Há mulheres que conseguem perceber que um homem está zangado antes de ele dizer uma palavra. Na minha própria história, havia mulheres que eu com alguma estranheza, observava que assim que um homem começava a mostrar sinais de irritação o cercavam com imensos mimos. Enquanto mulher achava isto injusto e desigual. No entanto, hoje em dia como psicóloga, com a formação em EMDR, consigo ver que na história daquela mulher, aquela reacção era uma de sobrevivência.
Notamos, uma alteração de voz, uma resposta curta, a expressão de cara alterada, a forma como pousou qualquer coisa na mesa. São sinais suficientemente fortes e intensos que notoriamente exibem uma mudança. E, aqui o foco muda de imediato.
Começam a explicar melhor o que queriam dizer, suavizam consideravelmente o que estavam a pedir, desistem do seu argumento, tentam aliviar o ambiente com humor, aproximam-se, pedem desculpa de imediato, ou acabam por dizer “Não faz mal, deixa estar.” E, por vezes, esquecem mesmo. Não porque aquilo tenha deixado de ser importante, mas porque, naquele momento, outra coisa se tornou mais importante: ele deixar de estar zangado.
A expressão foi popularizada pelo psicoterapeuta Pete Walker para descrever uma resposta à ameaça em que a pessoa procura segurança através do apaziguamento do outro. Em vez de lutar ou fugir, tenta tornar-se menos ameaçadora.
Concorda, cuida, antecipa necessidades, evita contrariar, torna-se particularmente atenta ao estado emocional da outra pessoa. Walker (2003) relacionou este padrão com trauma infantil e codependência. Mais tarde desenvolveu a ideia no livro Complex PTSD: From Surviving to Thriving (Walker, 2013).
Mas, a fawn response não está estabelecida cientificamente como uma quarta resposta neurobiológica ao perigo equivalente a fight, flight ou freeze. Sendo fight a resposta de luta face ao perigo percebido no imediato, flight uma resposta de fuga, e freeze quando o corpo bloqueia perante o perigo.
A investigação começou recentemente a utilizar o termo, mas continua a descrevê-lo como um conceito pouco estudado e com problemas de definição e medição (Algarin et al 2026). Significa, talvez, que tenhamos começado por lhe dar um nome popular antes de compreendermos suficientemente bem tudo aquilo o que o nome contém. Mas há uma palavra que melhor descreve. Apaziguamento, ou appeasement.
Apaziguar pode ser uma forma de sobreviver…
Imagina que estás perante alguém que representa uma ameaça. Lutar pode aumentar o perigo, fugir pode não ser possível, existe outra possibilidade: reduzir a probabilidade de essa pessoa te fazer mal.
Cantor e Price em 2007 analisaram o papel do appeasement em situações de ameaça prolongada e aprisionamento traumático, incluíndo abuso doméstico. A proposta dos autores é evolucionaste e teórica, portanto não demonstra experiencialmente que exista um mecanismo único de apaziguamento. Mas ajuda a compreender que quando não conseguimos controlar a ameaça, podemos tentar controlar a reacção de quem representa essa ameaça.
E, isso muda a forma como olhamos para alguns comportamentos, onde o que a pessoa aprendeu que acontece quando alguém fica desagradado com ela?
Há de facto muitas coisas que aprendemos muito cedo. Uma criança depende dos adultos à sua volta. Não pode simplesmente fazer as malas porque o pai é imprevisível. Ou não pode escolher outra família porque a mãe reage agressivamente. Não consegue avaliar a situação com a distância que terá aos 35 anos… Consegue no entanto, aprender que determinado tipo de olhar antecede uma explosão, que há assuntos que não devem ser mencionados, que é melhor não responder de determinada forma, ou responder de todo. Que ser muito querida naquele momento ajuda. Que fazer tudo bem reduz problemas. Que perceber rapidamente o humor de um adulto é útil.
