A saúde psicológica também se vive nas relações próximas


A saúde psicológica também se vive nas relações próximas

Há conversas em que pensamos várias vezes antes conseguir dizer seja o que for. Pensamos seja por receio de magoar, porque na nossa história já nos explicámos tantas vezes e não nos sentimos compreendidos ou porque estejamos cansados de discussões que parecem não ter fim e nas quais ficamos nos mesmo, exacto lugar. 

Quando estas situações se repetem, vale a pena olhar para o que acontece entre nós. As relações familiares, amizades, e parceiros fazem parte da nossa vida emocional. Podem proporcionar apoio, pertença e oportunidades de crescimento. Também podem envolver conflitos, exigências e experiências de sofrimento. 

A forma como vivemos as relações próximas está associada à nossa saúde psicológica. Influencia e é influenciada por elas. 

A saúde psicológica envolve a capacidade de reconhecer emoções, lidar com dificuldades, desenvolver recursos pessoais, estabelecer relações significativas e participar na vida de acordo com as nossas possibilidades e valores. 

Estas capacidades desenvolvem-se numa interacção contínua entre caracterìsticas individuais, experiências de vida e condições sociais.  Numa revisão sistemática de 51 estudos, Santini e colaboradores (2915) encontraram associações consistentes entre o apoio emocional percebido, o apoio prático e menores níveis de depressão. Os resultados reforçam a importância das relações sociais, embora a natureza dos estudos não permita estabelecer todas as relações de causalidade. 

Isto convida-nos a observar a qualidade do apoio que encontramos. Quando atravessamos uma dificuldades, com quem podemos contar? E como somos recebidos quando precisamos de ajuda? 

As relações também nos permitem crescer

A teoria da vinculação, desenvolvida por John Bowlby, descreve a importância das relações de vinculação na procura de proteção e na exploração do mundo. Feeney e Collin’s (2015) aprofundaram esta perspectiva no modelo teórico Thriving through Relationships. As autoras propõem duas funções relevantes do apoio nas relações próximas: ajudar-nos a enfrentar situações adversas e apoiar a exploração de oportunidades de crescimento. 

Podemos reconhecer estas funções em acontecimentos quotidianos. Quando alguém nos escuta num momento difícil, oferece ajuda prática ou permanece disponível enquanto procuramos resolver um problema. E também quando alguém respeita uma decisão nossa, apoia uma ambição pessoal ou aceita que tenhamos interesses diferentes dos seus. 

A qualidade do apoio envolve, por isso, tanto a disponibilidade perante as dificuldades, como o respeito pelo desenvolvimento e pela autonomia de cada pessoa. 

O que acontece quando uma relação se torna uma fonte persistente de sofrimento? 

Nem todas as dificuldades nas relações têm o mesmo significado. Podemos viver desacordos, períodos de afastamento ou dificuldades em compreender as necessidades da outra pessoa. 

Nestas situações, importa perceber se existe disponibilidade para escutar, reconhecer o impacto dos próprios comportamentos e procurar soluções que respeitem os envolvidos. Também existem relações marcadas por críticas humilhantes, ameaças, intimidação, vigilância ou controlo. 

Carmen Knudson-Martin (2024) através da Terapia Relacional Socioemocional, propõe compreender as experiências emocionais considerando as relações de poder, os processos interpessoais e o contexto sociocultural em que ocorrem. Esta perspectiva ajuda-nos a fazer perguntas importantes. 

Quem pode expressar desagrado? 

Quem toma decisões? 

O que acontece quando alguém discorda? 

Podemos estabelecer limites? 

Há algo que escuto com frequência, uma aversão a regras, como se andássemos fartos de seguir normas. Como se isso fosse sentido como uma restrição à nossa capacidade de influenciar o ambiente. Não será como jogar um jogo? Em que ambos tem iguais oportunidades de ganhar? 

A investigação também exige atenção às situações de violência psicológica. Numa revisão sistemática de 194 estudos, Dokkedahl e colaboradores (2022) identificaram associações entre violência psicológica nas relações íntimas e sintomas de depressão, ansiedade e perturbação pós-traumático. A certeza global da evidência foi considerada baixa, devido a limitações metodológicas. 

