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Natal e família: quando a pressão para estar juntos faz mal

  • Ana Mafalda Ferreira
  • 18 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

O Natal e os rituais sociais não existem apenas por tradição. Foram criados para organizar o tempo, criar pausas simbólicas e reforçar a ligação entre pessoas. Como escreveu o antropólogo Victor Turner, os rituais são momentos de transição que ajudam os grupos humanos a “sentirem continuidade e pertença num mundo instável”. Turner estudou comunidades tradicionais e mostrou que os rituais surgem precisamente quando a vida é exigente, para dar coesão e sentido à experiência humana.


Bolas de Natal

Durante grande parte da história, o trabalho ocupava quase todo o tempo e o corpo. As jornadas eram longas e o descanso escasso. Os encontros sociais tinham um valor vital. Não eram apenas celebrações, eram momentos de comunhão e sobrevivência emocional. Primeiro com forte ancoragem religiosa, hoje mais centrados na ideia de família.

A terapeuta familiar Froma Walsh descreve os rituais familiares como “estruturas que ajudam as famílias a regular emoções, transmitir valores e manter ligação ao longo do tempo”. Walsh, referência internacional na terapia familiar e citada pela APA, mostra que os rituais funcionam como reguladores emocionais quando existe segurança relacional.


O problema começa quando o ritual deixa de servir a ligação e passa a exigir submissão.

Quando existe violência na família, seja psicológica ou física, a pressão para “celebrar a família” torna-se profundamente desorganizadora. A própria APA é clara ao afirmar que “a manutenção de contacto familiar não é terapêutica quando compromete a segurança física ou emocional”. Esta posição surge das diretrizes clínicas para trauma e violência doméstica, onde a segurança vem sempre antes da preservação simbólica da família.


Nestes contextos, a pessoa é empurrada para uma posição interna de abandono. Aguentar pelo bem maior. Silenciar para não estragar o momento e permanecer para manter a imagem.

Os sistemas familiares organizam-se para reduzir ansiedade. Murray Bowen, um dos fundadores da terapia sistémica, dizia que “as famílias tendem a preservar a estabilidade mesmo quando essa estabilidade é dolorosa”. Ou seja, é por sobrevivência do sistema, mas o custo é frequentemente pago por quem sente mais claramente, questiona mais ou se diferencia.


As regras sociais demoram muito tempo a tolerar a diferença. A EFTA, federação europeia de terapia familiar, reconhece que muitos conflitos familiares não surgem por falta de amor, mas por “rigidez estrutural e medo da mudança”. Este medo faz com que a diferença seja vista como ameaça, e não como possibilidade de reorganização.


Mesmo para quem já não se identifica com a religião, o peso da culpa e do castigo continua presente sob outras formas. O psicólogo John Bowlby, criador da teoria da vinculação, explicou que “o medo de perder a ligação é uma das forças mais poderosas do comportamento humano”. Não é preciso acreditar em castigo divino para sentir culpa, mas que a ligação seja sentida como se estivesse em risco.


Hoje, esse medo manifesta-se no culto da família ideal, na obrigação de respeitar hierarquias antigas, na ideia de que os mais velhos vêm sempre primeiro, mesmo quando isso entra em conflito com as necessidades da família imediata ou do próprio corpo.

Não comunicamos porque temos medo. Medo do confronto. Medo de desiludir. Medo de romper equilíbrios frágeis.

A terapeuta sistémica Monica McGoldrick descreve os segredos familiares como “formas silenciosas de organizar poder e lealdade”.A investigação sistémica mostra que os segredos não protegem o sistema. Protegem posições. E quanto mais importantes são as datas simbólicas, mais pesados esses segredos se tornam.


Em épocas como o Natal, a pressão social para as reuniões, para as prendas e para a mesa perfeita organiza alguns sistemas, mas desorganiza profundamente outros.

A pergunta pode ser desconfortável: quando não dizemos o que precisamos, quem estamos realmente a proteger?


Os rituais têm um enorme poder de aproximação. Mas quando são capturados pela lógica da performance, da estética e do consumo, deixam de acolher e passam a excluir. Muitos indivíduos e núcleos familiares mais pequenos deixam de se sentir bem-vindos, respeitados ou seguros.