Há literatura sobre trauma e dissociação onde encontramos a seguinte possibilidade: quando a raiva de um cuidador se torna um sinal associado à possibilidade de abuso, a criança pode começar a responder defensivamente a essa raiva. Se ser excessivamente obediente ou agradável conseguir, algumas vezes, evitar essa reacção, o apaziguamento pode tornar-se uma estratégia aprendida. Isto não exige uma decisão consciente. Ninguém precisa de pensar “Vou desenvolver uma estratégia de submissão para reduzir a ameaça”. Aprendemos através daquilo que acontece. E aprendemos particularmente depressa aquilo que nos mantém seguros.
Uma estratégia pode ter sido extremamente inteligente aos oito anos e aparecer aos 38 anos quando já não é necessária.
Ou aparecer numa relação em que é necessária.
Phillips et al (2025) entrevistaram 16 adultos com história de maus tratos na infância e posterior vitalização por violência nas relações intimas. Os participantes descreveram vários caminhos através dos quais as experiências precoces pareciam continuar presentes nas relações adultas, incluindo alterações nas estratégias de gestão da ameaça, dificuldade em reconhecer abuso e dificuldade em colocar as próprias necessidades em primeiro plano. È um estudo qualitativo pequeno, não demonstra que trauma infantil provoque estas respostas, nem permite generalizar os resultados a todas as pessoas, mas ajuda-nos a compreender como uma aprendizagem relacional pode atravessar relações diferentes. O cérebro não precisar de encontrar exactamente a mesma pessoa, precisa de reconhecer sinais suficientemente semelhantes: uma voz que muda subitamente, um silêncio prolongado, uma cara enrugada de raiva. E a antiga pergunta pode reaparecer: “O que tenho de fazer para ele fique bem comigo?”
O apaziguamento começa a roubar espaço à autonomia. Cuidar do outro não é patológico, ceder ou receber influência muito menos, há dias em que olhamos para uma discussão e pensamos: “não interessa assim tanto hoje, podemos fazer como tu queres” Isso é escolha. Há uma diferença quando alguém começa uma conversa sabendo exatamente o que sente e, perante o desagrado do outro, deixa de conseguir perceber o que queria.
A atenção muda de lugar, e em vez de “o que estou a sentir” passa para “o que ele está a sentir”; em vez de “continuo a concordar com aquilo que disse?” Passa para “como é que resolvo isto?”; em vez de “estou segura nesta conversa?” Passa para “como faço para ele ficar bem?”
A pessoa torna-se extraordinariamente competente a ler o outro. E pode ficar progressivamente menos disponível para se ler a si própria. Por isso: expande além de pessoas que cuidam e pessoas que não cuidam, para cuidar do outro mantendo acesso a nós próprios e precisar de cuidar do outro para recuperarmos segurança.
E porque estou a falar de mulheres e homens?
Vamos com cautela.
Não existe evidência suficiente para dizer que as mulheres têm uma fawn response específica perante homens, homens também apaziguam, também aprendem submissão perante ameaça, também podem crescer em contextos onde discordar é perigoso.
Também seria estranho falar de relações como se acontecesse num laboratório sem género, história ou poder. Até porque ao normativo não são relações heterossexuais?
As mulheres não chegam às relações apenas com a sua história familiar. Chegam também com aquilo que aprenderam sobre o que significa ser mulher, sobre cuidar, sobre ser agradável, sobre compreender, sobre não ser “difícil”, manter relações sobre o risco associado a determinados homens.
E, para algumas mulheres, chegam também com experiência sérias de violência masculina, e não estamos só a falar de pequenos piropos..
A investigação mostra uma relação entre sexismo e violência contra mulheres. Numa meta-análise, Agadulina et al (2022) encontraram associações entre sexismo hostil e benevolente e atitudes ou comportamentos relacionados com violência masculina contra mulheres, sendo as associações mais fortes para o sexismo hostil.
