E se sempre foi diferente? Género, matriarcado e o que a ciência diz sobre o passado


E se sempre foi diferente? Género, matriarcado e o que a ciência diz sobre o passado

Há perguntas que começam pequenas. Esta começou numa sessão de terapia, num momento banal, quando alguém disse qualquer coisa do género "sempre foi assim" e eu fiquei com isso a andar na cabeça durante dias. Sempre foi assim. As pessoas dizem-no com tanta convicção que, às vezes, e perante todas as adversidades físicas e psicológicas que os casais enfrentam, hoje em dia, surge a pergunta em modo loop em mente:  mas foi mesmo?

Então comecei a pesquisar. Sem um argumento pronto para defender, mas com curiosidade genuína, daquele tipo que é um pouco desconfortável porque não sabes bem o que vais encontrar. Percorri a arqueologia, a antropologia, a história, a psicologia. Fui fazendo perguntas que levavam a outras perguntas. 

Partilho aqui esse percurso tal como aconteceu, com as perguntas que fui colocando, as respostas que encontrei e os momentos em que a investigação me surpreendeu. Com tudo o que sabe e com tudo o que admite ainda não saber.

Os seres humanos são fluidos? 

PSICOLOGIA

NEUROCIÊNCIA · IDENTIDADE · ORIENTAÇÃO · PAPÉIS

luz de vela

Fluido em quê, exatamente?

A primeira coisa que percebi quando comecei a pesquisar é que "fluÍdo" não é uma palavra que se aplica da mesma forma a tudo. A investigação distingue três construtos que são frequentemente confundidos e que têm implicações diferentes, desenvolvimentos diferentes, e em que a fluidez aparece de formas diferentes. Misturá-los é clinicamente problemático.

Orientação sexual

É a direcção do desejo afectivo, romântico e/ou erótico em relação a outras pessoas. 

A investigação distingue várias dimensões da orientação sexual que podem não coincidir na mesma pessoa: atracção, comportamento, identidade e fantasias. Uma pessoa pode ter uma orientação e nunca a ter expressa em comportamento. 

A fluidez está documentada sobretudo na identidade, ou seja, na forma como a pessoa se descreve a si própria. Um estudo com 22.673 pessoas no Reino Unido (Hu et al., 2023, Demography) mostrou que 6,6% mudaram de identidade sexual entre dois momentos de avaliação. Esta fluidez é mais comum entre mulheres e identidades plurissexuais. Uma nota importante: fluidez na identidade não implica que a orientação seja uma escolha. O que muda é frequentemente a forma como a pessoa nomeia a sua experiência, não necessariamente a experiência em si.

Identidade de género

É o sentido interno e subjectivo de ser homem, mulher, ambos, nenhum ou outra coisa.

É uma experiência interior, não um papel social nem uma orientação sexual. Hyde et al. (2019, American Psychologist, 760 citações) são explícitos nesta distinção: identidade de género é quem se é, distinto do que se faz (papéis) e por quem se sente atracção (orientação). 

A fluidez nesta dimensão também está documentada: um estudo longitudinal com mais de 900 jovens (deMayo et al., 2025) verificou nesta amostra que quase 12% dos jovens inicialmente cisgénero apresentaram uma identidade diferente na avaliação posterior. Em adolescentes transgénero e não-binários, 28,9% mudaram de identidade ao longo de 1,5 anos. 

A investigação ainda não consegue distinguir com precisão se isto reflecte exploração de linguagem, maior acesso a conceitos ou mudança genuína na experiência interior. Por isso e apesar de estar documentada esta investigação, não é de todo significativa para determinar a fluidez, mas apenas observa que ela está presente. 

Papéis e normas de género

São os comportamentos, atitudes e expectativas que uma cultura atribui a homens e mulheres com base no sexo, é uma dimensão social. 

Cislaghi et al. (2019, Sociology of Health & Illness, 359 citações) definem as normas de género como crenças instaladas nas mentes das pessoas e incorporadas nas instituições, que moldam profundamente o que é esperado e o que é punido. Incluem quem cuida das crianças, quem chora, quem ocupa espaço público, quem combate. São aprendidos, variam entre culturas e ao longo do tempo e podem ser contrariados, com custo social, como veremos na pergunta seguinte.

