Há relações em que nos sentimos livres para ser quem somos, onde um erro não nos define, onde dizer "estou mal" não é um risco. Este amor é amplamente romantizado e, por vezes, temos a alegria de o experimentar. É o que molda o nosso apego, esse mero momento. Ansiamos por ele, em esperança de o viver. Por esse amor, sacrificamos tanto.
E há outras ligações em que também experienciamos uma aprendizagem mais perniciosa, a de medir cada palavra, a de esconder o que sentimos, a não ocupar demasiado, a esconder-mo-nos para não ativar a ira, o desdém. A diferença entre umas e outras raramente é óbvia à primeira vista. Está nos detalhes, no que acontece nos momentos pequenos,quando a guarda baixa.
E numa terceira, insana, perspectiva, onde ambas possam coexistir. Em constante agonia. De não termos a certeza de que devamos sair, nem a certeza de que devamos ficar. Em permanente esperança de os ventos trazerem de volta aqueles momentos em que nos sentimos vistos e amados em pleno.
Precisamos de observar o custo desse lugar. E, por vezes, perceber em nós:
Quando alguém admite fragilidade, o que acontece a seguir?
Imagina que estás numa reunião e admites ao teu chefe que não tens a certeza de como resolver um problema ou que não acreditas na sua abordagem. Numa equipa com cultura de segurança psicológica, nessa admissão abre-se uma conversa honesta, alguém sugere uma abordagem, partilham-se ideias, resolve-se o assunto em conjunto. Numa equipa onde a vulnerabilidade é punida, aquela frase pode ser usada semanas depois para questionar a tua competência ou o teu caráter. De súbito, um voto de confiança é trocado por uma arma de arremesso diretamente a ti.
O mesmo princípio existe nas relações amorosas. Dizer "esta situação deixou-me inseguro" pode ser recebido com atenção genuína ou pode transformar-se numa arma em discussões futuras: "Tu és inseguro; não saberias o que fazer." Quando isso acontece repetidamente, a pessoa aprende a calar-se e é precisamente aí que a comunicação profunda deixa de existir.
EXEMPLO DO DIA A DIA
Uma amiga confidencia que está a sentir-se sobrecarregada e a duvidar das suas escolhas. O que acontece a seguir importa mais do que aquilo que ela disse: se a resposta for "toda a gente se sente assim, segue em frente", a conversa fecha. Se for "pareces estar com muito em que pensar, o que está a pesar-te mais?", a conversa abre e a amizade aprofunda-se.
Sem segurança para a fragilidade, não há comunicação profunda. Ficamos apenas nas superfícies.
Quando algo corre mal, procuramos entender ou procuramos culpados?
Toda a gente comete erros. Esquecemos compromissos, tomamos decisões que em retrospectiva eram erradas, reagimos de formas que não nos orgulham. A questão não é se os erros acontecem; é o que fazemos com eles quando acontecem.
Numa relação saudável, amorosa, respeituosa, o erro é tratado como informação. "O que correu mal aqui?" é uma pergunta de processo, não de julgamento. Há diferença entre "falhaste" e "esta parte do plano não funcionou. Como podemos lidar com isto?" A primeira frase ataca a identidade. A segunda ataca o problema, e apoiamos na solução.
EXEMPLO DO DIA A DIA
Um casal planeia um jantar importante e um deles esquece-se de confirmar a reserva. A diferença entre "És irresponsável, já não me surpreende. Nem sei por que não o fiz eu." e "Aconteceu. Tenho pena, gostaria de seguir o teu plano. O que te apetece agora?" pode parecer pequena naquele momento, mas ao longo de anos define completamente o clima emocional da relação.
Empatia cresce onde há margem para falhar. Onde o erro destrói, as pessoas deixam de arriscar e de crescer.
Quando alguém diz "senti-me mal", a resposta é validar ou corrigir?
Há uma tendência curiosa em muitas conversas difíceis: quando alguém expressa uma emoção, a outra pessoa sente o impulso de a corrigir. "Não tens razão para te sentires assim." "Isso não faz sentido." "Eu também me sinto mal e não digo nada." O problema com estas respostas é que tratam a emoção como um argumento lógico a refutar e as emoções não funcionam dessa forma. Como se alterando a perspectiva da pessoa, podemos fazê-la sentir melhor. Nem o melhor terapeuta altera factos e percepções com uma conversa. Esse é trabalho da pessoa, se ela quiser e se as suas emoções forem acolhidas.