Perante ameaças, intimidação ou controlo coercivo, a prioridade deve ser compreender as necessidades de proteção e procurar apoio especializado. 

A saude psicológica não existe isolada 

A saúde psicológica influencia a forma como pensamos, sentimos, relacionamos e respondemos ao mundo e aos acontecimentos de vida. Está presente nas nossas decisões, na capacidade de lidar com dificuldades, na forma como procuramos apoio e na possibilidade de viver de acordo com aquilo que valorizamos mais.

Oferece uma lente efectiva sobre o que acontece em nós e nas nossas relações. No entanto, não se vê de fora. É uma dimensão que interfere com tudo, que é influenciada e que não se observa de fora sem ser pelos sinais de comportamento, que observamos. Cuidar da saúde psicológica envolve compreender as nossas necessidades, reconhecer os fatores que nos afetam e desenvolver condições que favoreçam o bem-estar. Mas como podemos perceber se estamos psicologicamente bem, se não se vê? O que podemos fazer para prevenir dificuldades ou desafios? E que sinais merecem realmente a nossa atenção?

O que é saúde psicológica?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2026 define a saúde mental como um estado de bem-estar que permite às pessoas lidar com as dificuldades da vida, desenvolver as suas capacidades, aprender, trabalhar e participar na comunidade.

A saúde psicológica inclui dimensões emocionais, cognitivas, comportamentais e relacionais.

Na vida quotidiana, pode expressar-se através da capacidade de:

  • Reconhecer e compreender emoções, incluindo tristeza, medo, frustração e alegria
  • Adaptar-se ás dificuldades, mobilizando recursos pessoais e procurando apoio quando necessário
  • Construir relações significativas, nas quais exista espaço para a autonomia, a expressão pessoal e o apoio mútuo.
  • Tomar decisões, considerando necessidades, consequências e valores pessoais
  • Recuperar de experiências exigentes, respeitando os próprios limites e circunstâncias,
  • Encontrar significado e participação nas diferentes áreas de vida.

Estas capacidades variam ao longo do tempo, uma pessoa pode atravessar períodos díficeis, sentir sofrimento emocional e continuar a apresentar recursos importantes de saúde psicológica.

Também é possível manter um funcionamento aparentemente adequado enquanto se vive um sofrimento significativo. Por isso, compreender a saúde psicológica exige olhar para a experiência da pessoa e para o contexto em que vive.

A forma como nos sentimos está intimamente ligada ao funcionamento do nosso organismo. António Damásio (2020), em Sentir e Saber, desenvolve uma perspectiva neurobiológica na qual os sentimentos desempenham um papel central na experiência consciente. Está relação ajuda-nos a compreender a importância de prestar atenção ao que acontece no corpo e à forma como vivemos as nossas emoções. As alterações do sono, da energia ou do apetite podem acompanhar períodos de sofrimento psicológico, embora possam ter outras causas que importa avaliar.

O que influencia a saúde psicológica?

A saúde psicológica desenvolve-se na interacção entre factores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. A história de vida, as experiências relacionais, as condições de trabalho, a estabilidade económica, a saúde física, a exposição à violência e as oportunidades de participação social podem influenciar o bem-estar.

A OMS (2026) identifica a pobreza, a desigualdade, a violência e a privação ambiental como fatores que podem aumentar a vulnerabilidade a dificuldades de saúde mental. As relações sociais positivas, os ambientes seguros e o acesso a recursos adequados constituem fatores de proteção.

Isto significa que cuidar da saúde psicológica implica acções individuais, mas também condições familiares, comunitárias e sociais que permitam viver com segurança e dignidade.