O que o cérebro diz sobre tudo isto

A hipótese do "cérebro em mosaico", desenvolvida por Daphna Joel e colaboradores, mostra que os cérebros humanos não se organizam em dois tipos distintos. São compostos por combinações únicas de características que variam ao longo de um contínuo. 

Uma meta-análise de três décadas de neuroimagem (Eliot et al., 2020) concluiu que o sexo explica cerca de 1% da variância total na estrutura cerebral. Um por cento... 

A biologia não determina uma divisão binária rígida e isso é relevante para perceber que a variação humana em género, orientação e papéis não é uma anomalia, mas uma característica da nossa espécie humana.

O que estes três construtos têm em comum é que são independentes entre si. Uma mulher com identidade de género feminina pode ter qualquer orientação sexual e rejeitar completamente os papéis de género tradicionais. Um homem gay pode conformar-se inteiramente com normas de masculinidade. Uma pessoa não-binária pode ter qualquer orientação. Fausto-Sterling (2019, Journal of Sex Research, 178 citações) argumenta que sexo, género e orientação estão entrelaçados, mas precisamente por isso não devem ser colapsados numa única dimensão, porque cada um tem o seu desenvolvimento e as suas implicações específicas.

Eliot et al. (2020), Neuroscience & Biobehavioral Reviews; Hu et al. (2023) · Demography; Hyde et al. (2019)  American Psychologist; Cislaghi et al. (2019)  Sociology of Health & Illness; Fausto-Sterling (2019) Journal of Sex Research; deMayo et al. (2025)
Nota: a maioria dos estudos de fluidez usa amostras de conveniência ou clínicas. Os dados de população geral são mais limitados.

Conformar-se às normas de género tem custos psicológicos? E o que significa, concretamente, não se conformar?

PSICOLOGIA 

NORMAS DE GÉNERO · BEM-ESTAR · CFNI · CMNI

casais de mão dada

As normas de género têm um custo físico 

A segunda pergunta centrou-se especificamente nos papéis e normas de género, que é o terceiro construto que vimos antes. Se são aprendidos, se variam entre culturas e se podem ser contrariados, o que acontece às pessoas que vivem muito comprimidas dentro deles? A investigação tem respostas concretas para isto.

Há instrumentos que medem o grau de conformidade com as normas de género. Para as mulheres, o Conformity to Feminine Norms Inventory, desenvolvido em 2005, identiica oito dimensões: desde a pressão para ter um corpo magro até à expectativa de ser agradável nas relações. Os resultados não são lineares: algumas destas normas associam-se claramente a mais sofrimento, outras têm efeitos mistos, e algumas têm até efeitos protetores em determinados contextos. 

O que é consistente é que as normas de Magreza, Aparência e Modéstia estão repetidamente associadas a mais sintomas de ansiedade, mais sintomas de depressão, e menos bem-estar geral. 

Um estudo longitudinal no The Lancet com mais de 20.000 adolescentes mostrou que alta feminidade na adolescência permitiu predizer naquela amostra, décadas depois, mais cefaleias, mais limitações físicas e pior saúde geral. O dano não surgiu todo de uma vez. Pode acumular-se silenciosamente em sintomas físicos.

Para os homens, o padrão mais preocupante que encontrei está na dimensão da auto-suficiência, a norma de não precisar de ajuda, de resolver tudo sozinho, de nunca mostrar que se está mal. Uma análise de perfis com 488 participantes (Eggenberger et al., 2024) identificou um perfil que chamou de "Estóico": pessoas que não acedem aos seus sentimentos, que não conseguem pedir ajuda e que acreditam que a dor emocional é intolerável. Este perfil tinha 2,3 vezes mais risco de tentativa de suicídio ao longo da vida. O que me ficou desta investigação foi a imagem de um ciclo que se fecha sobre si próprio.  As normas que causam mais sofrimento são exactamente as mesmas que impedem de procurar ajuda. Para não falar, como determinadas medidas incluem efectivamente o desdém pelo feminino, como factor de diferenciação, no entanto, ao rejeitar determinada dimensão, estamos a polarizar a outra...