Como refere a literatura contemporânea em terapia familiar, “não é o ritual que cura, é a qualidade da ligação dentro dele”. Esta ideia atravessa diferentes modelos sistémicos reconhecidos pela APA e pela EFTA.


O problema não é individual. É sistémico. O Natal pode ser um momento de ligação, mas também de grande sofrimento emocional.

Precisamos de espaço para a diferença. De conversas transparentes, menos idealizadas e mais humanas. Os rituais devam manter-se, mas para os devolver ao que lhes dá sentido: ligação, escolha e respeito.


Criança a decorar arvore de natal

Se identificas algum destes elementos na tua dinâmica familiar, convido-te a considerar o seguinte:

1. Começar pelo corpo, não pela explicação

Antes de decidir ir, ficar ou dizer não, pergunta a ti próprio. "O que acontece no meu corpo quando penso neste encontro?" A terapia sistémica e o trabalho com trauma mostram que o corpo percebe a segurança antes da mente. Se há aperto, tensão ou exaustão antecipada, isso é informação válida e importante para permitir uma decisão informada.


2. Diferenciar não é atacar

Colocar limites não é rejeitar pessoas, é proteger a relação possível. E a relação possível não é a ideal. Isto pode soar assim:

“Este ano vou passar o Natal de forma diferente. Preciso disto para estar melhor.”

Sem justificações longas e sem debates morais. Se não queres perguntas de follow-up, expressa isso diretamente.


3. Limites são mais seguros quando em acção

Em vez de discutir valores, define comportamentos concretos: quanto tempo ficas, onde dormes, que temas não conversas sobre, quando vais sair e como.

Exemplo:

“Vou almoçar convosco, mas não fico para o jantar.”

Clareza reduz conflito. Ambiguidade aumenta ansiedade em grupo ou família.


4. Não esperar validação para te autorizares

Um erro comum é esperar que a família compreenda para então mudar. A investigação em diferenciação mostra que a mudança acontece primeiro dentro de nós. A validação externa pode nunca chegar.


5. Preparar uma saída digna

Terapeuticamente, isto é fundamental. Saber como sair reduz o medo de entrar. Uma mensagem simples, um transporte próprio, um horário definido. Segurança relacional inclui saber que podes ir embora, e implica liberdade.


6. Honrar perdas invisíveis

Para muitas pessoas, o Natal activa lutos não reconhecidos ou não falados: a família que nunca foi, o acolhimento que faltou, a mesa onde nunca houve lugar seguro. Reconhecer que sentes tristeza, sentes a falta de que algo exista é ok. Não tem de ser uma falha, tristeza é emoção e não diz nada de ti.


7. Criar micro-rituais alternativos

Se o ritual maior é demasiado, cria um mais pequeno, só teu e único. Uma refeição íntima, um passeio, um gesto simbólico. Como lembra Froma Walsh, “os rituais não precisam de ser grandes para serem reguladores”.


Se tiveres curiosidade e quiseres saber mais:

McGoldrick, M., Gerson, R., & Petry, S. (2008). Genograms: Assessment and Intervention.

American Psychological Association (APA). Diretrizes clínicas sobre trauma e violência familiar.

Bowen family systems theory and practice: Illustration and critique revisited by Jenny Brown

Walsh, F. “A Family Resilience Framework: Innovative Practice Applications”

“A Secure Base” — John Bowlby (teoria da vinculação)

Family Resilience: A Dynamic Systemic Framework (Walsh, F.)


Se estiveres a sentir sofrimento emocional intenso ou pensamentos suicidas, por favor, vê abaixo e contacta um dos números de apoio abaixo imediatamente. Estes serviços são gratuitos, confidenciais e existem para te ouvir.


Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – 1411

SOS Voz Amiga

213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660

Linha SOS Estudante

915 246 060 / 969 554 545 / 239 484 020

Voz de Apoio

225 506 070

Telefone da Amizade / Vozes Amigas de Esperança

222 030 707 / 228 323 535

Telefone da Amizade

222 080 707


Da Attunea, votos de um Natal com saúde e tranquilidade, respeito e liberdade.

 
 
 

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