Orientação sexual
É a direcção do desejo afectivo, romântico e/ou erótico em relação a outras pessoas.
A investigação distingue várias dimensões da orientação sexual que podem não coincidir na mesma pessoa: atracção, comportamento, identidade e fantasias. Uma pessoa pode ter uma orientação e nunca a ter expressa em comportamento.
A fluidez está documentada sobretudo na identidade, ou seja, na forma como a pessoa se descreve a si própria. Um estudo com 22.673 pessoas no Reino Unido (Hu et al., 2023, Demography) mostrou que 6,6% mudaram de identidade sexual entre dois momentos de avaliação. Esta fluidez é mais comum entre mulheres e identidades plurissexuais. Uma nota importante: fluidez na identidade não implica que a orientação seja uma escolha. O que muda é frequentemente a forma como a pessoa nomeia a sua experiência, não necessariamente a experiência em si.
Identidade de género
É o sentido interno e subjectivo de ser homem, mulher, ambos, nenhum ou outra coisa.
É uma experiência interior, não um papel social nem uma orientação sexual. Hyde et al. (2019, American Psychologist, 760 citações) são explícitos nesta distinção: identidade de género é quem se é, distinto do que se faz (papéis) e por quem se sente atracção (orientação).
A fluidez nesta dimensão também está documentada: um estudo longitudinal com mais de 900 jovens (deMayo et al., 2025) verificou nesta amostra que quase 12% dos jovens inicialmente cisgénero apresentaram uma identidade diferente na avaliação posterior. Em adolescentes transgénero e não-binários, 28,9% mudaram de identidade ao longo de 1,5 anos.
A investigação ainda não consegue distinguir com precisão se isto reflecte exploração de linguagem, maior acesso a conceitos ou mudança genuína na experiência interior. Por isso e apesar de estar documentada esta investigação, não é de todo significativa para determinar a fluidez, mas apenas observa que ela está presente.
Papéis e normas de género
São os comportamentos, atitudes e expectativas que uma cultura atribui a homens e mulheres com base no sexo, é uma dimensão social.
Cislaghi et al. (2019, Sociology of Health & Illness, 359 citações) definem as normas de género como crenças instaladas nas mentes das pessoas e incorporadas nas instituições, que moldam profundamente o que é esperado e o que é punido. Incluem quem cuida das crianças, quem chora, quem ocupa espaço público, quem combate. São aprendidos, variam entre culturas e ao longo do tempo e podem ser contrariados, com custo social, como veremos na pergunta seguinte.
O que o cérebro diz sobre tudo isto
A hipótese do "cérebro em mosaico", desenvolvida por Daphna Joel e colaboradores, mostra que os cérebros humanos não se organizam em dois tipos distintos. São compostos por combinações únicas de características que variam ao longo de um contínuo.
Uma meta-análise de três décadas de neuroimagem (Eliot et al., 2020) concluiu que o sexo explica cerca de 1% da variância total na estrutura cerebral. Um por cento...
A biologia não determina uma divisão binária rígida e isso é relevante para perceber que a variação humana em género, orientação e papéis não é uma anomalia, mas uma característica da nossa espécie humana.
O que estes três construtos têm em comum é que são independentes entre si. Uma mulher com identidade de género feminina pode ter qualquer orientação sexual e rejeitar completamente os papéis de género tradicionais. Um homem gay pode conformar-se inteiramente com normas de masculinidade. Uma pessoa não-binária pode ter qualquer orientação. Fausto-Sterling (2019, Journal of Sex Research, 178 citações) argumenta que sexo, género e orientação estão entrelaçados, mas precisamente por isso não devem ser colapsados numa única dimensão, porque cada um tem o seu desenvolvimento e as suas implicações específicas.
Eliot et al. (2020), Neuroscience & Biobehavioral Reviews; Hu et al. (2023) · Demography; Hyde et al. (2019) American Psychologist; Cislaghi et al. (2019) Sociology of Health & Illness; Fausto-Sterling (2019) Journal of Sex Research; deMayo et al. (2025)
Nota: a maioria dos estudos de fluidez usa amostras de conveniência ou clínicas. Os dados de população geral são mais limitados.