O mecanismo central que a investigação isola é a rigidez psicológica, não as normas em si, mas a incapacidade de sair delas quando seria necessário. Herreen et al. (2022) mostraram que esta rigidez mediou completamente a relação entre conformidade às normas masculinas e depressão. E uma meta-análise de 58 estudos publicados entre 1978 e 2021 encontrou que pessoas com acesso tanto a traços instrumentais como expressivos, o que a investigação chama de androginia psicológica, apresentam consistentemente menos depressão. E esta vantagem está a crescer com o tempo, não a diminuir.

O paradoxo que surge na investigação 

Há um dado incómodo que vale a pena nomear: um estudo com três amostras independentes no México encontrou que atitudes tradicionais em relação ao género se associam a menos ansiedade e depressão a curto prazo. Conformar-se neste contexto reduz a fricção com o ambiente. Isso tem um efeito protetor sério, e seria desonesto ignorá-lo. 

O custo aparece noutras dimensões individuais, nomeadamente no desenvolvimento pessoal que simplesmente não acontece, no propósito pessoal que fica por encontrar, na autonomia que estagna. Ela não pode acontecer.

Mahalik et al. (2003, 2005) CMNI e CFNI; Shakya et al. (2019), The Lancet; Lin et al. (2021) Journal of Affective Disorders ; Eggenberger et al. (2024), Heliyon; Herreen et al. (2022)
Nota: instrumentos desenvolvidos nos EUA, amostras ocidentais. Não validados para pessoas transgénero.

Se as normas de género têm custos documentados e validados, fiquei a pensar: de onde vieram? Sempre estiveram aqui? Quando começou e por aí em diante

Há igualdade documentada no passado? 

ARQUEOLOGIA 

PALEOLÍTICO · NEOLÍTICO

janela para o que sabemos

A desigualdade tem data de nascimento

Quando comecei a ler as investigações que me surgiram sobre pré-história, encontrei algo interessante, o modelo do "homem caçador, mulher recoletora" não tem suporte arqueológico sólido. Durante décadas foi apresentado como facto evolutivo, mas, ao que parece, é uma leitura posicionada no que acreditamos hoje. 

Em 2020, uma equipa liderada por Haas publicou na Science Advances a descoberta de um enterramento de 9.000 anos nas Américas com um kit completo de caça. O ADN confirmou tratar-se de uma mulher jovem. A meta-análise que se seguiu encontrou pelo menos dez outros casos semelhantes. E quando olhamos para o sítio arqueológico de Çatalhöyük, na Turquia, com quase 10.000 anos, a análise de 131 paleogenomas publicada em 2025 na Science mostra casas organizadas pela linha materna, raparigas com mais oferendas funerárias do que rapazes e nenhuma evidência de acumulação desigual de riqueza. Uma cidade que durou mais de mil anos sem hierarquia econômica institucionalizada.

A desigualdade aparece mais tarde. O que a investigação genómica de cemitérios neolíticos europeus mostra é que a patrilinearidade e a patrilocalidade se estabeleceram há 5.000 a 7.000 anos. E Bowles et al. (2024) concluem que a desigualdade de riqueza duradoura só emerge quatro milênios depois da revolução agrícola, com a propriedade da terra, a herança e a concentração de poder. A desigualdade de género nasceu com a possível prosperidade? Interessante! Mas não vamos tirar conclusões precipitadas face ao presente. 

Vale nomear as limitações desta investigação com honestidade: os dados cobrem sobretudo a Eurásia ocidental e as Américas. A arqueologia de género ainda está a corrigir décadas de viés androcêntrico nas interpretações. E o que os enterramentos nos dizem sobre relações de poder em vida é sempre uma inferência, nunca uma certeza.

Haas et al. (2020), Science Advances; Yüncü et al. (2025), Science; Rivollat et al. (2023), Nature; Bowles et al. (2024), J. Economic Literature

Há contextos onde o matriarcado foi documentado? E que implicações teria?

ANTROPOLOGIA 

SOCIEDADES MATRILINEARES DOCUMENTADAS

o que está documentado sobre as sociedades matriarcais?

Existem hoje e com efeitos mensuráveis na saúde física

Depois de perceber que a desigualdade tem uma origem histórica identificável, a pergunta seguinte foi inevitável: há alternativas a funcionar agora? Sociedades organizadas de outra forma, onde o controlo dos recursos e da herança não pertence automaticamente aos homens?

A resposta é sim e mais robusta do que esperava. 