“Toda a gente quer ser amado, sentir-se valorizado, ouvido e respeitado.” Como mencionado por Knudson Martin, no seu livro ela centra o bem-estar da pessoa em interacções ativas entre o contexto sócio-económico, o poder de alterar as suas condições de vida e a emoção. Nelas ela observa que a mudança ocorre como uma nova experiência baseada em equidade e em responsabilidade relacional partilhada. Para Knudson-Martin a responsabilidade partilhada de um ao outro como um contrato humano ético,  está diretamente relacionado com a saúde e cura.

Numa perspectiva crítica das desigualdades sociais, bell hooks (1984/2020) analisa como as relações entre género, classe social e raça influenciam as experiências e oportunidades das pessoas.

A investigação sobre os determinantes sociais da saúde mental reforça a importância desta dimensão Kirkbride e colaboradores (2024) identificam a pobreza, a discriminação, a insegurança habitacional e outras condições sociais desfavoráveis como fatores associados a maior vulnerabilidade a problemas de saude mental. Cuidar da saúde psicológica implica, por isso, considerar tanto os recursos pessoais como as condições de vida que podem favorecer ou comprometer o bem estar.

As nossas necessidades psicológicas também se modificam ao longo da vida. McGoldrick, Garcia Preto e Carter (2016) na abordagem do ciclo de vida individual e familiar, descrevem o desenvolvimento considerando as transições pessoais, familiares e sociais. A chegada de um filho, uma separação, o envelhecimento, a necessidade de cuidar de familiares ou outras mudanças significativas podem exigir adaptações nas rotinas, nos papéis e nas relações.

Reconhecer estas transições permite compreender melhor as exigências de cada período e identificar os recursos necessários para lhes responder.

Como podemos cuidar da saúde psicológica nas nossas relações? 

Podemos começar por prestar atenção à forma como participamos nas relações e às condições em que estas acontecem: 

Reconhecer necessidades: O que estou a sentir? Do que preciso? Que acontecimentos ou interações parecem contribuir para o meu estado emocional? 

Expressar necessidades com clareza: Quando existem condições para uma conversa respeitosa, podemos explicar o que nos preocupa e formular pedidos concretos, dando espaço à resposta da outra pessoa. 

Escutar e procurar compreender: As pessoas podem viver o mesmo acontecimento de formas diferentes. A curiosidade sobre a experiência do outro pode ajudar a identificar necessidades e dificuldades que ainda não foram compreendidas. 

Respeitar autonomia. Estar próximo de alguém envolve aceitar diferenças, escolhas e limites, sem as minimizar. O cuidado pode coexistir com a discordância. 

Preservar relação e recursos fora do casal ou da família. Amizades, atividades significativas e outras formas de participação social podem ampliar as oportunidades de apoio e pertença. 

Estas possibilidades devem ser adaptadas à situação de cada pessoa. Quando existe medo, violência ou coerção, é importante procurar orientação especializada antes de tentar abordar o problema diretamente com quem exerce esses comportamentos. 

Por vezes, apercebemo-nos de que alguma coisa mudou na forma como nos sentimos ou nos relacionamos com o mundo. Podemos começar a evitar encontros, sentir ansiedade perante determinadas conversas, perder interesse em atividades habituais ou apresentar alterações persistentes de sono, da energia e do humor. 

Estas possibilidades devem sempre ser adaptadas à situação de cada pessoa, quando existe medo, violência ou coerção, é importante procurar orientação especializada antes de tentar abordar o problema diretamente com quem mantém estes comportamentos. Nem todos os medos são trauma, há certos medos que nos sinalizam algo que, de facto, não está a correr bem. 


Que sinais de sofrimento psicológico merecem atenção? 

Embora enquanto terapeuta diria que qualquer sinal de sofrimento, compreendo que nem sempre seja visível ou possível iniciar apoio especializado. 

Assim, quando nos apercebemos de que alguma coisa mudou na forma como nos sentimos ou nos relacionamos. Podemos começar a evitar ir a encontros que antes nos davam prazer, sentir ansiedade perante determinadas conversas, perder interesse em atividades habituais ou apresentar alterações persistentes do sono, da energia e do humor. 

