., & Fortes, D. (2019). Gender and Psychological Well-Being. International Journal of Environmental Research and Public Health, 16. https://doi.org/10.3390/ijerph16193531.