Uma distinção importante antes de continuar: o que está documentado não são matriarcados no sentido de domínio feminino equivalente ao patriarcado. São sociedades matrilineares, onde a herança, a propriedade e a identidade de clã passam pela linha feminina. 

Os Mosuo na China, os Khasi e Garo em Meghalaya na Índia, os Minangkabau na Indonésia com cerca de sete milhões de pessoas. Em todas estas sociedades, as mulheres controlam a propriedade e a herança. Em todas, os homens continuam a dominar as assembleias políticas e a liderança religiosa. A distinção importa para sermos precisos.

O que a investigação encontrou de mais concreto foi o estudo de Lamarque et al. (2025), publicado no Social Science & Medicine com mais de quatro mil mulheres em Meghalaya. O mecanismo que faz diferença não é a proximidade com a família materna, nem o facto de se pertencer a uma cultura matrilinear de forma abstracta. 

É o controlo económico directo: ter casa própria. Mulheres com casa própria têm menos anemia, menos desnutrição, e os seus filhos têm o dobro da probabilidade de receber cuidados médicos quando adoecem. A estrutura impacta a saúde física. 

Todas estas sociedades estão sob pressão crescente. Os Mosuo estão a mudar rapidamente com o turismo e a integração na cultura Han. Os Minangkabau negoceiam continuamente a tensão entre o adat matrilinear e a lei islâmica. Os direitos tradicionais das mulheres Khasi estão a erodir. O que nos diz algo sobre o que acontece quando estas estruturas entram em contacto com sistemas que as não sustentam?

Lamarque et al. (2025), Social Science & Medicine; Lowes (2020), Daedalus; Mattison et al. (2021, 2022); Social Sciences;  Evolutionary Human Sciences
Nota: matrilinear não equivale à igualdade plena em nenhum caso documentado.

Há documentação de religiões que adoravam deusas? E como é que isso beneficiava a saúde?

HISTÓRIA

ARQUEOLOGIA · ESPIRITUALIDADE FEMININA

o sagrado feminino

Deusas que governavam. E o que aconteceu quando as suprimiram?

Esta pergunta começou como curiosidade do que conheço sobre a religião e a influência na saúde das pessoes e, tornou-se uma das que mais me inquietaram pela forma como está efetivamente documentada, bem como a validade dos mesmos... 

Ishtar na Mesopotâmia. Isis no Egito. Al-Lāt e Al-'Uzzā na Arábia antes do Islão. Atena e Deméter na Grécia. Eram divindades centrais nos panteões de civilizações que duraram milénios. 

Munshi (2025) documentou que a supressão das deusas árabes com o advento do Islão coincidiu directamente com a constrição da autoridade ritual e social das mulheres. A coincidência temporal é consistente. A causalidade directa não está demonstrada, mas a correlação é suficientemente robusta para não ser ignorada.

Depois há o caso de Çatalhöyük e a questão das figurinas femininas, que durante décadas alimentou a teoria de Marija Gimbutas, a hipótese de uma civilização neolítica pacífica centrada na Deusa Mãe. A arqueologia mais recente complicou esta leitura: muitas das figurinas são na verdade assexuadas, e as interpretações de Gimbutas foram contestadas por projectar ideais contemporâneos no passado com demasiada liberdade. A crítica ao seu trabalho também não foi sempre científica. Houve ataques pessoais que dizem mais sobre o ambiente académico do que sobre a qualidade da investigação. E a pergunta que ela levantou, por que dominam as figurinas femininas o registo neolítico, continua sem resposta satisfatória.

O que a psicologia contemporânea encontra é mais directo. O revival do culto à Deusa, os círculos de mulheres, as práticas somáticas centradas no feminino sagrado estão associados a empoderamento, integração do corpo e bem-estar subjectivo nas mulheres que os praticam. Cohen et al. (2025), com mais de mil mulheres em quatro países, encontraram que a espiritualidade usada de forma adaptativa, como recurso em momentos difíceis, é associada a maior resiliência. O que a investigação ainda não consegue separar é se o efeito é específico ao divino feminino ou genérico à comunidade, ao ritual e ao significado partilhado. Ambas as possibilidades são interessantes. E, ainda, o próprio conceito de resiliência é a capacidade de tolerar sofrimento... Deixa algo pesado no fundo da garganta. 