Validar não significa concordar com a interpretação dos factos. Significa reconhecer que aquela experiência emocional existiu e que faz sentido dentro do mundo interior dessa pessoa. "Percebo que te tenhas sentido excluído" pode coexistir perfeitamente com "eu não tive essa intenção", mas a ordem importa muito.
EXEMPLO DO DIA A DIA
Uma colega diz que se sentiu ignorada numa reunião quando a sua ideia não foi comentada. A resposta "mas toda a gente estava a falar, não foi pessoal" pode ser factualmente correcta e ainda assim completamente inútil. "Faz sentido; pode ser muito frustrante quando parece que o que disseste não chegou às pessoas, o que te deixaria mais confortável da próxima vez?" é uma resposta diferente. Não porque ignore os factos, mas porque os adia em favor da pessoa.
Empatia não é concordância. É reconhecimento. São coisas muito diferentes e só uma delas cria ligação.
Existe um mito persistente de que as relações saudáveis são aquelas onde há pouco conflito. Na prática, o que distingue uma relação saudável não é a ausência de tensão, é o que acontece antes, durante e depois da tensão. O conflito em si é quase inevitável entre pessoas que passam tempo juntas e têm perspectivas próprias. Muitos casais com relações longas que aprendem a respeitar-se, têm o segredo de saber discutir e garantir reparação.
A reparação não precisa de ser elaborada. Às vezes é apenas um "estou bem connosco?" depois de uma conversa difícil. Ou um gesto de afecto que reestabelece a ligação. O que é determinante é que o vínculo não fique suspenso indefinidamente, que nenhuma das partes fique a adivinhar se a relação continua a existir.
EXEMPLO DO DIA A DIA
Dois irmãos discutem sobre como gerir a decisão de escolha de universidade do mais velho, com a mãe doente. A conversa fica tensa; o tom de voz sobe; há coisas ditas que magoam. No final, um deles manda uma mensagem: "Não gosto quando ficamos assim, mas podemos falar com calma amanhã?" Aquela frase é já a reparação a acontecer. Não resolve o assunto, mas mantém a ponte entre as duas pessoas.
Comunicar bem não significa evitar conflito. Significa conseguir sobreviver a ele — e continuar.
Ambos conseguem influenciar a conversa?
Nas relações mais desequilibradas, há sempre alguém que fala e alguém que gere. Uma das pessoas define o tom, o ritmo, os temas e a outra vai adaptando-se, defendendo-se, tentando não dizer a coisa errada. Quando isto é consistente, não é simplesmente um estilo de comunicação diferente. É uma assimetria de poder.
A simetria de voz não exige que ambos falem exactamente ao mesmo tempo ou que tenham exactamente as mesmas opiniões. Exige que ambos se sintam seguros de dizer o que pensam, sem medo de consequências desproporcionadas. Que possam discordar. Que a perspectiva de cada um tenha peso real na conversa.
EXEMPLO DO DIA A DIA
Numa relação amorosa, uma das pessoas tem opiniões muito fortes e explícitas sobre as férias e finanças. Tal como expressa de forma bem clara, o que acha sobre quem discorda dela. A outra vai cedendo porque "não vale a pena discutir por causa disto". Com o tempo, a segunda pessoa deixa de ter preferências expressas. Não porque não as tenha, mas porque aprendeu que não chegam a lugar nenhum. Esse silêncio gradual é um dos sinais mais claros de assimetria relacional.
Empatia exige mutualidade. Não pode existir genuinamente quando uma das pessoas nunca consegue influenciar a direcção da conversa.
Nenhum destes cinco indicadores funciona isolado. Uma relação pode ter espaço para vulnerabilidade, mas nenhuma simetria de voz. Pode reparar bem os conflitos, mas contestar sistematicamente as emoções. O que estamos a avaliar é um padrão, a textura geral de como duas pessoas estão juntas ao longo do tempo.
Uma relação segura não é aquela onde tudo corre sempre bem.
É aquela onde:
Reconhecer estes padrões, em nós e nas nossas relações, é o primeiro passo para os mudar. Não de uma vez, não de forma perfeita, mas de forma consistente. E essa consistência, ao longo do tempo, é o que constrói confiança.