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Queres começar o ano com o objectivo de melhorar a qualidade da tua relação? Responsividade emocional

  • Ana Mafalda Ferreira
  • 4 de jan.
  • 7 min de leitura

O que é, o que não é, como se manifesta e quais os seus custos relacionais

(Uma leitura baseada na Emotionally Focused Therapy – EFT de Sue Johnson)


Grupo de jovens a saltar uma cerca no prado


Na Emotionally Focused Therapy (EFT), desenvolvida por Sue Johnson, a responsividade emocional refere-se à capacidade de uma pessoa reconhecer, acolher e responder de forma significativa às necessidades emocionais do outro, sobretudo quando esse outro se encontra vulnerável.

Não se trata de uma competência de comunicação superficial. Na EFT, a responsividade é entendida como um comportamento central de vinculação, através do qual se transmite uma mensagem implícita essencial “Estou disponível para ti. Vejo-te. Importas para mim.”

A investigação em vinculação adulta demonstra que a sensação de segurança numa relação depende menos da ausência de conflito e mais da forma como os parceiros respondem emocionalmente um ao outro nos momentos críticos.


O que não é responsividade emocional

Um dos erros mais frequentes é confundir responsividade com boas intenções ou comportamentos socialmente adequados. Na perspetiva da EFT, não é responsividade emocional:

- Dar conselhos imediatos quando o outro expressa dor

- Resolver o problema sem atender à emoção

- Defender-se ou justificar-se automaticamente

- Minimizar (“não é assim tão grave”)

- Racionalizar sentimentos (“isso é só ansiedade”)

- Mudar de assunto para evitar desconforto

- Concordar apenas para terminar o conflito

- Silêncio prolongado perante emoção

- Respostas defensivas ou críticas

- Distanciamento físico ou emocional

- Ironia ou desvalorização

- Fuga sistemática a conversas emocionais

- Escalada lógica quando o outro fala de sentimentos

Estes comportamentos podem ser bem-intencionados, mas falham na função de segurança emocional. Para o sistema de vinculação, a mensagem recebida é: “Não és emocionalmente alcançável neste momento.”


Sinais de responsividade emocional

A responsividade manifesta-se em três dimensões centrais (modelo A.R.E. da EFT):

Acessibilidade

- Estar emocionalmente presente

- Contacto visual, postura aberta

- Respostas que indicam escuta real (“estou a acompanhar-te”)

Responsividade

- Reconhecer a emoção do outro

- Validar a experiência interna

- Mostrar que o impacto foi recebido

Envolvimento


Casal a abraçar-se

- Demonstração explícita de cuidado

- Disponibilidade para estar com a emoção

- Expressões de proximidade e ligação

Exemplos:

“Consigo perceber como isto te fez sentir.”

“Isso parece ter sido muito difícil para ti.”

“Estou aqui contigo, não estás sozinho/a.”




O benefício :

Quando a responsividade é consistente ao longo do tempo, os efeitos são cumulativos e estruturantes: aumento da segurança de vinculação, maior regulação emocional individual, redução da reatividade fisiológica ao conflito, capacidade acrescida de reparação após ruturas, aumento da intimidade emocional e sexual, maior confiança na relação como base segura.

A investigação em EFT demonstra que casais que desenvolvem padrões estáveis de responsividade apresentam níveis mais elevados de satisfação relacional e estabilidade a longo prazo.


O custo:

Quando a responsividade falha de forma repetida ou crónica, o impacto é profundo, mesmo que silencioso: ativação contínua do sistema de ameaça, aumento de padrões ansiosos (protesto, exigência), aumento de padrões evitantes (fecho, afastamento), sensação de solidão dentro da relação, ciclos negativos de interação crónicos, diminuição da intimidade e da confiança

Com o tempo, a ausência de responsividade leva muitos casais a concluir, de forma errada, que “não são compatíveis”, quando o problema central é a insegurança emocional não reparada.

A EFT é clara num aspeto fundamental: ninguém consegue ser responsivo quando está emocionalmente inundado. Medo, vergonha, trauma relacional ou experiências precoces de vinculação insegura reduzem o acesso ao sistema de cuidado. Por isso, a responsividade não melhora por esforço voluntário, mas através de um aumento da segurança relacional, redução da ameaça percebida, reorganização dos ciclos de interação.



Porque é tão difícil sermos emocionalmente responsivos hoje em dia?


Este ponto é central e não é individual. A dificuldade crescente em responder emocionalmente não resulta de falta de maturidade, empatia ou vontade, mas de um contexto relacional e neurofisiológico adverso, amplamente descrito na investigação contemporânea sobre stress, vinculação e relações íntimas.

Quadro que diz que “hoje foi cancelado”.