Munshi (2025); Arazoo (2019);  Yalman (2021), Vuković (2021); Carta (2022); crítica a Gimbutas; Nicolae (2022), Longman (2018);  espiritualidade feminina contemporânea
Nota: estudos qualitativos, sem grupo de controlo.

E surgiu uma pergunta que não estava no plano, mas que embalada no tema, continuei a fazer questões

Por que é que mandamos os homens para a guerra e não as mulheres?

PSICOLOGIA 

BIOLOGIA EVOLUTIVA · ANTROPOLOGIA · HISTÓRIA

Abandono dos homens

Porque enviamos os homens para morrer...

Sendo transparente, e sendo mãe de uma menina e de um menino, com o contexto sociopolítico, esta pergunta surge-me bastante. E claramente, não é suficiente que eu saiba que não sou a única a fazê-la. 

E quando perguntei isto, percebi que havia pelo menos quatro camadas de resposta que se sobrepõem e às vezes se contradizem. 

A biologia evolutiva tem uma resposta parcial. Smith et al. (2022), analisando 72 espécies de mamíferos sociais, encontraram que o padrão mais comum é a participação masculina no conflito intergrupal. A Male Warrior Hypothesis propõe que ao longo da nossa história evolutiva, os homens que venciam conflitos ganhavam acesso a recursos reprodutivos de formas que as mulheres não ganhavam simetricamente. Mas quando Muñoz-Reyes et al. (2023) testaram isto em laboratório com 541 participantes e incentivos reais, as mulheres também aumentaram agressão e cooperação em contextos de conflito. A diferença de sexo que a teoria previa foi muito mais pequena e dependente do contexto do que o modelo original sugeria, neste estudo. 

Ferguson (2021) no Current Anthropology argumenta que a guerra é relativamente recente na nossa espécie e que a socialização para a masculinidade militar varia muito entre culturas. A masculinidade não produz a guerra espontaneamente. É convocada pelo aparato de guerra quando este existe, e as recompensas sociais ao guerreiro, o prestígio, o estatuto, a pertença são suficientemente poderosos para que muitos homens aceitem o custo.

Achei este último ilógico...

O que mais me ficou desta investigação foi o paradoxo que Wojnicka (2023) nomeia ao analisar a guerra na Ucrânia: todos os homens de 18 a 60 anos foram proibidos de sair do país. O patriarcado não favorece os homens em guerra. E faz isso precisamente através das normas de masculinidade que transformam a disponibilidade para o combate numa prova de valor. Os homens que mais internalizaram a norma são os que menos conseguem recusar. As normas que já vimos serem custosas psicologicamente são as mesmas que os tornam descartáveis politicamente.

Um soco no estômago, não? 

Smith et al. (2022), Phil. Trans. Royal Society B; Ferguson (2021), Current Anthropology;  Muñoz-Reyes et al. (2023), Scientific Reports; Wojnicka (2023), NORMA

Há registo de mulheres em combate na história?

ARQUEOLOGIA

HISTÓRIA · FONTES ESCRITAS E GENÓMICA ANTIGA

batalha dos sexos?

Havia mulheres com espadas.

Quando comecei a ler sobre isto, fiquei genuinamente surpreendida com a quantidade de evidência disponível. A arqueologia genómica mudou tudo nesta área: já não dependemos de inferências sobre quem tinha armas. Através da análise do ADN é possível perceber quem eram as pessoas enterradas com armamento completo. 

Foi uma validação do que já sabemos.

Em Birka, Suécia, escavou-se em 1878 uma sepultura com duas espadas, escudo, lança, arco, flechas e peças de xadrez. Durante 140 anos, foi assumida como masculina porque estava rodeada de armas. Em 2017, a análise genómica publicada no American Journal of Physical Anthropology confirmou que o indivíduo era biologicamente feminino. As peças de xadrez sugerem alguém que pensava a guerra estrategicamente, não apenas que a executava. Esta sepultura foi assumida como masculina não porque havia evidência disso, mas porque ninguém questionou o pressuposto.