Também podemos notar que estamos mais irritáveis, preocupados ou isolados. Estes sinais podem surgir por diferentes razões e merecem ser compreendidas no contexto de vida de cada pessoa. È importante considerar há quanto tempo nos sentimos assim, a intensidade do que sentimos, evolução destes sentimentos ao longo do tempo e o impacto na forma como levamos o nosso dia a dia. Quando alguém próximo apresenta alterações significativas, uma conversa cuidadosa pode ajudar: 

Tenho reparado que tens estado mais afastado. Como te tens sentido? 

Escutar sem antecipar explicações e oferecer apoio concreto pode facilitar a procura de ajuda. 

Quando procurar apoio profissional? 

Quando o sofrimento persiste, intensifica ou começa a interferir com o descanso, o trabalho, as relações ou outras áreas importantes da vida, uma avaliação psicológica pode apoiar a compreender o que está a acontecer. E, se for altura, iniciar um processo de mudança. A intervenção pode envolver o desenvolvimento de competências pessoais, a compreensão das experiências relacionais, a identificação de recursos ou a avaliação de outras necessidades e cuidados. Em situações de violência ou controlo coercivo, deve ser procurado apoio especializado, com prioridade à segurança e à autonomia da pessoa. 

Em Portugal, o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica está disponível gratuitamente através do 800202148 ou por SMS 3060. 

Se existirem pensamentos suicidas ou de auto-agressão, está disponível a LInha Nacional de Prevenção do Suicídio, através do 1411. Perante perigo imediato, contacte o 112. 

As relações podem ser um canto de abrigo, que promove saúde mas também, de turbulência e devemos cuidar de manter a linha de suporte aberta. 

Cuidar da saúde psicológica é um processo contínuo

A nossa saúde psicológica acompanha as mudanças que atravessamos. Há momentos em que dispomos de recursos suficientes para responder às dificuldades, noutros podemos precisar de descanso, apoio, novas competências ou mudanças nas condições em que vivemos.

Reconhecer estas necessidades permite-nos agir mais cedo e procurar respostas adequadas.

As condições em que estou a viver permitem-me cuidar da minha saúde psicológica? E o que preciso de preservar, procurar ou modificar para a proteger?

Um abraço 

Escrito por Ana Mafalda Ferreira 

Psicóloga clínica, Terapeuta familiar e de casal, fundadora da ATTUNEA 

Escrevo sobre relações, intimidade e interdependência. 

www.attunea.pt 

Suporte de IA na pesquisa de artigos relevantes 

Referências:

Damásio, A. (2020) Sentir & Saber: A caminho da consciência. Temas e Debates.

Johnson, S. M. (2019) Attachment theory in practice: Emotionally focused therapy (EFT) with individuals, couples, and families. Guildford Press.

Dokkedahl, S.B., Kirubakaran, R., Bech-Hansen, D., Kristensen, T.R., & Elklit, A. (2022). The psychological subtype of intimate partner violence and its effect on mental health: A systematic review with meta-analysis. Systematic Reviews, 11, article 162. Https://doi.org/10.1186/s13643-022-02025-z

Johnson, S. M. (2019) Attachment theory in practice: Emotionally focused therapy (EFT) with individuals, couples, and families. Guildford Press.

Feeney, B.C. & Collins, N.L. (2015). Thriving through relationships. Current Opinion in Psychology, 1, 22-28.

Kirkbride, J.B., et al (2024). The social determinants of mental health and disorder: Evidence, prevention and recommendations. World Psychiatry, 23(1), 58-90.

Knudson-Martin, C. (2024). A step-by-step guide to socio-emotional relationship therapy: A socially responsible approach to clinical practice. Routledge.

McGoldrick, M., Garcia Preto, N.A., & Carter, B. (Eds.). (2016). The expanding family life cycle: Individual, family and social perspectives (5ªed.). Pearson.

World Health Organization. (2026). Mental Health.

Santini, Z. I., Koyanagi, A., Tyroyolas, S., Mason, C. & Haro, J.M. (2015). The association between social relationships and depression: A systematic review: Journal of Affective Disorders, 175, 53-65.