Atualmente, a maioria das pessoas vive em estado de ativação prolongada de instabilidade económica, pressão laboral contínua, múltiplos papéis simultâneos (trabalho, parentalidade, cuidado), ausência de pausas reais de recuperação.


Do ponto de vista neurobiológico, isto observa-se em hiperativação do sistema simpático, redução da capacidade de mentalização, menor acesso ao sistema de cuidado.


Responsividade exige disponibilidade interna. O sistema nervoso quando se encontra em modo de sobrevivência prioriza autoproteção, não ligação. Mas a questão é, nós vivemos numa cultura que valoriza desempenho em vez de presença emocional, tudo para ontem, o mais rápido possível e da melhor forma. Premeia resolução rápida, controlo emocional, comunicação “correta”.

Isto gera um paradoxo, as pessoas sabem falar sobre emoções, mas não conseguem estar nelas. Onde repetidamente se observa, respostas cognitivas a pedidos emocionais, validações formais sem envolvimento, ou empatia técnica, mas não experiencial. A responsividade não é saber o que dizer, mas arriscar estar emocionalmente presente.


A evidência é clara: a atenção relacional está mais fragmentada do que nunca. Existem interrupções constantes (telemóvel, notificações), o que influencia ativamente a presença física versus disponibilidade e presença emocional. Observam-se mais conversas emocionais adiadas, fechadas abruptamente ou evitadas. Para o sistema de vinculação, isto é vivido como imprevisibilidade, inacessibilidade,inconsistência. A ausência de micro-respostas repetidas é suficiente para gerar insegurança, mesmo sem conflito explícito.


Em contextos de maior exigência externa, os padrões de vinculação inseguros tornam-se mais visíveis: pessoas com organização evitante retraem-se mais rapidamente. Pessoas com organização ansiosa intensificam protestos emocionais. Ambos interpretam a reação do outro como confirmação da ameaça.


Na EFT, isto explica porque casais funcionais entram subitamente em ciclos rígidos, sem “grandes eventos” aparentes. O problema não é o presente, mas o passado relacional ativado no presente.

Um fenómeno clínico cada vez mais frequente é o medo de errar emocionalmente.

As pessoas evitam responder porque receiam dizer “a coisa errada”, e serem julgados por isso enquanto pessoas; não querem piorar a situação, e não sabem o que fazer; sentem-se avaliadas, o que está certo e o que está errado; o que remete para o medo de falhar. Tudo isto em conjunto leva a congelamento,silêncio, afastamento emocional. Para o parceiro, o impacto é idêntico ao abandono, mesmo quando a intenção é proteção.

O discurso contemporâneo sobre autonomia, limites e auto regulação, apesar de importante, tem sido frequentemente mal integrado nas relações íntimas.


Observa-se:

• validação excessiva do afastamento,

• patologização da dependência saudável,

• dificuldade em pedir ou oferecer apoio.


Na EFT, isto entra em choque direto com a evidência científica:


Adultos emocionalmente saudáveis precisam de ligação segura.

Autonomia não substitui vinculação.


Pessoas no metro ou autocarro.

O efeito cumulativo: menos recursos, mais exigência relacional

As relações íntimas tornaram-se, paradoxalmente, o principal espaço de regulação emocional, num mundo com menos comunidade, menos suporte informal,menos estabilidade externa. Pede-se às relações que façam mais, com menos recursos internos disponíveis. Isto aumenta a probabilidade de falhas de responsividade, mesmo em relações com afeto genuíno.


A dificuldade em ser emocionalmente responsivo hoje não é sinal de desamor, imaturidade ou egoísmo.É um sinal de sobrecarga relacional, cultural, neurológica e emocional.


“Quando preciso de ti emocionalmente, consigo chegar até ti?”

A resposta a esta pergunta é um dos melhores indicadores da qualidade da vinculação numa relação adulta.

A responsividade emocional é o mecanismo central através do qual se constrói (ou se perde) segurança numa relação.


O que fazer com esta informação sobre responsividade emocional?


Mulher a subir uma escadaria, degrau a degrau

Contrariar estes ciclos não é uma questão de força de vontade, maturidade ou boa comunicação. Na lógica da Emotionally Focused Therapy (EFT), desenvolvida por Sue Johnson, os ciclos mantêm-se porque regulam a ameaça, não porque as pessoas escolhem conscientemente afastar-se.


A intervenção eficaz atua em três níveis complementares: conhecimento do ciclo, regulação emocional e criação de novas respostas de vinculação.


  1. O primeiro passo é retirar o foco do conteúdo do conflito e colocá-lo no padrão relacional.

    Criar uma perspectiva de narrador do que se está a passar.