Na Arménia, entre 800 e 600 a.C., pelo menos três mulheres foram enterradas com sinais inequívocos de combate real: pontas de flecha embebidas nos tecidos, traumatismos cranianos com marcas de cura, lesões nas pélvis e tíbias. Provavelmente arqueiras a cavalo. Na Cítia eurasiana, entre os séculos VI e II a.C., identificaram-se 303 enterramentos de mulheres guerreiras com armamento completo. Os investigadores concluem que nas zonas de conflito frequente, provavelmente toda a população recebia treino militar, independentemente do sexo. Na Polónia da cultura Przeworsk, entre o século II a.C. e o século V d.C., há mais de 60 enterramentos femininos com equipamento militar, um padrão suficientemente consistente para ser sugestivo, mesmo que a presença de armas não prove automaticamente combate em vida.

E depois há a Finlândia, onde a sepultura de Suontaka revelou em 2021 algo que a investigação não esperava: a análise de ADN antigo encontrou uma possível anomalia cromossómica XXY. Uma pessoa que não se enquadrava nas categorias binárias que usamos para interpretar o passado, enterrada com armas e broches, profundamente respeitada pela comunidade. Este caso lembra que a realidade histórica pode ser mais complexa do que as nossas categorias conseguem conter.

A história escrita também tem os seus exemplos, embora com mais camadas de distorção a atravessar: Boudica, que liderou uma revolta britânica que quase expulsou as legiões romanas; Zenóbia de Palmira, que conquistou o Egito; Grace O'Malley, que controlou a pirataria irlandesa durante décadas sem nunca ser militarmente derrotada; Juana de Arc, que foi queimada viva, em parte, por usar vestes masculinas e ocupar um papel que "não lhe pertencia."

Jordan (2021) documenta o que aconteceu a este registo: durante décadas, enterramentos com armas eram automaticamente atribuídos a homens sem nenhum teste. As mulheres guerreiras foram invisíveis porque ninguém procurava por elas. Percy (2025), revisado no American Historical Review, argumenta que esta ocultação não foi acidental. Foi o resultado de interpretações activas que normalizaram a guerra como exclusivamente masculina, tanto nos textos originais como nas suas leituras posteriores. O que nos diz algo que quem conta a história, acrescenta o seu ponto.

Hedenstierna-Jonson et al. (2017), American Journal of Physical Anthropology; Fialko (2023), Sprawozdania Archeologiczne; Moilanen et al. (2021), European Journal of Archaeology; Jordan (2021); Percy (2025)
Nota: a distinção entre guerreiras profissionais e situações de emergência nem sempre é clara no registo arqueológico.

casal enconstado ao nascer do sol

Nunca estive a estudar o passado.

Estava a tentar perceber de onde vêm as normas que continuamos a carregar. E o que acontece quando acreditamos que essas normas são naturais, inevitáveis, da condição humana, quando afinal têm uma data, um contexto e alternativas que continuam a existir.

Há um dado que me "perturbou" de uma forma particular: a investigação de Napier et al. (2020), com 20.000 pessoas em 23 países, mostrou que negar a desigualdade de género está associada a maior bem-estar subjectivo nas mulheres, especialmente nas sociedades onde o sexismo é mais elevado. Acreditar que o sistema é justo alivia a ansiedade imediata. É um mecanismo de sobrevivência psicológica completamente compreensível, cujo custo é perpetuar exactamente aquilo de que nos protege. Este dado, apesar de paradoxal, aquietou pelo respeito de conhecer esta característica. 

A arqueologia, a antropologia e a história dão uma resposta a isto que é incómoda, mas necessária: houve sociedades com menos hierarquia de género. Houve deusas centrais nos panteões de civilizações duradouras. Houve mulheres com espadas enterradas com honra. Houve comunidades onde o cuidado e o combate não eram divididos por sexo. Nenhuma destas sociedades era um paraíso ou um modelo a copiar sem crítica. Mas a sua existência diz qualquer coisa importante: o que existe hoje não é a única forma possível de organizar a vida humana.

Para quem trabalha com pessoas, e para quem simplesmente vive, isto tem implicações que são difíceis de ignorar. As normas que internalizámos têm custos documentados na saúde física, na saúde mental, nas relações, no florescimento. Reconhecer que são históricas, que foram construídas, que tiveram alternativas, não é nostalgia. É o primeiro passo para poder questioná-las com um grau de liberdade que "sempre foi assim" nunca permitiria.

Espero que esta informação traga frutos para reflexões importantes. 

Um abraço 

Mafalda