Isto não significa que possamos explicar cada comportamento de uma mulher através do patriarcado. Até porque se a mulher aprendeu a se submeter, aprendeu também que alguém se deve submeter… E os homens também. Não podemos explicar todos os comportamentos de apaziguamento através da psicologia individual. Por vezes existe trauma, por vezes aprendizagem naquela relação, socialização de género, desigualdade de poder na relação, e frequentemente todos estes pontos encontram-se.
Gabor Maté oferece uma ilustração particularmente poderosa deste princípio a partir da sua própria história. Nascido numa família judia em Budapeste durante a ocupação nazi, Mate descreve como, enquanto bebé, esteve exposto ao stress extremo da mãe e à ameaça real à sobrevivência familiar. Mais tarde, interpretou alguns dos seus padrões de auto-supressão como adaptações precoces destinadas a proteger a relação com a mãe num contexto em que essa relação era literalmente indispensável à sobrevivência (Maté & Maté, 2022).
Em contexto extremos, adaptar-se ao outro pode não ser submissão no sentido comum. Pode ser sobrevivência. Gabor Maté descreve esta lógica a partir da sua própria infância sob ocupação nazi: numa relação de dependência absoluta, a criança pode aprender a suprimir dor, raiva ou necessidade quando sente que expressá-las ameaça a ligação com quem a mantém viva. Mais tarde, Maté conceptualizou esta tensão como um conflito entre o vinculo e autenticidade. Quando ambos parecem ser incompatíveis, a criança tende a preservar o vínculo. Esta ideia é coerente com a literatura sobre awpeasement, que descreve o apaziguamento como uma estratégia de sobrevivência perante ameaça e forte assimetria de poder (Bailey et al, 2023; Cantor & Price, 2007).
Taylor et al (2000) propuseram o modelo tend-and-befriend, em vez de pensar apenas em luta ou fuga, os atores chamaram a atenção para comportamentos de cuidado e procura de ligação social perante o stress, particularmente estudados em mulheres. Mas não é o mesmo de fawn, se estou assustada e telefono à minha irmã, procuro uma amiga ou aproximo-me de alguém em quem confio, estou a utilizar a relação como recurso. Isso pode aumentar a minha segurança, no apaziguamento de que estamos a falar acontece algo diferente: a pessoa de quem me aproximo pode ser precisamente aquela cuja reacção estou a tentar controlar.
Não procuro apenas ligação, procuro que tu deixes de estar zangado para que eu possa voltar a sentir-me segura. O significado disto, é gigante numa relação.
Quem tem liberdade para desagradar, porque podemos ter uma relação sem gritos, sem insultos, sem discussões particularmente violentas, e ainda assim, uma das pessoas passar grande parte do tempo a antecipar aquilo que a outra vai sentir.
“Se eu disser isto, ele vai ficar chateado”
“Se eu sair, ele vai interpretar mal”
“Se eu não fizer isto, ele vai achar que não quero saber”
“Se eu falar disto agora, estrago o fim de semana”
Os “se’s” começam a organizar a relação. E pouco a pouco deixamos de tomar decisões apenas a partir daquilo que aconteceu. Começamos a tomá-las também a partir daquilo que imaginamos que poderá acontecer no outro. Não estou a dizer que todas estas antecipações são fawning. Embora valha a pena perceber quanto da nossa liberdade relacional está organizada em torno da prevenção da reacção de outra pessoa.
Nem toda a ameaça é uma memória de uma ameaça antiga.
Por vezes, a ameaça é atual. Uma mulher que adapta aquilo que diz ou faz perante um parceiro violento ou coercivo pode estar a fazer uma avaliação bastante realista do perigo. As orientações da OMS sobre violência por parceiro íntimo deixam clara a importância de avaliar segurança, necessidades e circunstâncias concretas da mulher, em vez de reduzir estas experiências a sintomas individuais (World Health Organization 2013, 2014).
Por isso, perante uma pessoa que está constantemente a tentar manter o parceiro calmo eu começaria por perguntar: “o que é que acontece quando não o apaziguas?”