Em vez de:


“Estamos sempre a discutir pelo mesmo.”


Passar para:


“Quando eu me sinto ignorada, fico crítica; quando fico crítica, tu afastas-te; quando te afastas, eu sinto pânico.”


Na EFT, isto chama-se externalização do ciclo:

• o problema deixa de ser “tu” ou “eu”,

• passa a ser “o ciclo que nos apanha”.

Sem esta etapa, qualquer técnica falha, porque o casal continua a lutar um contra o outro.


  1. A responsividade só é possível em estados de regulação.

Por isso, contrariar o ciclo implica abrandar, mesmo quando a urgência emocional pede aceleração.

Princípios-chave:

• Pausar antes de responder

• Reduzir o tom, a velocidade e a intensidade

• Sinalizar presença antes de qualquer explicação


Exemplo funcional:


“Estou a sentir-me ativado/a. Preciso de um momento para não reagir mal, mas não estou a fugir.”

Isto é radicalmente diferente de afastamento silencioso, porque mantém a ligação.


  1. Os ciclos mantêm-se porque as pessoas comunicam emoções secundárias (raiva, crítica, frieza), enquanto escondem as emoções primárias (medo, tristeza, necessidade de proximidade).

Contrariar o ciclo implica aprender a dizer:

• menos “estás sempre…”

• mais “tenho medo de não ser importante para ti”

A emoção primária aproxima; o sentimento protege, mas afasta.

Um ponto crítico onde necessidades não expressas como pedido tornam-se protesto.


Exemplo de protesto:


“Nunca estás presente.”


Exemplo de pedido vulnerável:


“Preciso de sentir que estou contigo quando falo disto.”


Pedidos vulneráveis:

• são específicos,

• são emocionalmente honestos,

• não culpabilizam.


Na EFT, este tipo de pedido é o que mais aumenta a probabilidade de resposta. A segurança constrói-se em pequenos momentos repetidos, não em grandes conversas ocasionais.

Micro-respostas eficazes incluem:

• parar o que se está a fazer por alguns segundos,

• responder ao nome ou à emoção,

• tocar, olhar, confirmar presença.

Exemplo simples:


“Ouvi-te. Isto é importante. Fala comigo.”


  1. A investigação mostra que a consistência destas pequenas acções ou gestos é mais determinante do que gestos grandiosos.

Num contexto real (2025/2026), a falha é inevitável. O que distingue relações seguras não é a ausência de falhas, mas a capacidade de reparação.

Reparar implica:

• nomear a falha,

• reconhecer o impacto,

• reafirmar ligação.


Exemplo:

“Quando me calei ontem, sei que te sentiste sozinho/a. Não foi desinteresse. Quero tentar outra vez.”


A reparação restaura segurança mais do que a perfeição. Esperar responsividade no meio de exaustão, multitasking, pressa, distração digital, é pouco ou nada realista. Contrariar o ciclo exige contextos protegidos, mesmo que breves com momentos sem ecrãs, conversas com tempo delimitado, rotinas previsíveis de encontro.


Alguns ciclos estão demasiado enraizados para serem reorganizados sem ajuda externa, sobretudo quando há trauma relacional, histórias de abandono significativas, o afastamento já é prolongado.

A EFT demonstrou eficácia robusta:

• cerca de 70–75% dos casais recuperam de forma significativa,

• efeitos mantidos a longo prazo.


Referências


Jovem a ler enquanto acompanha a frase com os dedos.

Johnson, S. M. (2008). Hold Me Tight. Little, Brown and Company.

Johnson, S. M. (2019). Attachment Theory in Practice. Guilford Press.

Johnson, S. M., Hunsley, J., Greenberg, L., & Schindler, D. (1999). Emotionally Focused Couples Therapy. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 67(1), 67–78.

Johnson, S. M., & Greenberg, L. S. (1985). Emotionally Focused Therapy for couples. Journal of Marital and Family Therapy, 11(3), 313–317.

Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2016). Attachment in Adulthood. Guilford Press.

McEwen, B. S., & Gianaros, P. J. (2011). Stress- and allostasis-induced brain plasticity. Annual Review of Medicine, 62, 431–445.

Turkle, S. (2015). Reclaiming Conversation. Penguin Press.

Wiebe, S. A., & Johnson, S. M. (2016). A review of EFT outcomes. Family Process, 55(3), 390–407.

Siegel, D. J. (2012). The Developing Mind. Guilford Press.


Nota de transparência: a articulação entre contexto sociocultural atual e responsividade emocional é uma interpretação clínica fundamentada nos modelos de vinculação, EFT e investigação sobre stress e regulação emocional. Não se trata de especulação, mas de integração teórica consistente.

 
 
 

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