Talvez o objectivo não seja deixar de agradar
Tenho resistência à ideia de que a solução para people leasing seja simplesmente ensinar as pessoas a dizer “não”, há pessoas que aprenderam a fazê-lo porque isso lhes permitiu manter uma ligação importante. Ou porque lhes permitiu permanecer seguras, não se retira algo e diz “agora coloca limites”, precisamos de conhecer profundamente a função daquela estratégia.
Evitar conflito
Proteger uma relação
Impedir violência
Proteger alguém da possibilidade intolerável de ser abandonado..
Só depois de compreender, podemos perguntar se continua necessária, porque o contrário do apaziguamento não é confronto, é ter escolha. É perceber “ele está zangado comigo” e continuar suficientemente presente para acrescentar “e eu ainda cá estou”. Continuo a pensar, a saber o que sinto, a poder decidir se quero aproximar-me, afastar-me, ceder ou manter a minha posição. Continuo ligada a outra pessoa sem precisar de desaparecer para preservar a ligação. Talvez seja esta uma das formas mais interessantes de pensar segurança numa relação: não apenas sentirmo-nos amados quando agradamos ao outro, mas continuarmos a sentir que existimos quando o desagradamos.
Referências:
Agadulina, E., Lovakov, A., Balezina, M., & Gulevich, O.A. (2022). Ambivalent sexism and violence toward women: A meta-analysis. European Journal of Social Psychology, 52(5-6), 819-859. Https://doi.org/10.1002/ejsp.2855
Algarin, A.B., Lee, J.-Y., & Zhan, X. (2026). Fight, flight, fawn, freeze: Rethinking substance use through a stress response lens. Current Addiction Reports, 13, Article 21. Https://doi.org/10.1007/s40429-026-00723-5
Bailey, R., Dugard, J., Smith, S.F., & Porges, S.W. (2023). Appeasement: Replacing Stockholm syndrome as a definition of a survival strategy. European Journal of Psychotraumatology, 14(1), 2161038. Https://doi.org/10.1080/20008066.2022.2161038
Maté, G., Maté, D. (2022). The myth of normal: Trauma, Illness and healing in a toxic culture. Avery.
Cantor, C., & Price, J. (2007). Traumatic entrapment, appeasement and complex post-traumatic stress disorder: Evolutionary perspectives of hostage reactions, domestic abuse and the Stockholm syndrome. Australian &. New Zealand Journal of Psychiatry, 41(5), 377-384. Https://doi.org/10.1080/00048670701261178
Phillips, A.R., Williams, R., Okuoimose, V., Hiller, R.M., McCrory, E., Viding, E., & Pezzolo, P. (2025). Lived-experience perspectives on the psychological factors linking childhood maltreatment to later intimate partner violence victimization. European Journal of Psychotraumatology, 16(1), 2524922. Https://doi.org/10.1080/20008066.2025.2524922
Substance Abuse and Mental Health Services Administration. (2014). Trauma-informed care in behavioral health services (treatment Improvement Protocol Series Nº57). U.S. Department of Health and Human Services.
Taylor, S.E., Klein, L.C., Lewis, B.P., Gruenewald, T.L., Gurung, R.A.R., & Updegraff, J.A. (2000). Biobehavioral responses to stress in females: Tend-and-befriend, not fight-or-flight. Psychological Review, 107(3), 411-429. Https://doi.org/10.1037/0033-295X.107.3.411
Walker, P. (2003). Codependency, trauma and the fawn response. Pete Walker.
Walker, P. (2013). Complex PTSD: Fram surviving to thriving: a guide and map for recovering childhood trauma. Azure Coyote.
World Health Organization. (2013). Responding to intimate partner health violence and sexual violence against women: WHO clinical and policy guidelines. World Health Organization.
World Health Organization. (2014). Health care for women subjected to intimate partner violence or sexual violence: A clinical handbook. World Health Organization.
Um abraço,
Mafalda
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta Sistémica e Familiar
Escrevo sobre temas de relações, intimidade afectiva e interdependência.
Suporte de IA na pesquisa de artigos relevantes.
ATTUNEA